Conheça a história que levou uma moradora a atravessar o continente para aprender inglês

Daiene foi para o Canadá

Daiene Mendes, moradora do Complexo do Alemão e uma das fundadoras da ONG Voz das Comunidades, foi para Vancouver, no Canadá, aprender inglês. O embarque foi no dia 27 de junho, mas quem viu a jovem de 27 anos no aeroporto, certamente não imaginou a novela – da qual ela é a protagonista guerreira e determinada – que foi para ter chegado até ali.

Era mais um dia no estágio da faculdade UNISUAM, onde Daiene estuda jornalismo. Vez ou outra, a tarefa do trabalho que possibilita o seu acesso a graduação, com a bolsa de estudos integral, era escrever uma newsletter, uma espécie de publicação fixa, com informações sobre os cursos.

Para escrever sobre a pauta do dia, que era o Prêmio Universitário Augusto Motta, do Núcleo de Relações Internacionais, Daiene pegou o edital, que é o conjunto de regras para quem quer se candidatar. Lá descobriu que o prêmio forneceria bolsas para estudar inglês fora do Brasil. Dessa vez, seriam três para Austrália e uma para o Canadá, com a hospedagem em casa de família incluída.

Enquanto escrevia sobre o prêmio, Daiene se lembrou de um presente do avô, falecido há seis anos, mas cuja presença ainda vive nos seus sonhos. “Ele não falava muito, mas me ensinou muita coisa”. Era uma caixinha de madeira, como um cofre, que ele lhe deu quando ela tinha 14 anos. Daiene personalizou a caixinha: pintou, colou a bandeira do Canadá, o mapa de Vancouver, mas dinheiro que é bom mesmo, só conseguiu arrecadar R$ 20 da família inteira.

Vazia ou com poucos reais, a coincidência dos símbolos do Canadá estarem tanto na caixinha quanto naquele edital foi o estalo para Daiene participar da seleção. “Eu estava escrevendo, aí lembrei da caixinha e pensei: vou me inscrever nessa parada aqui”. O processo seletivo incluiu uma carta de intenção, onde Daiene descreveu todos os momentos em que precisou do inglês e não tinha. Rendeu “uma cartona”, segundo ela. E uma entrevista presencial. Em um mês de seleção com 1200 inscritos, três pessoas foram selecionadas. Daiene era uma delas. A que ficou com a bolsa de estudos para o Canadá, já que as outras duas tinham feito a mesma escolha, mas foram direcionadas para Austrália.

Segundo Daiene, ganhar o prêmio foi um misto de felicidade e tristeza. Porque o valor da passagem não estava incluído no pacote. Foi então que ela pensou em fazer um financiamento coletivo, através da plataforma benfeitoria, onde pessoas doam dinheiro para viabilizar projetos independentes. Depois de um vídeo legendado em inglês que teve 30 mil visualizações, onde Daiene explicava por que queria ir para o Canadá, em uma semana ela bateu a meta máxima de arrecadação: Passagem, seguro saúde, alimentação. Ao invés de duas semanas, um mês de curso e muita felicidade.  

O objetivo agora é ser uma favelada que fala inglês para alcançar mais pessoas sobre o cotidiano desse lugar, fora das narrativas estereotipadas. “Eu tenho um papel no mundo, né? E acredito que esse papel também seja compartilhar o que acontece aqui dentro para outros lugares do mundo. Para tentar quebrar essas barreiras. É muito estereotipado o que chega lá fora sobre o que acontece aqui dentro”.

Com passaporte, visto, malas e roupas emprestadas de amigos, e agitando as últimas correrias para viajar para o outro lado do continente, Daiene afirmou que sempre foi muito difícil para ela entender geografia. “Nunca fez sentido, porque para mim o Complexo do Alemão era um mundo. A primeira vez que eu fui ao centro da cidade pensei: meu Deus, o que é isso? Então quando a gente quebra uma fronteira da barreira, tudo passa a fazer muito sentido, nosso repertório aumenta. E com isso vem mais gente”.

Sobre os próximos capítulos da novela, Daiene se esquiva, mas dá algumas dicas. “Eu quero transformar a realidade a partir do meu mundo, das minhas pequenas possibilidades”. Isso, ninguém precisa esperar o próximo episódio para ter certeza de que ela fará. Para acompanhar a viagem da Daiene é só seguir ela no instagram, “Daiene Mendes”.

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