“Tornar-se negro”: resistência e representatividade

O racismo não acabou com o fim da escravidão, ele existe e nos assola até hoje. Nos dias atuais, também com a chegada da internet, muitos temas entraram em pauta e são discutidos mais abertamente. A resistência negra ganha a cada dia mais força e posição. Nada mais justo, sendo o Brasil um dos países onde se mais têm negros fora da África e que mesmo assim ainda necessita, e muito, de representatividade. A Apropriação da cultura negra disfarça uma falsa aceitação, tendo lugar para os costumes, mas não para os negros. Turbante, estampa étnica, gírias, favela e samba estão por todos os espaços da cidade, barreiras que o corpo negro ainda não ultrapassou. Batemos um papo maravilhoso com a jornalista Thayná Alves, de 24 anos. Esse começo de diálogo sobre representatividade e empoderamento alavancou de uma forma linda a vida da jovem que hoje se vê mais forte para encarar os desafios de ter nascido mulher preta.
VDC: Como foi sua infância no colégio? Você se via diferente das outras crianças? Era integrada e obtinha bons resultados?
Thayná: A trajetória de toda menina negra se encontra. Na infância não é diferente. Esse período foi bem difícil e doloroso. Ainda que negra e pobre, sempre fui bolsista em espaços privilegiados, onde quase sempre era a única aluna negra. Eu entendia que era diferente, mas não compreendia porque me tratavam diferente por isso. Lembro que minha primeira professora negra, que ainda que de pele mais clara do que a minha, me dava sensação de proximidade. Diferente das outras e outros, ela me olhava com admiração e carinho, e na formatura me escolheu para ser uma das crianças que se vestiriam de anjo para uma encenação. Até então eu não sabia que existiam anjos negros, mas a partir desse dia eu soube. Sempre gostei muito de estudar, mas lembro que a partir da quarta série ir à escola passou a ser desconfortável. Foi quando eu tirei a minha primeira nota vermelha, mesmo sabendo toda a matéria. Sabia as perguntas mas tinha vergonha de levantar a mão para responder, vergonha de ser vista. Eu entendi que não era tímida, eu fui silenciada. Nessa fase meu cabelo, minha boca e todo o meu corpo já haviam ganhado “apelidos” horríveis . Alguns eu consegui esquecer, mas outros, só de lembrar eu consigo ouvir. Aquilo que causava incômodo, que eu não sabia nomear, é e sempre foi racismo. Não é preconceito, não é bullying, é racismo.

VDC: Sua adolescência foi igual a das suas amigas?
Thayná: Definitivamente não. Primeiro porque o lugar da beleza, daquilo que se entende como feminilidade e da afetividade não era pra mim. Todos os infelizes episódios da infância contribuíram para o massacre da minha autoestima nesse período. Eu era a amiga inteligente e divertida, que servia de ponte para os meninos chegarem nas minhas amigas brancas. Na adolescência eu já alisava o meu cabelo, hábito que adquiri aos 7 anos, e reproduzi durante 15 longos anos da minha vida. Nessa fase eu não conseguia me olhar no espelho, desviava dele, não conseguia me ver. Não usava brincos, nem maquiagem. Mas passei a ser menos tímida , o teatro e a escrita me ajudaram muito nisso, eram formas de me expressar e extravasar.

VDC: Você já sofreu preconceito direto ou indireto?
Thayná : A primeira vez que me deparei com o racismo eu tinha uns 7 anos. Estava no playground de uma lanchonete quando um menino, tão criança quanto eu, gritou bem alto: “preto, não!”, e se acatou de mim. Na hora eu não entendi o porquê daquilo, mas foi quando comecei a sentir que o meu corpo incomodava. Certa vez, uma “amiga” da minha mãe sugeriu que eu apertasse o nariz todos os dias para que ele diminuísse, hábito que reproduzi durante tempos. Há quem diga que no Brasil o racismo é velado, e discordo plenamente. O racismo é naturalizado, sistemático e institucional. Ele opera desde o momento da infância até quando uma vaga de emprego me é negada por eu ter o meu cabelo crespo natural. Somos 77% dos assassinatos nesse país, como podemos negar que exista racismo quando há o extermínio do povo preto. Estar vivo é resistir!

