Por Tiago Queiroz – www.nordesteusou.com.br – Foto Claudia Bernett

Conheça a trajetória do carioca Rene Silva

Negro e morador de favela, Rene Silva, 25 anos, detém todos os pré-requisitos para seguir o caminho que a sociedade, em muitas das vezes, relega ao jovem da periferia: o tráfico de drogas, o cemitério, ou com muita sorte, um papel de coadjuvante. Carioca, residente no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, uma das maiores favelas da América Latina, com cerca de 180 mil habitantes, Silva resolveu remar contra as perversas estatísticas. Aos 25 anos, figura numa lista como um dos negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo. O prêmio foi concedido no ano passado pela organização Mipad (Most Influential People Of African Descent).

A trajetória de Rene foi iniciada aos 11 anos de idade. Aluno de uma escola pública da comunidade, resolveu participar de um projeto de criação de um jornal escrito pelos alunos da própria escola. Foi durante essa jornada que o garoto teve o seu primeiro acesso ao computador e a internet. Foi também durante esse período que Rene descobriu a paixão pela comunicação. A experiência no jornal da escola despertou no jovem a ideia de criar o seu próprio canal, como ele mesmo conta: “Depois de participar do jornal da escola pensei em criar um jornal para dentro da comunidade, onde eu pudesse falar e mostrar o que acontecia na comunidade: nosso cotidiano, nossos problemas sociais, nossos projetos culturais…”. O tempo foi passando, o jornal foi crescendo. Rene já estava com 17 anos quando eclodiu no Alemão uma grande operação na favela. Era novembro de 2010. “Eu estava ali dentro, acompanhando tudo aquilo. Foi então que decidi, através do twitter, mostrar o que estava acontecendo dentro da comunidade. Comecei a narrar tudo o que via. Falava quando o ônibus parava de funcionar, quando o moto taxi não funcionava, quando o comércio fechou, quando a escola parou de funcionar… Eu tinha aproximadamente 180 ou 200 seguidores, entre amigos da escola, professores e amigos aqui da comunidade. Todos perguntavam se eu estava seguro e eu ia respondendo. Conforme eu respondia o número de seguidores ia aumentando de forma muito rápida e eu não entendia o porquê. Em pouco mais de quarenta minutos eu já estava com cerca de 15 mil seguidores. Em 24 horas pulei para quase 50 mil. Muitos jornalistas de dentro e fora do Brasil começaram a me seguir”.

Após literalmente botar a grande mídia no bolso com a estratosférica repercussão da cobertura da ocupação policial no Alemão, Rene foi alçado ao papel celebridade. Foi entrevistado pelos principais telejornais e estampou seu rosto nos principais programas de televisão. Rene, que até então jamais tinha saído do Rio de Janeiro, passou a ser convidado a fazer palestras e contar sua experiência pelo Brasil e por vários países do mundo. “Eu não imaginava que após aquele momento minha vida fosse mudar. Primeiro país que eu fui foi a Inglaterra, depois fui para o México, Índia, Colômbia, Chile, Estados Unidos, França, dentre outros. Minha maior surpresa foi quando recebi o convite, em 2012, para palestrar na Universidade de Harvard. Lá pude compartilhar com alunos do curso de mídia digital como pude através da internet transformar a realidade da comunidade em que vivo”, explica Silva.

Nordeste x Alemão – Em entrevista exclusiva ao Nordesteusou (NES), durante sua passagem em Salvador, Rene explicou as semelhanças entre o Nordeste de Amaralina, onde ele esteve pela segunda vez, e o Complexo do Alemão. “Apesar das favelas se parecerem muito cada uma tem as suas particularidades, mas no fim tudo é o mesmo povo. O povo que está na favela do Alemão é o mesmo que está aqui no Nordeste de Amaralina. Nossas conexões são relacionadas aos mesmos problemas: falta de saneamento básico, falta de água, iluminação pública, ruas esburacadas… A falta de atenção do poder público com esses lugares é o mesmo em todos o país”, ressalta. A questão do papel da juventude foi outro assunto abordado por Rene, que estabeleceu uma comparação entre o “ser jovem no Nordeste de Amaralina” e o “ser jovem no Complexo do Alemão”: “Assim como no Nordeste, ser jovem no Complexo do Alemão é um grande desafio. É um exercício diário de sobrevivência. Você é o tempo todo confundido com traficantes. Qualquer jovem para eles é do tráfico. Não temos a liberdade de curtir um baile funk, se divertir, de nada… A polícia está o tempo todo criminalizando os jovens pelo fato de seres jovens e querem se divertir. O jovem gosta da rua, dos amigos, de falar com as pessoas… A polícia impede até que o jovem possa curtir um som na rua, que aqui vocês chamam de “paredão”. No Rio de janeiro a polícia age da mesma forma que aqui: já chegaram dando tiro, com spray de pimenta”.

Para os moradores do Nordeste de Amaralina, sobretudo os jovens, que assim como ele, são a todo momento testados a transpor as mesmas barreiras impostas pela sociedade, Rene deixa a seguinte mensagem: “Nós temos o mundo inteiro para conquistar. O conhecimento leva a gente para qualquer lugar do mundo. Usem e abusem da tecnologia para o bem, para o conhecimento e para que você possa um dia ir para outros estados, outros países e fazer o que você gostaria de fazer e não o que a sociedade diz que você tem que fazer. A sociedade muitas vezes acha que morador de favela só serve para ser pedreiro, empregada doméstica e servir às grandes elites. E não é nada disso. O jovem tem a liberdade de fazer o que ele quiser. Estamos num momento em que a gente precisa e pode sonhar”.

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