Terceira margem do Rio #OPINIÃO

ARTIGO DE OPINIÃO: Em um país abaixo da linha do equador não existe pecado, e sim uma relação devoradora, no sentido antropofágico. Existimos conforme os valores lúdicos os quais soubemos nos apropriar. A música popular, o futebol e os bailes funks no caso de algumas periferias sem dúvida cumprem esse papel de formação cultural em um país, onde muitas pessoas não têm acesso aos literatos e músicos eruditos. Mas como tratamos de Brasil, um país no qual a canção popular soube incorporar magnificamente os elementos folclóricos e a literatura conseguindo assim alinhar e realizar uma mistura pop arrebatadora de poetas sambistas, bossa-novistas e sertanejos e infinitos outros exemplos os quais devoraram em um rico flerte entre canção erudita e popular, fato curioso, e que de tantos atrevimentos essas figuras da margem, também queriam discutir e ao mesmo tempo pensar um projeto de Brasil. Sim foram os índios que devoraram os portugueses e não os portugueses que devoram os índios.

Em mais uma edição da FLUP – Festa literária das periferias, devoramos com muito prazer o recheio das poesias e canções carameladas, que mais uma vez cumpriram seu objetivo de trincar os ouvidos e olhos sedentos, trancafiados na poesia e libertos a pensar no Brasil e no mundo. Por mais lindo é o acalanto de uma poesia a qual sucumbiu nossos neurônios com emoção e botou definitivamente uma dinamite na cabeça do século com brilhantismo e amor retumbante fazendo assim que os nossos corpos retorcessem diante do magnânimo trabalho de mediação artística, o qual devorou a mistura das diversas manifestações culturais, tais como filmes, mesas de debates, apresentações de teatro, a leitura e a modalidade de narrativa poética ou simplesmente slam que vem ganhando há certo tempo um grande público, sobretudo de jovens os quais querem gritar bem forte ao mundo e para o mundo, suas tristezas, alegrias, angústias ou revoltas existe uma metacomunicação nas suas poesias.

No entanto ao mesmo tempo desse caldeirão misturado e cativante de poesia e leitura, a cidade e o estado do Rio de janeiro passam por diversas crises sistêmicas como a instabilidade na segurança pública, a intolerância religiosa, a corrupção e sem mencionar a grave crise no financeiro na qual o estado vem enfrentando nos últimos anos. Por sua vez a organização da FLUP montou sua casa itinerante no Morro do Vidigal no qual passa por constante tensão, sobretudo por causa dos recentes conflitos que ocorrem na favela da Rocinha, vizinha ao Vidigal. Todavia, com tantas dificuldades, a organização da FLUP teve sua realização ameaçada por conta do patrocínio, que o auxilia no repasse de verbas, mas acima de tudo existia o medo que houvesse um confronto entre facções rivais, que felizmente não ocorreu. Contudo relatar também o apoio da UERJ – Universidade do estado do Rio de janeiro que vem enfrentando uma severa crise, na realização e organização do evento, os professores do departamento de letras traduziram todo o conteúdo dos visitantes estrangeiros como anualmente é feito, porém, o marco desse ano foi que os professores não receberam, pois como havia dito, aconteceu uma diminuição dos repassasses que impossibilitou o pagamento. Esse cenário caótico mostra como a organização e os professores trabalharam por amor, mas, principalmente por resistência. Em suma, em meio a tantas adversidades a festa ocorreu trazendo uma ótima expectativa aos moradores e visitantes. Meninos e meninas de diversas áreas do Rio se apresentaram com suas angústias e alegrias que os rodeavam.

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