A história de Bruno Favela e sua luta para resgatar vidas da Vila Kennedy

Foto: Arquivo Pessoal

Um campeão fora do ringue

Os cinturões e as medalhas penduradas na estante das paredes da sede da academia de luta “Resgatando Vidas”, na Travessa Cartagena, s/n, Manilha, na Vila Kennedy, Zona Oeste, não são suficientes para expressar as principais vitórias do projeto. O dono da academia de luta que oferece, além do projeto gratuito para crianças, aulas particulares para o público a par r de 5 anos, é Bruno Amici, mais conhecido como Bruno Favela, lutador profissional de 31 anos e cria da comunidade.

O espaço tem pouco mais de três anos; entretanto, a história de Bruno vinculando a luta com a responsabilidade social já tem mais de dez. Mas vamos começar do início. Numa certa manhã de terça-feira, Bruno – então com 16 anos – estava andando na favela quando passou por uma academia. Ouviu as pessoas gritando e, quando viu que era um treino de luta, a impressão ligada a violência já afastou o jovem da ideia de praticar o esporte.

Porém, por força do destino, Bruno passou no mesmo lugar numa quinta-feira e viu outro tipo de treino. E não é que o menino se interessou? Em cerca de seis meses, ele já estava treinando com os profissionais. A luta entrou para a rotina que incluía a escola, à qual não faltava porque “queria ser policial”, e o trabalho como ambulante, “porque meus pais não podiam me dar nada e, se eu pedisse, ia pressioná-los ainda mais”.

Só que o bom desempenho nos treinos não foi capaz de evitar que a primeira luta de Bruno fosse um desastre. “Eu apanhei muito. Entrei na porrada. Então, naquele dia eu conheci a tal adrenalina. Hoje sei lidar com ela; na primeira vez, não soube”. Bruno não desistiu. Aliás, essa palavra praticamente não existe no seu dicionário – a não ser para falar do sonho de ser policial. Uma chacina e noticias sobre mortes de muitos militares fez o jovem abandonar a ideia.

Mas ele não abriu mão de sua missão de resgatar vidas, o que fez de Bruno um homem focado nos seus objetivos.

“Questão de foco: é o que me faz ir mais além. Porque se eu não tivesse certeza, não estaria assim. Eu sei que quando quero aquilo ali, tenho que lutar por isso. Isso aqui é uma vitória imensa” – orgulha-se Bruno, sempre usando expressões relacionadas ao ringue. Para as dificuldades, “foi uma luta”; para as derrotas, “tomei porrada”; e para as conquistas…“Vitória”.

Focado em ter seu próprio espaço de luta e oferecer um projeto social inspirado no seu mestre, Nael Pedra, Bruno fez “de um tudo”, como se diz popularmente. Foi ajudante de caminhão, vendedor em uma loja de departamentos em Copacabana, motoboy e mototaxista. Foi quando Bruno tomou um “jab direto cruzado” (golpe usado na luta). Ou comprava o terreno, ou financiava a obra. Para fazer os dois, não tinha recursos suficientes. Até que apareceu um amigo, Wagner Camelot, também morador da Vila Kennedy. Como aqueles técnicos que ficam no ringue, “Waguinho”, como Bruno o chama, deu uma dica preciosa. “Vou te levar a um espaço para você conversar com o dono; veremos no que dá”.

E assim foi feito. Bruno disse que tinha o dinheiro para fazer a obra e o proprietário cedeu o espaço de baixo. A obra demorou tipo aquelas lutas que parecem uma eternidade. O fim foi justamente o começo da realização de seu sonho. Perguntado sobre o que é mais difícil: vencer no ringue ou resgatar vidas da criminalidade, o lutador não hesita. “Lá o cara vai te dar porrada, você vai dar porrada e acabou. E no outro caso? Você vê a pessoa se ferrando, parece que fica cega. Minha maior luta é tentar tirar esses caras daí”.

Depois vieram as viagens para fora do Brasil para competir. A primeira aconteceu este ano, depois de quase 15 anos de luta – porque, como diz Bruno, “o mundo da luta é igual promessa de Deus: é no tempo certo, não é no nosso tempo”. Agora o próximo passo é estudar educação física, ano que vem. Mas claro, tudo paralelo à vontade de conseguir um financiamento para a academia e conseguir atender mais crianças.

Enquanto isso, com uma boa estrutura e equipamentos de alta qualidade, a academia funciona à noite com aulas de uma hora e meia para os pagantes (mulheres R$50 e homens R$65) e de manhã e à tarde com o projeto “Resgatando Vidas”.

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