Texto: Mariana Assis
Foto: Renato Moura

Sempre fui fascinada por palavras. Muito por conta disso, fiz delas meu ofício. São as palavras que também assumem o papel de ajudar a narrar o mundo, de conseguir entender a dimensão das coisas. Na época do Ensino Médio, minha professora de português sempre berrava em sala de aula: “As palavras têm poder, ouviram?”. Na maioria das vezes eu ria, confesso, era um tanto engraçado e interessante vê-la enfatizando com tanta força e expressividade. Hoje, vejo a importância daquele discurso incisivo e, para tanto, necessário: quando compreendemos as palavras e tudo o que são capazes de nomear, compreendemos o real significado do que está sendo falado.

Essa reflexão nasce a partir de inquietações sobre como os casos de violência no Rio de Janeiro têm sido noticiados. Só no primeiro trimestre deste ano, entre janeiro e março, foram registrados 434 óbitos no âmbito de mortes realizadas pelas Polícia Militar e Civil, segundo dados divulgados pelo o Instituto de Segurança Pública, o (ISP-RJ). Em outros termos, significa quase cinco mortos (4,82) por dia, recorde para a estatística em 21 anos, iniciada em 1998. Nos primeiros dias de maio, da sexta-feira, dia 3, à segunda-feira, dia 6, pelo menos 13 pessoas morreram por ação policial: quatro no morro do Borel, uma na Rocinha e oito nas favelas do Complexo da Maré.

“Escola. Não atire. Projeto Uerê” 

Apesar de estar desde de julho de 2016 no teto da escola Uerê, no Complexo da Maré, foi na semana passada que as imagens da placa viralizaram nas redes sociais. O apelo, tenta prevenir que a unidade não seja alvo em operações, evitando que outros estudantes, como Maria Eduarda, assassinada dentro de um colégio em 2017, aconteça novamente.

A escola atua, desde de 1998, atendendo crianças com problemas cognitivos e emocionais causados por trauma de violência. Dentro das atividades propostas, há o treinamento para que os alunos saibam lidar da melhor maneira possível com situações de risco. Ou seja: enquanto eles poderiam estar tendo aulas de matemática, português, teatro, geografia, os estudantes são introduzidos a  técnicas de segurança. Repito: técnicas de segurança para crianças saberem se proteger em casos de conflito armado.  Mesmo  assim, manchetes classificam que tiroteios “assustam moradores”, provocam “mais uma troca de tiros na favela tal”.

Tente se projetar na cena: você está na escola durante uma aula. Começa a ouvir tiros e a professora interrompe a aula. Todos os alunos são orientados a se abaixar. As rajadas se intensificam. O barulho é cada vez mais perto. A luz acaba. A mensagem no whatsapp é categórica: ninguém sai de onde está. Não há como reprimir: as lágrimas começam a correr no rosto desconfigurado pelo terror. Cotidiano e truculento. A extrema tensão já dura mais de duas horas. O celular toca: o pai de uma das crianças acaba de ser atingido. Morreu. Seria um susto?  

A bala perdida que sempre acha os mesmo corpos

Renato Moura/Voz das Comunidades

Esse modo de noticiar, pouco informativo e compromissado, continua sendo usado mesmo com todos os índices de letalidade alcançando níveis alarmantes. Quando a imprensa banaliza que uma parte da cidade se encolhe e torce para não ser alvejada e, a outra, festeja que “finalmente” uma política de segurança pública esteja em curso para confrontar a “guerra às drogas”, acaba por nomear com pouco esclarecimento, rigor, comprometimento e responsabilidade. A “bala perdida mata morador na favela x ” é tão recorrente quanto o seu destino: sempre encontra corpos pretos, pobres e favelados. Impressionante.

A redução do significado do assassinato, metralhada, execução ou atentado de uma pessoa dentro da favela, aponta não só para a seletividade de importância de vidas, numa perspectiva que os destitui de garantias e direitos, como também se ausenta de quem apertou o gatilho, de quem sustenta, gerência e endossa o discurso: “É um lugar violento. Uma hora ou outra ia morrer mesmo”. A irresponsabilidade da imprensa em retratar os casos de violência no Rio desorienta, é pouco eficiente e anestesiante. É importante frisar que a mídia, enquanto potente forma de comunicação social, constrói narrativas que permeiam a sociedade e pauta o debate público. O “susto” dá conta das 436 mortes, de janeiro a março?

Saindo do contexto do Rio de Janeiro e abrangendo o nacional, segundo o Atlas da Violência 2018, publicação do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada) junto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de pessoas mortas no Brasil é semelhante ao de países em guerra, como a Síria, no Oriente Médio. Isso porque, de acordo com o documento, nos últimos 11 anos foram registradas 553 mil pessoas assassinadas. Na Síria, país da arábia que há 8 anos enfrenta conflitos armados, já contabiliza mais de 550 mil mortes, segundos dados estimados pela ONU (Organização das Nações Unidas), divulgados em 2018.

O esforço de naturalização, tende a se materializar no reforço de estereótipos sub-humanos e chancelar que cada vez mais corpos sejam alvos de políticas públicas recortadas por gênero, raça, território, classe social. O direito ao desenvolvimento pleno, de caráter inalienável, com uma vida digna e saudável, é violado também pelo poder das palavras, de que tanto minha professora falava. Com frequência, falseia a realidade, enquanto muitos gritam, choram e clamam por respeito: “Parem de nos matar. Nossa vidas importam”.

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