Um turismo diferente no Complexo do Alemão

Em uma tarde de sexta-feira ensolarada o Complexo do Alemão recebeu Mc Léo Feres e DJ João, como são popularmente conhecidos em Florianópolis, cidade onde residem. Apaixonados por funk, Leonardo Feres, 25, e João Marcelo Knabben, 26, disseram que não poderiam ir embora do Rio de Janeiro sem conhecer o famoso Complexo. A ideia, segundo eles, era desvendar o que está fora da rota de turismo mais comum. Aproveitando que o teleférico estava com catraca livre, fomos acompanhá-los nesse passeio por cima da comunidade.

No primeiro momento, um pouco apreensivo com o balanço da gôndola do teleférico e também com todas as notícias veiculadas sobre a violência, nítidas diferenças entre as favelas do Rio de Janeiro com a única favela existente em Floripa, Leonardo disse: “A comunidade que existe lá, é bem pequena. E é engraçado, porque não existe pobreza, miséria. São pessoas com renda um pouco menor do que boa parte da cidade. Florianópolis é muito bem desenvolvida, a maioria das pessoas é classe média alta.” Sobre o Alemão, comentaram: muito mais seguro do que eu imaginava, pelo que todo mundo falava. A vista é linda!” – comparou Léo, que sempre vem ao Rio, já conhecia a Rocinha e costuma frequentar o Rio das Pedras. Se autointitula fã assumido de favelas e diz nunca ter do a impressão de que o Complexo é a favela mais perigosa do Rio de Janeiro, como muitos consideram. Assume ainda que o funk ajudou muito a ter essa visão, mesmo sem o contato continuo.

Já com João, que só acompanhava o Complexo do Alemão pela televisão, a visão era diferente… Disse ter sido muito alertado antes de vir e afirmou que os próprios cariocas acabam vendendo essa ideia: “Engraçado, também tive essa sensação de segurança. Mais aqui do que em outros locais. Achei o teleférico bem organizado, cheguei a pensar que poderia ser tumultuado. Vi um pouco de uma realidade que não é a minha e fiquei muito surpreso das pessoas conseguirem encarar e conviver de forma tão alegre. Não que os problemas não existam, mas tem essa outra forma de encarar. Do pouco que vi, tem muita gente rindo, conversando, feliz. É surpreendente”.

A segurança no Brasil tem sido um dos temas mais debatidos há anos e as diferenças na segurança em um mesmo estado são perceptíveis para quem observa bem. João esteve no Rio de Janeiro, pela

primeira vez, em 2007, para assistir aos jogos Pan- americanos, onde a segurança foi reforçada na Zona Sul, por causa do turismo, nas vias de acesso aos jogos e nos locais onde eles ocorrem, e percebeu que isso não poderia ser parâmetro de avaliação da segurança no Rio de Janeiro. “Passando de carro pela Linha Vermelha, durante os Jogos Pan-Americanos, fomos parados, eu e meu o, e os policiais já chegaram apontando as armas e todas nossas malas foram revistadas. A primeira sensação que tive, foi que a cada passo iriam me revistar, mas aos poucos fui vendo que isso era uma ação especial. ”

Léo, após passar sete meses morando no Rio, contou ter sido assaltado duas vezes em sua primeira semana em Floripa.

Muito surpresos, os turistas criaram a mídia e a forma como as noticias chegam lá: “Eu tinha a visão exatamente do que passava na minha televisão, estava realmente temeroso. Achei que veria homens armados todo o tempo e teria de agir normalmente, mesmo que isso não seja normal. Mas não vi nada disso. A ideia que tenho agora é totalmente oposta. A mídia tende a focar nas piores noticias”. Léo completou: “Todas as noticias que saem da televisão lá para nossa cidade são na pegada do sensacionalismo. Nunca apareceu nada sobre a cultura daqui, os eventos. Eles deixam transparecer algo parecido com um mundo cão, só coisa ruim, só lixo.”

Em Florianópolis, polícia é segurança?

“Eu não acho, por conhecer o Rio de Janeiro. Aqui, existe uma mentalidade diferente, não sei se certa ou errada, de que policial é terrível. Lá, eles não têm medo da polícia, como vemos muitas vezes aqui. Eu tenho, um pouco, por influência da cidade onde nasci e por estar sempre visitando o Rio, mas a maioria dos moradores não tem esse pensamento, que policial é muito corrupto. Mas acredito que lá em Floripa, as condições para o policial são bem melhores.” Léo nasceu em São Paulo e foi morar em Florianópolis já adolescente.

“A visão que as pessoas têm da polícia aqui me choca. Eu sei que na minha cidade, se eu precisar, serei atendido. E hoje, eu entendo um pouco da realidade daqui. Mas ainda me choca. Eu penso ‘ Se não tem a polícia, quem é que vai dar segurança? ’ É muito diferente do que vivo. Moro desde que nasci em Floripa e quando ia a outras cidades, era turista, sempre fui bem tratado. Mas, quando escutamos as histórias, é uma realidade bem complicada. Em Floripa, você nunca vai ver um policial segurando um fuzil, eles não ficam com as armas à mostra. É cassetete.” Disparou João, após ter visto, na Alvorada, alguns policiais munidos de fuzil.

“Comunidade Carente” é uma junção de palavras muitíssimo utilizada para definir as favelas, periferias e etc. Infelizmente, as comunidades são carentes de muitas coisas, até mesmo coisas básicas, o que não é novidade para ninguém.

“Se eu olhar e falar sobre o que falta, vou dizer que falta tudo. Coisas necessárias, em muitos pontos daqui são inexistentes. O Saneamento básico, por exemplo, é um déficit inacreditável. Olhei alguns pontos e fiquei pensando “Se a pessoa compra um armário, como chega lá? Não tem rua. Não estou dizendo que é ruim viver aqui, mas tudo tem que melhorar. A cultura é o que sobrepõe tudo isso, pois ela é única.

“Música própria, jeito de se vestir próprio…” João preferiu apontar a educação como uma saída e causadora de mudanças: “Acredito que o que falta é consciência, principalmente sobre a educação. Com educação, tudo se muda. A elite realmente quer que a periferia continue na periferia. Não aceito quem diz quem está bom do jeito que está. Mesmo vivendo bem com a realidade instalada, é preciso entender que todos têm direito a mais. Saneamento, alimentação e emprego dignos e tudo isso vem através da educação.”

O trabalho do Voz da Comunidade sempre foi dar visão àquilo que as outras mídias não dão. É gratificante, para nós, saber que podemos mostrar nossa comunidade não como um problema, mas como um local em ascensão, cheio de gente que luta para mudar aquilo que não é favorável ao nosso povo.

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