Prata da casa: os jovens influentes do Alemão

Entre as ruas e os becos do Complexo do Alemão cresceu uma turma inquieta e de sonhos latentes. Em meio aos tiros e notícias violentas, um grupo de jovens se destaca pela projeção de trabalhos e ideias construtivas espalhadas pelo mundo. Eles souberam mudar o estereótipo de quem mora no morro e hoje representam a potência de uma juventude comprometida em divulgar o nome da favela. São trajetórias que superaram expectativas, que nos motivam e arrancam sorrisos.

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O Voz da Comunidade conversou com cinco destes jovens e conheceu histórias como a de Daiene Beatriz, de 23 anos, que se apaixonou pelo audiovisual quando cursou a faculdade de Publicidade e buscou na Nave do Conhecimento um curso para se aprofundar na área. Foi lá também o seu primeiro contato com o jornalismo, que abriria um extenso caminho. “O primeiro trabalho que fiz na praça foi uma reportagem e as entrevistas sobraram para mim. Depois disso as pessoas disseram que eu levava jeito. Até então, nunca tinha pensado em ser jornalista”. Logo depois, veio o curso de comunicação comunitária, que fez de Daiene repórter mais algumas vezes.

A oportunidade do Parceiros do RJ veio para apresentar melhor os caminhos do jornalismo e do morro onde morava. “Tivemos um mês de treinamento, ao longo do qual aprendemos mais sobre a rotina do jornalista. Foi quando conheci, de fato, o Complexo do Alemão”. A experiência durou pouco mais de um ano e meio. Nesse tempo, Daiene se inscreveu no Vozes Urbanas, programa de intercâmbio Nova Iorquino que promove troca de conhecimento entre jovens que trabalham com comunicação comunitária, e ficou uma semana em NY conhecendo os jornais do país. “Foi uma novidade, porque o lugar mais distante que eu conhecia era São Paulo e, mesmo assim, eu tinha viajado de ônibus. Eu nem falava inglês”, rememora.

Depois de tanta bagagem, a jovem é vista como referência onde mora e contagia a muitos outros jovens que buscam um lugar no mundo. “É uma responsabilidade grande, mas eu fico feliz. Você mostra que é possível, sim, conquistar muitas coisas. Acabei me tornando um exemplo para as pessoas, como fui na minha casa”. Depois que entrou na área da Comunicação, Daiene também contagiou sua família. “Meu irmão sempre foi meu parceiro nos trabalhos. Hoje ele cursa Rádio e TV e fez os mesmos cursos que eu na Nave do Conhecimento. Minha irmã mais nova está estudando Publicidade e Propaganda, também por minha influência. Isso é muito bom porque podemos trabalhar juntos”.

No ano de 2015, Daiene voltou aos Estados Unidos para mais uma aventura. Comprou a passagem, renovou o visto e foi estudar inglês. Reencontrou amigos que fez na primeira viagem, trabalhou para se manter no país e voltou com inglês e muitas outras experiências na bagagem. Agora, pretende terminar a faculdade de jornalismo e ingressar de vez na área. “Eu achava que o intercâmbio era muito distante da minha realidade, achava que só ricos podiam estudar fora. Mas precisamos correr atrás dos nossos sonhos. Eu digo às pessoas que dinheiro não é empecilho. Comecei fazendo um curso gratuito que me abriu muitas portas. Eu ficava horas na internet pesquisando cursos e achei muitos de graça. O que a gente precisa é um pouco de esforço, força de vontade e sonho. Por mais que pareça difícil, ainda mais pra gente de favela. Mas precisamos tentar, porque o não, nós já temos, precisamos buscar o sim.”

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O morro do Adeus perdeu um possível bombeiro, mas ganhou um repórter fotográfico com projeção mundial. Betinho Casas Novas não reclama de ter deixado para trás um desejo de criança. A vida se encarregaria de lhe apresentar muito mais. Desde 2013 de volta ao jornal, o diretor de fotojornalismo do Voz da Comunidade é um porta-voz do Complexo do Alemão dentro e fora do país.

Seu primeiro emprego foi numa padaria, aos 17 anos, para ajudar nas despesas de casa. Ele fazia entregas e em uma delas conheceu Walter, dono de uma gráfica de Web Design, que sempre o recebia na porta da empresa e seria seu incentivador na futura profissão. “Ele gostava de mim e sempre perguntava se eu tinha planos para o futuro. Eu só pensava em receber meu dinheiro e ajudar em casa. Até que um dia ele perguntou se eu toparia fazer um curso de fotografia com tudo pago, pra que depois ele me encaixasse na empresa. Eu resisti de primeira, mas acabei aceitando”. Terminado o curso, a morte de Walter fez Betinho desistir, ainda que temporariamente, de mais um sonho.

