Moradora da Vila Cruzeiro luta pelo direito de ser operada

Na fila do INTO há mais de 10 anos, jovem sonha ser jornalista e fazer documentário sobre moradores de rua

Dayani Christini Vieira de Paula, moradora da Vila Cruzeiro, na Penha, era para ser só mais uma jovem de 24 anos se não fosse por um detalhe.

Dayani trabalha em uma farmácia de manipulação para ajudar os dois irmãos mais novos e a mãe, que está desempregada. Gosta de ler, dançar, viajar e ajudar ao próximo. Sonha ser jornalista e fazer um documentário com histórias de moradores de rua que ela diz “terem histórias fantásticas”.

Tudo o que se espera de uma jovem vaidosa que tem foto de biquinho no perfil do Whatsapp. O detalhe que diferencia Dayani de outras meninas de 20 e poucos anos é que ela nasceu com uma doença chamada escoliose congênita.

Segundo o médico ortopedista Carlos Augusto Valim Rosa, a escoliose congênita é uma doença que, como a palavra diz, nasce com a pessoa. “A escoliose congênita é um desvio lateral da coluna que nasce com a deformidade da vértebra. Quando a vértebra é formada dentro do útero, metade cresce de um lado, e a outra pelo outro lado.

Por um problema qualquer, acontece uma alteração dessa formação onde um lado deixa de formar e outro lado continua formando. Por isso, enquanto uma vértebra forma, o outro lado vai diminuindo. Com o crescimento da pessoa, isso vai se acentuando”.

Em geral, segundo o Dr. Carlos Augusto, a doença é diagnosticada entre um ou dois anos de idade.  No caso de Dayani, isso aconteceu no dia em que ela nasceu.  Segundo a mãe, Suzana Regina Vieira, assim que pegou a recém-nascida no colo, ”sentiu um vácuo, uma coisa funda debaixo do braço” e avisou a equipe médica.

A boa notícia é que, apesar de não ter cura, uma cirurgia para correção resulta numa melhora bem significativa para o paciente, uma coluna quase que totalmente ereta. Sabendo disso, a família de Dayani procurou o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, o INTO. Foi quando a novela começou. O famoso “senta que lá vem treta”.

Segundo Dayani, sua avó, já falecida, assinou um termo de consentimento para o risco cirúrgico e, após um exame de raio-X, ela já estava na fila de espera para ser operada. Na época ela tinha 14 anos. Passaram-se 10 anos depois daquele dia.

Tempos depois, ligaram do INTO para saber se “ela já tinha falecido”. Constatada a vida da paciente, disseram que ela continuava na fila. Depois disso, a família, há cerca de um ano, fez contato novamente. A atendente – não identificada – do INTO afirmou que não há nada da paciente no sistema desde 1998. No entanto, o registro da última consulta da paciente é de 27/03/2007.

A equipe de reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa do INTO.

Por e-mail, eles afirmaram que fizeram três tentativas de contato por telefone e uma por carta, todos sem sucesso. Ainda segundo a assessoria do INTO, basta a Dayani ir até ao hospital que fica na altura da Rodoviária, no Centro do Rio de Janeiro, e falar com a Ouvidoria:

“A paciente Dayani Christini Vieira de Paula deve comparecer à ouvidoria do INTO para atualização do seu cadastro e retornar para sua posição original na fila. Após a regularização do cadastro, será possível agendar uma consulta para reavaliar o estado clínico da paciente. “

O capítulo mais duro dessa novela, e o que realmente importa, é que Dayani sente falta de ar e incômodos. Sua costela fica no lado esquerdo do peito “eu sinto um caroço perto do coração”, afirma a jovem.

Segundo o Dr. Carlos Augusto, se Dayani operasse hoje, com 24 anos, com pouco mais de seis meses de recuperação e fisioterapia, teria uma vida nova. É tudo que ela quer. E tudo a que ela tem direito.

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