OPINIÃO | Evasão escolar: mais uma das faces do racismo

Colunista: William Corrêa | Foto: Juliana Leitao/DP/D.A Press.Violencia nas escolas. Professor Eduardo.

No dia 23 de maio de 2018 foi ao ar no programa “Profissão Repórter” uma reportagem sobre evasão escolar no território brasileiro. A matéria teve como objetivo compreender as motivações de jovens que abandonam a escola na rede pública de ensino e teve como foco o estado de Alagoas, que apresenta o maior índice brasileiro de evasão escolar na rede pública na etapa do Ensino Médio segundo dados do Censo Escolar de 2016. Na reportagem, as principais motivações relatadas pelo jovens e suas famílias foram: trabalho, gravidez e violência.

A evasão escolar é, de fato, um problema que ainda atinge muitos jovens. Com certeza você, leitor, conhece algum jovem fora da escola e não deve ser alguém muito distante, não é? Para se ter uma ideia, segundo dados da plataforma QEdu, que usou dados do Censo Escolar de 2016, a taxa de jovens que abandonaram a escola na rede pública de ensino foi de 3,5% no Ensino Fundamental (368.210 abandonos) e dados ainda mais alarmantes no Ensino Médio: 7,5% (495.843 abandonos).

De acordo com dados do Observatório de Educação, quanto mais pobres as famílias dos estudantes, maior a chance de evasão escolar. A partir de dados do Censo Escolar de 2016, o Observatório mostra que as taxas de evasão escolar variaram entre 3,1% para estudantes de alta renda familiar até 10,9% para estudantes de baixa renda familiar. Como mostra a reportagem da Globo citada no início deste artigo, uma das explicações para isso é a necessidade de jovens pobres conciliarem escola e trabalho, o que pode ajudar a explicar porque a taxa de abandono aumenta no Ensino Médio em relação ao Ensino Fundamental, pois é quando jovens passam a buscar trabalho de maneira mais frequente.

Para falar de evasão, tenho que falar de reprovação escolar e de fatores que a influenciam. Em artigo de Fernando Tavares Júnior, Arnaldo Mont’Alvão e Luiz Flávio Neubert, de 2015, os autores mostram que renda familiar e cor/raça possuem influência nas chances que os estudantes têm de seguir para uma série posterior. A renda familiar tem forte influência na transição entre 9º do Ensino Fundamental e 1º ano do Ensino Médio: quanto mais pobre é a família do aluno, menor é a chance de ele seguir para o Ensino Médio. Também é de se destacar o fator raça, que tem cada vez mais impacto nas transições escolares ao longo de toda a Educação Básica, o que é reforçado durante o Ensino Médio: alunos que não são brancos têm menos chance de irem para séries posteriores. Você deve estar pensando: “nossa, mas o que tem a ver a raça com o sucesso escolar”? Bem, não deveria ter influência nenhuma, mas tem. Falo um pouco mais disso aqui.

Pra ser direto: tem gente ficando no caminho ao longo das transições escolares e esses alunos são especialmente os pobres e os negros.

Eu insisto em destacar a reprovação escolar mesmo quando o tema é evasão porque é um dos principais fenômenos que tendem a culminar com a interrupção dos estudos e não se pode dizer que somente os alunos são culpados pela própria reprovação e evasão: as escolas têm papel importante no processo. As escolas brasileiras persistem em um processo de reprovação intenso; é que existe uma “crença” de que reprovar um estudante é bom para o seu sucesso escolar, como se reprovar fosse um ato disciplinador. Há critérios para julgamento dos alunos que não são estritamente cognitivos e de desempenho/aprendizagem escolar, como história de vida dos estudantes, formas de agir (frases como “ele não quer nada” são comuns em Conselhos de Classe, que são reuniões em que professores julgam e classificam seus alunos). Até a percepção de professores sobre a família dos alunos influencia nos julgamentos e avaliações de acordo em pesquisa realizada por Ana Pires do Prado e Maria de Lourdes Sá. Essa prática corriqueira de reprovar estudantes ficou conhecida nos anos 1990 como “Pedagogia da Repetência” e a “crença” de que reprovar é bom para o aluno se mantém mesmo que os dados apontem que altas taxas de reprovação não ajudam no sucesso escolar e pior: mesmo que mostrem que alunos negros e pobres são os que mais sofrem com esse fenômeno.

Portanto, mais reflexões sobre o que é feito no ambiente escolar são necessárias, a partir de debates horizontais entre pesquisadores, escolas e sociedade civil. Não é exagero quando dizemos que a evasão escolar brasileira é uma das inúmeras faces da desigualdade social e do racismo.

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