Opinião: Seis anos de ocupação

Foto: Betinho Casas Novas/Voz Das Comunidades

Em ano de “aniversário” de seis anos de retomada do Complexo do Alemão, um dos fatores mais emblemáticos daquela manhã de domingo de 2010 continua perseguindo a rotina dos moradores do conjunto de favelas: A violência.http://focuz.ru

Seis anos se passaram, desde a tomada das forças militares, no dia 28 de novembro de 2010. Mas afinal, o que mudou?

Naquele momento, as notícias encheram as redes sociais, um dos principais recursos de informação instantânea usada pelos moradores, comunicando em tempo real tudo o que acontecia na região. Essa era umas formas de sobrevivência e proteção.

Porém, logo após a ocupação de 2010, diversos fatos foram levando ao descontrole da segurança no Alemão. Para começar, a primeira morte de policial numa favela pacificada no Rio de Janeiro  foi justamente no Alemão. Fabiana Aparecida de Souza, de 30 anos, que era lotada na UPP Nova Brasília. Foi morta durante uma troca de tiros na comunidade da Alvorada, parte alta do Alemão. Segundo informações de colegas de fardas, Fabiana tinha saído do container – base avançada usada pelos militares – para lanchar. Na volta, teria sido alvejada por um tiro de fuzil no peito. “Os tiros vieram de todos os lados, ela estava pedindo auxílio no rádio, quando foi atingida” – contou um dos colegas que estava no local. De lá para cá, a onda de violência só aumentou.

Em 2014, logo no início do ano, os moradores já começavam a sentir o peso da violência que vinha desde a ocupação. Na virada do ano, ao invés de “Feliz ano novo”, “Saúde e paz”, eram ouvidos os gritos de “basta”, “justiça” e “ForaUPP”. O ano já começava marcante, com cinco pessoas baleadas – entre traficantes e policiais – durante as constantes trocas de tiros na região. Foram três mortos em um único só mês. A resposta da violência já começava a atingir o cotidiano da comunidade.

A parte mais dura para todos os moradores, que constituiu o “estopim” da revolta, foi no mês de abril,  quando duas pessoas foram mortas por balas perdidas. O fato revoltou os moradores. Dalva Arlindo de Assis, 70 anos, moradora da comunidade Alvorada – parte alta do Alemão – foi atingida por um único tiro na porta de casa, surpreendida ao proteger o seu neto de um tiroteio na localidade. Dona Dalva, como era conhecida, estava a caminho de uma festa com o neto, quando foi atingida. Em questão de minutos, a Estrada do Itararé (que depois se tornaria palco de protestos do Alemão) estava lotada de moradores, vizinhos, parentes e amigos da aposentada. O protesto foi um dos primeiros momentos de revolta dos moradores, por questões de violência.

No mesmo ano, outro episódio foi motivo de revolta, sofrimento e muita comoção. A morte do jovem moto-taxista, Caio de Moraes, 20, atingido por um tiro, ao levar uma passageira na comunidade da Grota, foi emblemática para o Alemão. Caio se viu em meio ao confronto, logo após desembarcar a passageira. Em questões de minutos, pelas redes sociais, as imagens do suposto autor do disparo que causou a morte de Caio já circulava pela internet. Para surpresa de todos, o autor era um policial militar. Desde então, até o final do ano, o conjunto de favelas do Alemão acabava o ano de 2014 com o título de mais violento desde a ocupação de 2010, com base nos altos números de pessoas baleadas e mortas nas comunidades. Foram, no total, setenta e sete pessoas baleadas, entre policiais, traficantes e moradores. Destes números, dezessete morreram. Cinquenta policiais militares das UPPs do Alemão foram atingidos, dos quais três morreram.  Um deles era Uanderson Manoel da Silva, 34 anos, comandante da UPP Nova Brasília. O Capitão da base foi morto após uma troca de tiros num dos becos da comunidade da Alvorada, em uma noite terrível de 11 de setembro.

Pouco depois, 2015 entrava e, mais uma vez, junto com ele, a esperança de “Dias melhores”, como diz a música de Jota Quest. Mesmo com o reflexo da violência sendo mais cruel a cada dia, na rotina de cada morador, comerciante e visitante, os moradores sempre acreditaram que a tão sonhada trégua poderia, enfim, chegar ao Alemão. Porém, depois destes primeiros anos pós-retomada emblemática de território, ainda são comuns as notícias de mortos e feridos, tiroteios, etc.; mantêm-se as placas de “Vende-se” ou “Aluga-se”, penduradas nas casas, bares e comércios, pela favela.

Para piorar a situação, a morte do menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, se tornou o caso mais marcante do Alemão. Uma criança que aguardava, na porta de casa, sua irmã mais velha chegar do trabalho, foi atingido por um tiro na cabeça. O fato chocou não só os moradores, mas todo o país. Mas uma vez, o disparo veio, supostamente, da arma de um PM. E mais uma vez, como dito anteriormente, a Estrada do Itararé – principal via de acesso ao Alemão – se tornou palco de protestos e revoltas, em repúdio à morte de Eduardo. Sua mãe, Terezinha Maria de Jesus, luta por justiça para Eduardo até agora. Em 2016, a justiça do Rio arquivou o caso por falta de provas. “O buraco de bala na cabeça do meu filho não serviu como prova?” – indagou a mãe após a decisão da Justiça.

Já estávamos em 2016, o ano que entrava e já começava com a violência lado a lado dos gritos de “feliz ano novo”. No dia da virada do ano, uma intensa troca de tiros marcou esta data comemorativa dos moradores. Nem numa época de paz, havia trégua. O ano corria rápido e, em sua metade, já batia a marca de pessoas baleadas e mortas do ano passado inteiro. Então o que mudou? Bem, hoje a informação está nas mãos dos moradores. Mais rápida, concreta, livre e com tom de revolta. Hoje a informação sai de quem a vive diariamente.

Comentários Facebook

comentários

*

* Please arrange the below number in decreasing order

Top