Uma obra prima social: Conheça o projeto “Arte do Corte”

Barbeiro e cria do Fumacê criou um projeto para ir além do pacote barba, cabelo e bigode e transformar vidas

O projeto “Arte do Corte”, voltado para profissionalizar jovens na área da barbearia e da beleza, nasceu da cabeça de uma cria da Favela do Fumacê, em Realengo, e se depender dele, não vai demorar muito para sair do papel. O criador-artista tem nome e apelido – Marcelo Victor da Silva Pinto, também conhecido como Charlie Brown – e já trabalha deixando a galera da comunidade mais bonita há mais de 15 anos.

Marcelo conta com a propriedade de quem já sabe de cor e salteado como toda a logística vai funcionar. De três em três meses serão abertas novas turmas de cursos intensivos de quatro horas por dia, três vezes por semana. Serão vinte alunos por turma, dez no turno da manhã e dez à tarde. A prioridade das matrículas será para jovens da própria comunidade do Fumacê. Ao fim dos cursos, os três melhores e que mais se destacarem terão um emprego na barbearia.

No conteúdo programático do curso, Marcelo, ou Charlie Brown (isso, assim como o modelo do corte, também pode ficar ao gosto do cliente) vai ensinar desde os princípios básicos da barbearia até a profissionalização, que inclui aulas de administração para que cada um possa gerir seu próprio negócio, com direito a noções para criação do próprio CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) e MEI (Microempreendedor Individual), documentos obrigatórios na legislação brasileira para quem quer abrir seu próprio negócio. “Gosto de ensinar, gosto de ajudar quem precisa, é uma coisa minha” – afirma Marcelo.

Para fortalecer a parte prática do curso, a intenção de Charlie Brown é oferecer cortes de cabelo para as crianças carentes da comunidade. Mas ele ressalta que tudo será supervisionado por alunos antigos, aos quais ele ensinou a cortar cabelo, numa ação embrionária do que hoje está desenhado como o “Arte do Corte.” Segundo Marcelo, assim os alunos vão ganhando prática, e a criançada, um corte de cabelo gratuito. Tudo para que os alunos possam se sentir preparados e mais seguros para abrir a própria barbearia.

O envolvimento de Marcelo com projetos sociais não fica só entre tesouras e máquinas de corte. Charlie Brown também tem um time de futebol, o “Amizade Unida”, que reúne meninos de até 10 anos de idade no campinho da própria comunidade às terças e quintas, para eles ficarem perto da bola e longe das balas. Tudo isso sem qualquer tipo de apoio ou patrocínio por parte do Estado. Ajuda? Fala com olhos de gratidão do Seu Cebolinha, dono da padaria “Pão nosso de cada dia”, que segundo ele, sempre dá uma força nos eventos no Fumacê.

Mesmo sem gostar da ideia de contar com o governo, foi convencido a ir até ao Caminho Melhor Jovem, um Programa do Governo do Estado do Rio de Janeiro, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), voltado para inclusão social e oferta de oportunidades para jovens. O objetivo era participar de uma seleção na qual, caso saísse vencedor, receberia R$ 15 mil para o “Arte do Corte” sair das telas de sua imaginação e ganhar vida.

No fim das contas Charlie Brown ganhou o prêmio, mas pelo impasse das contas do Governo do Estado, bloqueadas pela Justiça, em mais um capítulo da crise, até agora o dinheiro não foi liberado.

Enquanto isso, Marcelo continua juntando o dinheiro do próprio bolso e diz que, até o fim do ano, vai montar o novo salão que abrigará o projeto, seja como for. “Eu não tenho nem carro, a mulher pede as coisas e eu falo logo ‘nem vem que eu estou focado e até o fim desse ano o meu salão sai’.” Charlie Brown já tem um espaço onde está há mais de 15 anos, desde quando aprendeu, de olho e com amigos ensinando, a arte do corte.

O local, onde não cabem mais de sete pessoas, não para de receber gente pedindo os serviços de Marcelo. Durante os trinta minutos que a equipe de reportagem ficou lá, fomos interrompidos mais de três vezes com pedidos de horário para cortar o cabelo. O “Arte do Corte” pode ainda não ter espaço físico, mas como diz a música do Charlie Brown, “o melhor presente Deus me deu / a vida me ensinou a lutar pelo que é meu”. Isso, para o bem da Favela do Fumacê, Marcelo aprendeu direitinho.

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