O contraditório para capitu

Março, mês das mulheres. Um mês honrado em todos os sentidos, onde orgulhosamente fui convidado para um debate literário sobre Dom Casmurro, na qual o ponto central é as lamúrias de um marido supostamente traído por sua esposa. Há muito tempo não relia sua historia, mas a narração de Bentinho continuava bem gravada na minha mente. Após ter em mãos o livro sentei-me uma tarde e reli a historia, em busca de novas opiniões sobre a história.

É importante frisar que nas leituras anteriores, sempre considerei Capitu, a esposa de Bentinho, adúltera. Ora, Bentinho encarnou bem a persona do homem magoado e ressentido, com a sombra da dúvida pairando assustadoramente sobre sua cabeça. Mas após essa leitura, e com o frescor de uma mente mais aberta, eu revi firmemente minhas opiniões. Reflexivo, eu imaginei se eu não estaria errado esse tempo todo sobre ela…

No curso de Direito há uma matéria interessantíssima, Teoria Geral do Direito, na qual nós, acadêmicos, temos um primeiro contato com a chamada hermenêutica, uma técnica jurídica de interpretação das palavras em seus vários aspectos. Ler Dom Casmurro após estudar essa matéria me permitiu estudar com mais firmeza aquele texto em busca de sinais da traição da nossa jovem dos olhos dissimulados. E com um adendo: em busca também de sinais de uma possível insanidade do narrador para acusações tão graves.

Trazendo alguns tópicos da hermenêutica jurídica, analisei a historia em certos aspectos. Olhando através do histórico, percebemos uma sociedade machista que a todo custo busca reduzir o papel da mulher na sociedade; sob um aspecto sistemático, percebemos que Bentinho veio para ocupar o lugar do irmão morto, como se sua vida já fosse determinada pela sua genitora. A titulo de exemplificação, percebemos que ele não possui rédeas sobre as decisões que toma. Tudo é determinado por alguém. Seja ela sua mãe ou Capitu; e por um olhar jurídico, percebemos que somente Bentinho tem voz. Somente ele é o narrador da história. E por ser narrador, Bentinho acumula as figuras de acusador (Capitu adúltera), juiz (Capitu culpada) e advogado de sua causa (apesar da personagem ser realmente bacharel em Direito). Como a narração é somente contada por ele, fica a dúvida: E Capitu? Quem poderá defendê-la?

No debate exponho alguns aspectos jurídicos do livro e, por fim, chega a vez de falar dela, Capitu. Pela primeira vez a defendo com unhas e dentes e ataco Bentinho por causa do seu machismo, e ataco também a historia por sua visão una, de um único personagem. Capitu é inocente, até que se prove contrario. A ela deve ser dado o contraditório e a ampla defesa. Enquanto eu não escutar o testemunho de Capitu, eu vou defendê-la em nome do in dúbio pro reo! Ao término das palavras, eu encerro com a seguinte reflexão:

“Capitu é inocente, mas a sociedade sempre a tachará de adúltera, enquanto a história for contada sob o ponto de vista de Bentinho, um homem em uma sociedade extremamente machista…”.

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