O reingresso na fotografia aconteceu anos depois, começando com eventos do bairro e solidificando com o incêndio na redação do Voz da Comunidade, em 2013. A fim de ajudar a reconstruir a sede, Betinho retornaria ao jornal que ajudou a fundar ainda criança e encontraria um mundo de possibilidades nunca antes imaginado. A contraditória onda de violência após a pacificação seria passaporte para que suas fotos viajassem o mundo. Betinho viu seus registros serem compartilhados com muita rapidez por jornais do país e do mundo. Ele conta:

– Fiz a foto de uma manifestação que, em poucos minutos, foi parar no The New York Times. Foi assim que comecei a ter notoriedade”. As imagens da cobertura da morte do menino Eduardo foram pra capa do El País, na Espanha. Outras ilustraram os jornais The Independet (Inglaterra) e The Los Angeles (EUA). No final do ano de 2014 as fotos de Betinho resultaram em um prêmio de imagem e destaque na retrospectiva do Fantástico.

A experiência profissional se confundiu com a pessoal quando fez de Betinho um cidadão socialmente ativo. “Tenho a fotografia como base de vida e agradeço muito ao Voz por isso. Antes de retornar para o jornal, ninguém me conhecia, nem meus vizinhos. Eu me sentia a invisível. Depois que comecei a trabalhar o lado social, as pessoas me reconhecem e batem à minha porta pedindo ajuda”. Hoje Betinho ainda atua com cursos livres de fotografia para crianças e adultos e tem o objetivo de contribuir para a diminuição dos problemas da comunidade. “Divido a vida em três partes: pessoal, profissional e social. A fotografia me trouxe o lado que faltava. No jornal, eu ouvi e vi coisas que não existiam no meu convívio e fiz matérias que ajudaram pessoas de forma eficaz. Consigo, por meio da fotografia, ajudar as pessoas. A gente está aqui pra ser porta voz, mostrando os problemas e as alegrias do morro para quem precisa ver”.

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“Eu não desejei ser a vista, fui me tornando pelo caminho”, contou Raull Santiago, morador do Morro da Alvorada. De origem bem humilde, ele conta que começou a conciliar estudo e trabalho aos 14 anos. Sua proximidade com o crime sempre foi grande. Apesar de não fazer parte, convivia com amigos que eram envolvidos com o tráfico. O emprego como entregador de um mercado na Grota fez o menino conhecer muita gente no morro, incluindo Helcimar Lopes, Comunicador Social e um dos pioneiros na iniciativa da inclusão digital no Alemão.

Helcimar fundou o Infogrota, que era uma espécie de Lan House. O lugar onde concentrava os jovens da idade de Raull, depois de um tempo serviu como casa para inúmeros eventos. “O Helcimar me mostrou outro caminho. Ele ficava preocupado com meu futuro e me chamou pra trabalhar com ele nas festas”. Pouco tempo depois, alguns dos jovens que trabalhavam nesses eventos da comunidade e entorno decidiram criar um grupo para combater o lixo no morro por conta das enchentes que alagavam o complexo. “A gente improvisava filmagens com celular e postávamos tudo nas redes sociais. Mas é muito difícil trabalhar com uma coisa só dentro da favela, porque você vai conhecendo e abrindo um leque de possibilidades maiores. Então a gente não conseguiu ficar só no lixo”. Após a pacificação, o grupo começou a fazer um trabalho de conscientização da comunidade para os problemas que aconteciam.

Atualmente, Raull faz parte do Coletivo Papo Reto que busca usar a comunicação como estratégia de reafirmação de direitos, mostrando os problemas diversos em busca de soluções e divulgando as coisas interessantes que acontecem no morro. O projeto tem redes com instituições internacionais que estimulam pesquisas e oficinais de conscientização para os moradores. “Trabalhamos com oficinas que ensinam como fazer registros de violência de forma correta e que sirvam como prova jurídica. É um suporte para nós que moramos na favela”. O projeto está sendo apoiado pela Brazil Foundation e troca experiências com ONGs dos Estados Unidos. Atualmente eles fizeram uma passagem de dez dias participando de uma série de ações na área de Comunicação em locais de risco. O desejo de Raull é transformar o que aprende em incentivo para a sua geração. “Não sonho mudar o mundo, eu sonho com a possibilidade de dar, minimamente, uma chance a outros jovens de escolherem caminhos diferentes, de forma consciente. Posso resumir minha vida numa transformação de um passado em que só conhecia o Complexo do Alemão, para hoje, em que eu conheço um pouco do mundo. Quero mostrar às pessoas que tem muitas coisas para a gente conhecer e conquistar”.

