Morador da Vila Kennedy atua como conselheiro tutelar desde 2011 e explica a importância

A importância da figura por trás do mito usado para amedrontar crianças

Por trás dessa figura culturalmente chamada pelos pais para pôr medo nos filhos, existe na verdade um zelador dos direitos da criança e do adolescente. Um exemplo desse cargo – que tem eleição não obrigatória – é Rodrigo Coelho, de 35 anos. Rodrigo é cria e morador da Vila Kennedy, na Zona Oeste. Desde 2011 é conselheiro tutelar, tendo sido reeleito depois de quatro anos de mandato.

A vontade e a coragem para assumir a responsabilidade de ser um defensor dos direitos da criança e do adolescente surgiram por incentivo de um amigo, somado ao trabalho social que Rodrigo já fazia. “Eu vi as questões de vulnerabilidade social da minha região, muitos amigos entrando para o lado da criminalidade, eu mesmo quase fui por esse barco.  Então, como já desenvolvia um trabalho na comunidade, entrei no projeto social”.

Hoje, o estudante de serviço social divide o expediente de operador de rádio por seis horas com o trabalho no projeto focado em atividades esportivas com crianças e construção civil para adolescentes, promovendo a cidadania. A experiência preenche uma das obrigações para se candidatar a conselheiro tutelar no município do Rio de Janeiro.

Citando várias leis que sabe de cor, o conselheiro tutelar explica algumas das exigências: “A lei é federal, só que ela dá essa autonomia a cada município. Fica a cargo do município a forma de elaboração do seu processo eleitoral. No Rio de Janeiro você precisa ter trabalhado com crianças por dois anos, apresentar os antecedentes criminais e ter ensino médio completo”.

Relembrando o primeiro processo para se eleger, Rodrigo conta que não foi fácil. “Foi uma campanha difícil, a adversária já desenvolvia um trabalho local e sempre ganhava as eleições. Foi um desafio grande”. Rodrigo, que é pai de uma menina de cinco anos, conta que o processo é bastante burocrático e que a Vila Kennedy não conhecia o trabalho do Conselho Tutelar, porque não havia divulgação. Esse foi um dos seus focos desde o início.

Com as veias saltando nos dois antebraços, sempre gesticulando muito, Rodrigo relatou casos como o “monstro de Bangu”, que ganhou visibilidade nacional, e que teve forte atuação sua. “O Conselho Tutelar tem que proteger, e como o pai que matou a criança tinha outros filhos, poderia acontecer a mesma coisa com eles. Eu consegui alcançar essas crianças e coloquei na família extensa (parentes), para não colocar no abrigo, já que a madrasta da vítima ainda estava sob suspeita de participar do crime”.

Em outro caso marcante, Rodrigo conta que atingiu o ideal, que é trabalhar na prevenção – o que segundo ele, seria possível se houvesse um conselheiro para cada 100 mil habitantes. Ele soube por denúncia que havia desconfiança de que uma mãe estava “preparando” a filha para ter relação sexual com o padrasto. Então, pediu ajuda ao psicólogo da equipe técnica do Conselho Tutelar. Com sua participação, foi possível detectar que a desconfiança era verdadeira e transferiram a guarda da menina para a avó. Até hoje a família é grata pela ação. “Ela fez 16 anos e a avó dela fez um aniversário dentro do Conselho Tutelar. A gente falou que não precisava, mas você via que era um forma de agradecimento pelo trabalho bem sucedido” – reconhece Rodrigo.

Com o fim do mandato e a impossibilidade de uma nova eleição para conselheiro tutelar, Rodrigo não descarta uma possível candidatura política. “Já tive pretensões, já descartei. Hoje, para me candidatar, teria que ser por um projeto voltado para dentro da comunidade. A Vila Kennedy é ausente de todas as políticas públicas que você possa imaginar. Minha vontade é fazer com que o social seja impregnado fortemente na minha região”.

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