Sim, Nega Gizza, nós podemos

Foto: Betinho Casas Novas

Gisele, Gomes da mãe festeira e de Souza do pai, um calmo baiano. A Nega Gizza, rapper, apresentadora, avista e produtora brasileira é babado confusão e gritaria. A gargalhada dela faz rir antes de saber qual é a graça. Diz que a Gisele é mida e a Nega Gizza, barraqueira. Fundou com MV Bill e Celso Athayde uma das maiores instituições representavas de favela do mundo, a Central Única das Favelas, CUFA. Gravou um único CD, “Na humildade”, em 2002. Músicas como “Filme de Terror” e “Bailarino Fiel” continuam atuais.

Teve contato com a literatura por causa da paixão pelos gibis e tinha o sonho de ser repórter. Fazia os textos, mas só queriam saber da sua voz. Forte e oponente. Sorte nossa. Gisele tinha ansiedade de revolução. A revolucionária se chama Nega Gizza e descobriu que jornalista não faz transformação, só conta. Para isso, fomos num domingo de sol até Madureira, na sede da Cufa, encontrar a ex-roqueira, mãe viúva de dois filhos, budista e que “se sente especial no mundo por ser uma pessoa que dorme e acorda fazendo algo para ajudar”. Essa é a Nega Gizza. Leia sem moderação.

Voz das Comunidades: Me conta um pouco de como foi a infância da Nega Gizza.

Nega Gizza: As minhas lembranças de infância são todas com os meus irmãos, sendo cuidada por eles que mal deixavam eu namorar. Minha mãe, Dona Izabel, trabalhava muito e foi uma referência para a minha vida. Passou toda a força que hoje tenho. Ela era muito brigona, escandalosa, barraqueira. A Gisele não pegou muito disso, já a Nega Gizza abraçou esse perfil. Mas a minha infância foi muito doída, sofrida. Sena muita falta do meu pai, que se separou da minha mãe quando eu tinha dois anos.

Voz da Comunidade: Você disse em um vídeo do seu canal no youtube, Olho no Olho, que a sua mãe era rígida. Me conta um pouco disso?

Nega Gizza: Ela queria controlar o mundo e achava que podia mandar em todo mundo. A gente tomava muito casgo, ela baa mesmo. O desespero dela era assim: “Eu estou criando essas crianças sozinha, eles não vão dar para o que não presta, vão ser pessoas de bem”. E fez esse papel maravilhosamente bem. Ela ensinou uma coisa que família pobre ensina muito para os seus filhos que é: trabalhe, respeite a todos, tenha educação, saiba pedir licença, saiba pedir desculpa, saiba agradecer. E isso foi fundamental

VDC: Como foi para você a morte do seu irmão, o “Neném”, aos 27 anos?

Gizza: Eu chorava em casa fazendo as minhas orações pedindo para ele ser preso. Eu achava que o sistema carcerário podia dar uma nova oportunidade para ele, e ia fazer com que ele se restabelecesse dentro da sociedade. Quando ele morreu foi um choque para mim. A minha esperança era de que preso ele estaria vivo. Depois fui entender que os jovens pretos não eram presos, eram mortos. Eu fui vendo que isso era um sistema não formal, mas acontecia. Ele até foi preso, voltou para casa, mas não conseguiu. 

VDC: Como foi o seu primeiro encontro com o hip hop?

Gizza: Meu primeiro encontro foi com algumas músicas nacionais. O meu irmão, Neném, levou para casa uma finha. A gente começava a ouvir e não entendia algumas partes, voltávamos a fita, eram muitas gírias diferentes de São Paulo, de Brasília. Aí quando eu vi um rap gringo foi fundamental para eu entender que a história era a mesma em qualquer lugar. Eu entendi que vivíamos num mundo violento contra os pretos e pobres. Depois eu comecei na rádio comunitária e já fazia letras. Ninguém me dava atenção, só o meu irmão, Neném. Ele falava que eu era foda. Mas eu cantava toda atropelada e ele achava o máximo. Em momentos mais doces eu escrevia poesia. Falava do meu cotidiano.

VDC: Em outro vídeo do seu canal você diz que soube aproveitar todas as experiências que teve na vida. Qual foi a mais forte?

Gizza: A maior experiência foi ver todo o sofrimento e sacrifício que vi as pessoas ao meu redor passando. E eu queria me sentir especial no mundo por ser uma pessoa que acorda e dorme fazendo algo para ajudar. Isso foi uma coisa fundamental para mim. É o que me faz respirar, é o que me faz ficar muito feliz.

Voz da Comunidade: Na sua música “depressão”, você diz que “o que a cigana me falou o pastor tinha falado”.  Qual a sua religião?

