Lutador de jiu-jitsu da Vila Vintém coleciona vitórias

Foto: Caio Lima

REPORTAGEM DE: Alessandra Caldes e Jefferson Baptista

A história de vida do lutador de jiu-jitsu, Yuri Santos, de 22 anos, nascido e criado na favela Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, poderia ter inspirado o refrão da música “Dias de Luta, Dias de Glória”, do cantor Charlie Brown Junior.

Segundo seus pais, Márcio e Eline, desde a gravidez, a vida de Yuri foi conturbada. Com apenas um ano de idade, por causa de uma doença, correu risco de perder o braço. Cresceu vendo seu pai, que era lutador de karatê, conquistando troféus e medalhas. Ficava fascinado com tudo aquilo, pedia ao pai para levar os prêmios para escola e dizer que eram dele. Márcio, para incentivar, sempre respondia: “Não, se você quiser, vai começar a treinar e conquistar os seus”.

Aos cinco anos, Yuri começou a treinar karatê. Foi quando sua mãe engravidou e ele teve que deixar o esporte para ajudar em casa, já que seu pai trabalhava. Depois de um tempo, seus amigos o chamaram para fazer jiu-jitsu em um projeto que acontecia em frente a sua casa.

Aos 12 anos, Yuri levou um tiro de fuzil no braço. Era o início de sua carreira e seus familiares chegaram a pensar que era o fim. Yuri encontrava-se sentado no portão de casa, na Vila Vintém, conversando com primos e amigos, quando o tiroteio começou. O menino achou que era apenas um teste de armamento. Quando percebeu que não se tratava disso, decidiu entrar. Sentiu apenas como se uma pedra tivesse atingido seu braço: “Parecia uma pedrada muito forte, meu braço subiu e começou a tremer”, relata Yuri. Os movimentos foram voltando aos poucos, o que o deixou um ano e meio longe dos tatames. “Hoje o braço mais forte é o que levei o tiro, foi com ele que eu nocauteei o cara na minha primeira luta nos Estados Unidos, em um minuto e seis segundos” – comemora.

Voltou a treinar no projeto da sua comunidade; porém, na sede de participar de competições, pedia ao pai para levá-lo a treinos em outros lugares, pois ali não havia muitas lutas. Foi treinar no Batam, um pouco depois de Bangu, onde em uma de suas trocas de faixa conheceu Almir, um lutador de jiu-jitsu que lhe contou sua história e mostrou todas as suas medalhas. Isso chamou muito a atenção de Yuri, fazendo com que ele quisesse seguir os mesmos passos.

Por causa do esporte, Yuri conseguiu uma bolsa de 80% no colégio da universidade Castelo Branco. Trazendo bons resultados para o colégio no intercolegial, colocando a instituição em segundo lugar no ranking, com seu bom desempenho nas competições, ganhou bolsa integral.

Com tudo dando certo na escola, o sonho da viagem internacional ficou mais perto. Começou a juntar dinheiro e conseguiu tirar seu passaporte. Como nunca fugiu de trabalho, foi ser garçom em festas nos fins de semanas e começou a pedir dinheiro para familiares, amigos e vizinhos da comunidade. Depois de um tempo tomou a decisão de pedir ajuda aos amigos e professores da escola. Já com o valor de R$ 5 mil, faltavam apenas R$ 2 mil para alcançar o grande sonho. Foi quando conseguiu ajuda de um dos empreendimentos de sua comunidade. O dono do estabelecimento ajudou com o restante que faltava. Em menos de quatro meses, Yuri conseguiu arrecadar R$ 7 mil.

Yuri Santos coleciona medalhas de campeonatos que já participou pelo mundo, em países como frança, Itália, Portugal e Estados Unidos - Foto: Caio Lima

Yuri Santos coleciona medalhas de campeonatos que já participou pelo mundo, em países como frança, Itália, Portugal e Estados Unidos – Foto: Caio Lima

O menino da Vila Vintém fez sua primeira viagem internacional com apenas 17 anos e ficou três meses por lá. Foi para os Estados Unidos participar de uma competição, mas acabou ganhando o Dallas, Phoenix, e se tornou campeão mundial. Na volta para o Brasil, viu que tinha virado influência na sua escola, onde fizeram uma linda homenagem, com suas fotos espalhadas pela instituição.

Na sua segunda ida aos EUA, ficou lá por seis meses. As dificuldades começaram a aparecer. Sua família no Brasil não estava no seu melhor momento, o que fez Yuri pensar em voltar para casa. Numa conversa com Bruno, Yuri teve apoio e ajuda para continuar nos EUA e, a partir daquele momento, seus pais não precisariam mais lhe mandar dinheiro. Até hoje o atleta se refere a Bruno com muito carinho: “Eu o chamo de pai americano”. Como um meio de troca pela assistência que recebia, Yuri começou a dar aula para crianças – o que o ajudou a se aprofundar mais no inglês.

Foi na sua primeira experiência no MMA que o atleta teve que começar a regrar sua alimentação, pois tinha que perder 20 kg em menos de dois meses. Nesse processo, a ideia de colocar o seu projeto do “Natal sem fome” em prática aflorou. Hoje o projeto está no seu terceiro ano, ajudando centenas de famílias dentro da Vila Vintém.

LEGADO

Hoje, com 22 anos, Yuri afirma: “o jiu-jitsu mudou a minha vida, viajei pelo mundo (Paris, Itália, Marrocos, Portugal e EUA), estudei nos melhores colégios e hoje o meu maior sonho é ter um projeto dentro da minha comunidade, dando oportunidade para outras crianças”.

Yuri não tem vontade de sair da favela. Garante que não deixará a comunidade sem antes deixar o seu legado. Aconteça o que acontecer, nunca vai esquecer a Vila Vintém. Ele a leva tatuada no braço, e como seu pai diz: “Aqui está a raiz do Yuri e uma árvore sem raiz não dá fruto”.

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