Ainda em busca da paz

CHICO ALVES

CHICO ALVES -Jornalista, formado na Facha, trabalhou na Revista Semanário, da Editora Abril, na Revista IstoÉ, fez matérias para a Carta Capital e hoje é editor-executivo de O DIA.

CHICO ALVES -Jornalista, formado na Facha, trabalhou na Revista Semanário, da Editora Abril, na Revista IstoÉ, fez matérias para a Carta Capital e hoje é editor-executivo de O DIA.

Quatro anos após a implantação do chamado processo de pacificação pelo governo do Estado, os moradores do Alemão continuam desejando o mesmo que desejavam antes: paz. Quando em novembro de 2010 a UPP chegou, apesar da violência usada e da militarização da rotina das pessoas, a comunidade sonhava com duplo benefício: mais segurança para o lugar por tanto tempo dominado pelo tráfico e a entrada de serviços básicos. Restou a frustração. A chegada dos serviços e o investimento social ficaram muito abaixo do esperado e, depois de um curto tempo sem confrontos, a paz voltou a ser uma raridade. Os tiroteios frequentes e as várias vítimas dos últimos meses são prova de que, pelo menos no Alemão, a tal pacificação não passa de uma palavra inscrita no programa governamental.

Em outras comunidades que receberam UPPs em seis anos, a realidade é a mesma: pequena melhora da infraestrutura social e ressurgimento do clima de medo. Aos poucos, a rotina volta a ser bem parecida com aquela do passado. Além das trocas de tiros, voltaram a fazer parte do cotidiano os trechos das comunidades por onde ninguém deve passar e a lei do silêncio. A própria cúpula da Segurança Pública admitiu a estagnação do projeto considerado inovador ao ser adotado em 2008. Diante da decepção crescente dos moradores depois da enorme expectativa criada com as UPPs, a correção de rota não será tarefa fácil.

Apesar dos erros na condução do processo, o secretário José Mariano Beltrame tem repetido um comentário que é bastante lúcido. Disse ele várias vezes que a pacificação não pode ser feita apenas com polícia. Pena que não tenha sido ouvido pelo governador anterior, Sérgio Cabral. A verdadeira paz só reinará no Rio de Janeiro quando em comunidades como o Alemão as famílias tiverem oportunidade de trabalho, educação e renda semelhantes às do restante da cidade. Enquanto sobrar para essa imensa população das favelas apenas as migalhas do orçamento aplicadas em ações urbanísticas pontuais ou em projetos de uma ou outra ONG, o Estado não estará colaborando verdadeiramente para a pacificação. Na verdade, essas áreas deveriam ser priorizadas na divisão dos recursos públicos.

A socióloga Vera Malagutti, secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia, tem para a situação atual uma definição perfeita: “Se para tudo ficar tranquilo é necessário encher as ruas das comunidades de soldados, isso é indício de que nada está tranquilo.” Esperemos que, como por milagre, o governador Pezão perceba isso e trate essas favelas com o respeito que elas merecem. Ou a tal pacificação terá sido apenas uma esperança que ficou para trás.

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