Nega Gizza: Eu acho que eu sou toda misturada (gargalhada). Eu frequento o budismo, hoje já não estou tão assídua. Tenho meu oratório em casa, faço minhas orações, leio as palavras do mestre. Mas eu acendo uma vela, tomo um banho, para fazer descarrego. Eu cresci vendo minha vó e minha mãe no candomblé. As religiões de matriz africana influenciaram, aí tinha uma a da umbanda, então era tudo misturado. Depois teve uma parte crente. Minha a dizia assim: “Tá me perturbando vou colocar o nome no açúcar para acalmar”. (Risos)

VDC: Porque só o disco “Na humildade”, de 2002? Você não pensa em gravar outro?

Gizza: Os rumos foram indo para outras coisas. Não, música não. Eu acho que cumpri minha parte, cumpri meu papel, me satisfiz muito. Não tem muito espaço do hip hop. Eles pegaram e transformaram em outra coisa. Hoje me acho foda por causa do disco. Todo direitinho. Não é k.ôzinho não, é RAP, R-A-P, de verdade. Um clássicozão.

VDC: O rap perdeu um pouco da representatividade social?

Gizza: Mudou, não tem mais esse foco. Eu digo assim, o que está na mídia. Tem muitas pessoas que fazem com esse foco, mas a mídia acabou trazendo essa mudança para o rap. Mais entretenimento e menos foco do hip hop que, era fazer a transformação social, transformação de vida, musical, de cultura, de arte. Isso acabou perdendo. É lamentável. Mas a resistência está aí, com artistas como o MV Bill.

VDC: Deu para ganhar dinheiro com o CD?

Gizza: Deu para criar uma estratégia para a vivência. A gente usou o disco para enraizar os projetos sociais, a imagem, para ter ideologia e personalidade montada. E aí a gente consegue viver dos frutos disso até hoje. O disco deu para comprar a minha casinha, que estou terminando de pagar, a gente vive bem, num padrão de vida que dá para se manter.

VDC: Onde você carrega essa energia positiva toda?

Gizza: Energia positiva, alegria, aí Jesus. (Gargalhada da Gizza e de toda a equipe). A loka da alegria. Todo mundo pergunta isso. Eu acho que isso já é o meu formato, aí eu acordo e vejo que eu não tenho como recuar mais. Aí eu acordo e chego aqui na portaria do meu trabalho, se eu não dou o bom dia com aquele sorriso as pessoas já me cobram. Eu lembro muito da minha mãe que era muito alegre e muito feliz. Aí eu vejo que a vida é muito maravilhosa, a vida é perfeita quando você constrói algo, abraça algo e você sabe o que você quer. Acho que o grande lance da vida é isso, saber o que você quer.

VDC: E mau humor, tem?

Gizza: Claro, TPM. Eu vivo brigando com ela. Eu aviso pra todo mundo, coloco no facebook. Opa a TPM está aí, vai dar k.o. Não passa por mim e se passar me abraça e me dá chocolate, senão… (mais gargalhada).

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Foto: Betinho Casas Novas

Voz das Comunidades: O que a Nega Gizza pensa do panorama político atual?

Nega Gizza: Em vários momentos eu prefiro não entrar nessa discussão. As pessoas discutem e não fazem nada. Eu me sinto uma realizadora, então eu prefiro deixar fluir. Me sinto uma pessoa ava para fazer coisas, para as mudanças. Não quero entrar nesse grupo da discussão. Justamente porque eu acredito que a politicagem do país é feita a partir das ações que todo mundo faz. Política é lidar com seu vizinho, com seu irmão que casou e virou as costas para família e tem que aturar ele, política é o que se faz no trabalho quando querem passar por cima de você. Não adianta eu julgar e fazer tudo que o político faz de errado de maneira maior. É muita falação e a postura não muda. Se você aceita alguma coisa de alguém roubado, você está agindo igual político. As pessoas precisam mudar para depois cobrar de outros.

VDC: Celso Athayde, um dos fundadores da CUFA, está criando o pardo Frente Favela Brasil. A Nega Gizza pretende se candidatar a alguma coisa?

Gizza: Nem fala disso. Eu apoio, eu acho que tem que ter, mas não me enxergo como candidata a nada. Mesmo eu agindo correto, não me vejo uma pessoa pronta para estar no meio dessas outras pessoas.

VDC: Em uma música você diz que para fazer a revolução é preciso ir além do rap. Como?

Gizza: Ir além do rap foi fundar a CUFA (Central Única das Favelas). É gostar pra caramba de hip hop, é fazer evento esportivo, oficinas. É passar um monte de conceito para a vida de jovens que precisam ser apoiados dentro da sociedade. A CUFA é um templo. Eles recebem boas energias, fluídos. Aqui eles se sentem preparados. Nós ramos meninos de uma vida ociosa, que pode ser do crime ou não.

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Foto: Betinho Casas Novas

PÁ-PUM:
Livro: Estação Carandiru Música: Filme de terror, “é a música da minha vida”.
Lugar: Rio de Janeiro, carioca. Essa bagunça, essa devastação. Mesmo com tudo isso que acontece, estou aqui.
SIM

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