#PAZcoaDasComunidades: Nessa páscoa eu subi o morro pensando…

Nessa páscoa eu subi o morro pensando…
Que eu, de morros, conheço pouco.
Já entrei em algumas favelas.
Cada uma tem seu jeito e eu não sabia que jeito tinha aquela.

O que me afligia mesmo era aquele calor: outono no Alemão, 11 da manhã, sensação de quase 40 e todo aquele chocolate dividido em muitas caixas no fundo da van.
Será que sobe?
Será que derrete?
É muito íngreme.
As barrinhas tão moles.
Tá muito cheia.
Os ovos vão amassar.
Subiu!
Chegamos!

Era uma van branca, normal, mas a molecada, atenta, pescou no faro o conteúdo.
Era tanta a vontade de chocolate que, antes mesmo da porta abrir, já estávamos cercados pelos erês.
Alguém gritou: – todo mundo, desce! Em fila! Vamo lá, os menores na frente!

Formou-se a fila, afinal.
A molecada agitada na entrada do teleférico imóvel.
Fiquei olhando….
O menino engraçado, falante, fazia troça da própria condição.
Era grande, esperto e malandro, mas tinha ficado muito pra trás. Catou um menorzinho pelo braço e tentou fazer dele um atalho de páscoa.
Não colou!
Voltou pro fim da fila, onde eu também estava.

Pediram que eu ficasse por ali e a partir daquele momento não deixasse mais nenhuma criança entrar.
O chocolate era contado…

Mas logo depois apareceu uma menininha muito fofa, seguida por um molecote atrasado. Vieram mais 5, mais 15.
Cada um apresentava uma razão diferente e todos me fizeram ceder.
Que se dane a contabilidade!
Deixei todo mundo passar!
-Chocolate? É aqui mesmo, pode vir!

A fila andou, correu, voou.
Uns moleques marotos, malandros até tentaram. Saíram da fila e voltaram: – tia, tio, não peguei, não peguei!
Muitos juraram, poucos convenceram.
Se bem que eu não contei.

Voltamos pra van.
Pegamos mais caixas.
E agora?
-Vamos subir! Como é que chega lá?
Pego uma caixa pesada.
São 200 barras.
Vamos subir à pé
A molecada nos segue em cortejo.
-Tia, tio, não peguei, não peguei.

Subo o morro pensando:
Vai derreter esse chocolate!
É uma boa subida entre vielas íngremes.
Um caminho coalhado de muitas casas, boas casas: maciças, completas.
Um homem embriagado me pede um chocolate: -desculpa, eu só carrego! Pede pra moça lá na frente.
Não pede…

Subimos bem alto, bem alto!
Visto de cima o morro é concreto e tijolo. Quanta casa, meu Deus, quanta gente!

Subimos mais alto.
Corre esgoto no chão e o chão escorrega.
Estamos na boca do mato.
É a favela da favela.
Na falta de tijolo, alguém fez um muro com pedaços de uma máquina de lavar.
Olho pra dentro das casas.
São casebres.
Muito pobres, muito pobres.
Não sei se têm luz.
Não sei se têm comida.
Em que século estamos?
Que cidade é essa que eu nunca vi?

Lá na frente, quase no topo do morro, passamos em silêncio.
A turma que organiza o movimento tá sentada.
Passamos oferecendo uma boa tarde.
Um menino muito magro desce pesado.
Fico pensando…

Lá embaixo vejo uma barricada. A parede de uma das casas, saturada de tiros. Um pouco mais à frente uma cabine blindada da polícia. Na frente dela um jovem soldado de camiseta e calção observa o movimento.
Parece um náufrago perdido, abandonado na tormenta.

Subimos de novo, estamos em outra favela. O chocolate derreteu mas a meninada nos aguarda com uma vontade sólida. Uma jovem aparece trazendo um bebê ao colo. Tem o rosto manchado de doença e é muito, muito nova. – É seu filho ou seu irmão? Achei por bem não perguntar.

Por sorte a fila termina antes do nosso estoque de modo que podemos descer devagar, entregando algumas barras pela janela.
Vejo um menino ao lado da mãe: é um menino bem passado e arrumado. Usa óculos, tem gestos curtos e quando recebe o chocolate oferece em troca o sorriso mais gentil e encabulado que tinha visto naquela tarde.
Saco o telefone pra tirar uma foto, mas a van não espera.
Desço o morro pensando em tudo o que vi.
E desde que desci o morro, não consigo parar de pensar…

*Danilo Vieira

 

Jornalista Danilo Vieira é voluntário da ONG Voz das Comunidades. Foto: Alexandre Silva/Voz das Comunidades

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