OPINIÃO | Estamos mesmo evoluindo?

“Sou o único técnico negro nesta copa. É uma realidade dolorosa que me incomodou. Acredito que o futebol é universal e que a cor da pele tem pouca importância no jogo”, comentou Aliou Cissé, técnico de Senegal em coletiva de imprensa durante a primeira fase da Copa na Rússia.

O atacante toca a bola e começa a partida. Onze jogadores de um lado, onze jogadores do outro. Torcidas apaixonadas e espalhadas por todo o canto do planeta. É o encontro de diferentes povos, culturas e filosofias: isso é Copa do Mundo, meus amigos.

Mas espera aí… não vamos perder o foco, o que foi dito pelo comandante do Senegal é importante. Já reparou a pouca diversidade racial entre os técnicos de futebol? O predomínio de treinadores brancos no comando das equipes é um fato. No Campeonato Brasileiro deste ano, por exemplo, somente Roger Machado, do Palmeiras, e Jair Ventura, do Santos, fogem desse padrão.

Definir a competência de um profissional pela cor da sua pele é no mínimo uma tremenda ignorância. O senegalês Cissé, além de ser o único treinador negro da Copa, também chamou a atenção por receber o menor salário entre todos os outros técnicos da competição – inclusive se comparado aos profissionais de países com poder econômico semelhante.

A história do futebol mundial passa pelo talento de craques brasileiros como Garrincha, Ronaldinho Gaúcho e Pelé – todos negros. Porém, nos cargos administrativos do esporte, a situação não se repete. “Quem faz o espetáculo é o negro, mas quem comanda não é ele. É uma reflexão importante a ser feita”, declarou Marcelo Carvalho, diretor do Observatório de Discriminação Racial no Futebol em matéria ao site do Globo Esporte.

O mercado esportivo cada vez mais demanda maior especialização e, para isso, os profissionais precisam de uma base educacional qualificada. O acesso à educação brasileira, no entanto, sempre privilegiou os classificados dentro de uma maioria social – homens brancos, héteros e ricos. Dessa forma, ao longo do tempo, desfrutaram de uma melhor estrutura pedagógica, o que possibilitou o alcance a cargos de gerência, comando técnico e comissão.

Em contrapartida, os tidos como minoria social – negros, pobres, indígenas, entre outros –, historicamente não contaram com as mesmas oportunidades, o que se torna um forte indicador para o número inferior de profissionais com acesso a essa dinâmica de gerência esportiva, logo ocupando um número menor de cargos administrativos dentro das equipes. “Os brancos têm os maiores salários, sofrem menos com o desemprego e são maioria entre os que frequentam o ensino superior”, aponta a Agência IBGE.

Contudo, a situação de Aliou Cissé na Copa demonstra que o debate é mais amplo, ultrapassando as fronteiras brasileiras. Segundo o The Guardian – jornal diário nacional britânico –, em 2014, havia somente quatro técnicos negros ou representantes de minorias étnicas entre os 92 clubes da Premier League e da Football League – competições do futebol inglês –, resultando em menos de 5% do total.

Quatro anos depois, em uma Copa do Mundo marcada pelas evoluções tecnológicas, apenas uma seleção é comandada por um treinador negro. Então que fique o questionamento: será que realmente estamos evoluindo?

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