Crônica: O Brasil de Jardim Gramacho

Na euforia e no chacoalhar do ônibus cheguei a um lugar onde a simplicidade encanta e amedronta ao mesmo tempo. Essa foi a minha reação ao chegar em um jardim, do interior do interior do Rio de Janeiro. Estava mais precisamente em Duque de Caxias, um município como outro qualquer, com prédios em uma parte, casas em outras, o vai e vem constante de pessoas e o barulho intermitente do trânsito. Entretanto, o meu destino não era naquele lugar normativo para mim, eu ia em busca do diferente e do desconhecido. Medo sim, mas não paralisei e prossegui.

Desci do ônibus e a euforia não tinha passado, e agora o que me confrontava era o balançar da ansiedade e das perguntas a serem feitas. Em direção ao destino/enfoque inicial, neste caso, uma ONG que ajudava crianças carentes com atividades e inclusão por meio do esporte. Conversei com diferente personalidades, digo conversa e não entrevista formalizada, pois até chegar nesse local tive vários diálogos informais, desde o motorista aos passageiros, que olhavam com espanto quando eu dizia para onde eu iria; do morador ao diretor da ONG, quando eu perguntava se eu poderia ir ao tal jardim, diziam para eu tomar cuidado e havia espanto também no olhar.

Era introspectivo, de alguma maneira eu tinha uma observação íntima e preconceituosa do local, sem nunca ter estado ali. Estava cheio de opiniões e discursos pautados na alteridade. Como chamar de jardim um lugar que não expressava tranquilidade e cheiro de flor?

Jardim Gramacho tem um ar carregado de poluição devido ao metano do lixão “desativado”, ainda funciona de forma clandestina, há aproximadamente 5 anos. O saneamento é precário, ou melhor dizendo, não existe. Entre deserto do Saara e o Jardim Gramacho não tem muita distinção, o calor excessivo e a falta de água potável são iguais, a única diferença é que rampas de areias quentes são substituídas por rampas de lixo. A fome também é um ponto desesperador.

Apesar das situações precárias e a chamada linha da miséria se estabelecendo, a receptividade em meio ao nada é o verdadeiro encanto do jardim. Enquanto caminhava pelo lixão (Jardim), em busca de um senhor chamado Brasil, sem saber, fazia jus ao significado do nome Gramacho, que segundo o dicionário significa “homem livre”. Transbordava em mim o real significado da palavra, toda redoma de medo e uma estereotipia barata foi lançada ao chão.

A conversar com Brasil surgiu da recomendação do diretor da ONG. Com 40 anos de lixão, um câncer que o deixava em estado terminal, tinha certeza que Eli Brasil teria muito a nos contar, expor e revelar diversos problemas que a sua comunidade enfrentava diariamente, tanto por sua experiência, quanto por ser um dos mais queridos do local.

Porém, o câncer  chegou mais rápido do que eu. O casebre de Brasil era o mais conservado por entre todo o lixão. Sem contar a fácil identificação: pintura verde-água e uma bandeira surrada do Brasil pendurada na fachada da casa. Chamei por ele 5 vezes, não recebi sequer um sinal ou um “não quero falar com ninguém!” o qual indicasse que ele estivesse vivo.

Embora não tenha visto o real rosto do Brasil e sabia que o mesmo estava em casa e não queria me atender. Podia ser pela sua doença, é claro, mas acredito que podia ser também um certo receio de partilhar uma vivência que cairia apenas na correnteza do senso comum e não seria um recolhimento e amplificação de sua voz. A sua ausência falou muito mais do que todas as outras fontes que eu ouvi naquele dia.

O silêncio de Brasil revelou a sensação da maioria dos moradores, representa a falácia e o descaso público, revela os lixões clandestino e a prostituição infantil em evidência no local, expõem a insalubridade e a falta de oportunidade. O silêncio de Brasil era a incógnita do que fazer depois da desativação do lixão, local do sustento de muitos. O seu calar era a reação a pergunta a qual eu não cheguei a fazer:  O que você espera de Jardim Gramacho para daqui 10 anos?

Esta coluna é de responsabilidade de seus autores e nenhuma opinião se refere à deste jornal.

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