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“A Fotografia ajuda a mudar o olhar das pessoas. Eu via coisas na favela e não acreditava que só eu pudesse enxergar essas belezas.” O depoimento é de Bruno Itan, nordestino, que chegou ao Rio de Janeiro ainda criança, acompanhado da mãe e da irmã mais velha, todos vindos do Recife. A família vinha em busca de uma vida melhor. Bruno, que se encantou com o pôr do sol no alto do morro do Alemão, trazia para a favela as sementes de um futuro próspero.

O menino de treze anos não entendia por que só via notícias tristes e imagens violentas de um lugar do qual também conhecia a beleza. “Nunca entendi porque só se falava em tiroteio, morte e nunca mostravam os meninos soltando pipa. Fiquei com isso em mim, desejando um dia mudar a visão que as pessoas têm aqui do Morro”.

Cinco anos depois, Bruno veria na fotografia uma oportunidade de realizar um sonho antigo. Começou fotografando os eventos do bairro, até encontrar num dos projetos do PAC um curso de fotografia. Com ajuda do professor Dani Borges, que sempre o incentivou além do curso, Bruno foi aprimorando seu olhar através da lente. Quando chegou a época de trabalhar com a fotografia, ele precisou comprar seus equipamentos e foi com a ajuda de um emprego de lavador de carros que conseguiu levantar o dinheiro que precisava. “Falei com a gerente que ia trabalhar só para virar fotógrafo e ela me desacreditou. Quando completei seis meses, pedi as contas, porque já tinha conseguido o dinheiro da câmera. Todo mundo ficou assustado.” E assim ele começou a viver de fotografia e pôde mostrar ao mundo aquelas imagens que o encantavam quando criança.

Durante a ocupação do Alemão, Bruno foi o único a fazer cobertura fotográfica de dentro da comunidade. As fotos foram parar em jornais e em uma exposição visitada pela Presidenta Dilma, no dia da inauguração do Teleférico, que muito elogiou o trabalho. Isso gerou mais oportunidades para Bruno, incluindo o emprego atual como fotógrafo oficial do Palácio Guanabara. Hoje, Bruno é convidado para palestrar em universidades contando sua história, impulsionando e emocionando a todos que têm algum objetivo na vida, como fez com seus antigos colegas de trabalho no lava-jato, em visita durante uma cobertura de eventos com o Governador.

“Comecei a retratar outra visão da favela com meu trabalho, expondo os meus sentimentos e os registrando em fotos. Eu acredito muito em mim, no meu potencial e em Deus, e a partir disso consegui tudo o que tenho. Poderia ter escolhido outros caminhos, mas hoje estou aqui motivando outras pessoas.” – comemora.Renesilva022

A juventude influente do Alemão leva o nome do morro pro mundo e em retorno traz o mundo para o morro. É uma turma orgulhosa de ter a favela como matéria prima de seus trabalhos.

Considerado pela Forbes um dos 30 jovens mais influentes do Brasil com idade abaixo de 30 anos, Rene Silva, o criador do Voz da Comunidade, representa a favela. Poucos sabem que ele também já ganhou o prêmio de maior comedor de podrão do jornal, perdendo a posição do açaí apenas para seu irmão, Renato. Brincadeiras à parte, Rene tem um amor muito grande pelo aspecto favela. Assim como os demais talentos do Alemão, seu discurso percorre o mundo com a pegada dos becos da comunidade onde cresceu. “A favela tem uma coisa muito diferente do asfalto, todo mundo se conhece e todo mundo é muito solidário com o outro. Se um passa mal, quem tem carro já se oferece pra levar no hospital. E isso é uma coisa única que temos aqui”, conta o jovem que incorporou a solidariedade em sua vida por meio da Comunicação, criando o jornal aos 11 anos para retratar as dificuldades e belezas de onde morava.

E todo o conhecimento adquirido pelo mundo, é voltado e adaptado em benefício às comunidades do Rio. “Quero expandir o Voz das Comunidades. Eu acredito muito na comunicação comunitária, de bairro, que interessa e aproxima as pessoas que moram ao redor. Então, busco trazer as experiências de outros ambientes pra o jornal e ajusto sempre à nossa realidade”, explica Rene.

(Foto: Renato Moura/Jornal Voz da comunidade)

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