VDC: No campo amoroso, você teve dificuldades? Atribui alguma dificuldade, se houver, a ser negra?
Thayná: Sim; A gente sabe que gosto é construção. Qual imagem nós temos construída sobre mulheres negras? Evidente que desde a escravidão os nossos corpos são hipersexualizados, vistos como subservientes, fetichizados. E essa imagem se perpetua até hoje. Às mulheres negras não foi dada a escolha do afeto. Pro mundo nós somos fortes desde sempre, cuidar é nosso instinto e aptidão. Não é questão de ser generalista , mas as histórias se repetem, minha e das minhas irmãs. Não por acaso a gente preza o cuidado umas pelas outras.

VDC: Você tinha personagens que te representassem na infância e adolescência?
Thayná: Dificilmente. Nos desenhos, nas novelas, nos livros da escola, as referências eram poucas, isso quando existiam. Por isso a representatividade é tão importante. Quando nos vemos construímos pra nós e pros nossos o pensamento de que é possível sermos quem quisermos ser.

VDC: Hoje, quais são sua referências de representação?
Thayná – Todas as mulheres pretas da minha família, mulheres de luta, que me fizeram ser quem sou. Uma das minhas maiores referências se chamava Terezinha, minha vó, que já faleceu. Mineira, só sabia escrever o nome, não concluiu a escola, trabalhava desde criança, criou três filhas incríveis, minha vó era empoderada,sim.

VDC: Quando você se entendeu preta? Qual foi o divisor de águas na sua vida?
Thayná: Sou negra de pele bem retinta, sempre soube que o era. Pai,mãe e irmã também negros. Então perceber a minha cor nunca foi problema, eu só nunca havia me questionado sobre em que isso implicava. A Yasmin Thayná, diretora do KBELA, certa vez em uma entrevista disse algo que me marcou:”O negro é o único indivíduo no Brasil que precisa se assumir enquanto sua própria raça!”. Na nossa construção como sujeitos nossa história é negligenciada , por isso , “tornar-se negro” ,como diria Neusa Santos, é um processo. Eu comecei a me entender negra quando era a minoria,quando não a única na sala da universidade. Me entendi negra por meio do meu cabelo. Foi um processo de cura, libertador. Rompi com o hábito do alisamento, e entendi que bonito de verdade era ser eu mesma. Depois de muitos anos eu finalmente conseguia me olhar no espelho e me reconhecer nele. Foi um processo de aceitação, autocuidado, valorização das minhas raízes e da minha história. Empoderamento não se resume a, mas também é estética.

VDC: Você tem uma visão diferente do que teve durante alguns períodos da vida? Quais são?
Thayná: Completamente. Hoje consigo compreender melhor tudo o que passei, me sinto mais forte e me permito ser frágil. Se tem algo que o racismo rouba da gente é a nossa visão plena sobre nós mesmos. Durante muito tempo busquei provar que era boa nisso ou naquilo, e isso nos adoece. Amo a minha cor, meu cabelo ,o meu corpo, me permito chorar, mas é certo que sorrio muito mais hoje.

VDC: Qual a importância de empoderar-se?
Thayná: O meu empoderamento só foi possível porque fui e sou formada por mulheres e homens negros que me disseram que eu era capaz, que sempre acreditaram no meu potencial. Se o meu diploma de jornalista não leva essa possibilidade aos meus iguais de nada ele vale. Se o meu conhecimento não contribui para fortalecer a minha comunidade, em nada ele me acrescenta. Hoje faço parte de um projeto chamado África em Nós, que fala sobre racismo e empoderamento nas escolas. A história do povo preto é construída na coletividade. Eu sou muita gente, eu sou várias histórias.

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