A diferença está nas pessoas

LEANDRO RIBEIRO

Designer formado pela Unicacarioca, sócio da Artigo Design há 9 anos e fotógrafo independente. Mora há 25 anos no Complexo da Penha, vizinha do Alemão.

A dura realidade bate às nossas portas diariamente. Insegurança, medo, falta de infraestrutura adequada, saúde precária, educação de má qualidade, empregos escassos. Quase sempre, nos falta esperança. Essa condição não se aplica só às nossas comunidades. É um fato lamentável em nosso país. Motivo para pessimismo? Para muitas pessoas essas situações não são motivos para desistir.

Em meio aos noticiários de violência, aparecem algumas histórias que passam, muitas vezes, despercebidas. Histórias de superação, de volta por cima, de heroísmo. Em fevereiro deste ano, a história de Thompsom Vitor, 15, surpreendeu o país. Sua mãe, Rosângela da Silva Marinho, ex-catadora de lixo, encontrava livros e os entregava aos filhos, com o intuito de incentivar a leitura das crianças.. Como resultado, viu o filho ser aprovado em primeiro lugar geral no exame de seleção do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN).

Em 2013, uma catadora de latinhas do Distrito Federal, Marilene Lopes, conseguiu passar em um concurso de nível médio do Tribunal de Justiça e trocou uma renda mensal de R$50,00 por um salário de R$7 mil. Ela disse que chegou a passar um ano com apenas uma calcinha.

Histórias como essas não são únicas. Infelizmente, a nossa sociedade considera como heróis os artistas ou jogadores de futebol milionários – que possuem seu mérito e merecem reconhecimento quando esquecemos outros heróis, que estão tantas vezes mais perto do que imaginamos. O pai de família que acorda cedo todos os dias, enfrenta o transporte público precário para encarar sua jornada pesada de trabalho, com dois ou três empregos, mas que consegue de maneira digna e honesta criar seus filhos.

Temos bons exemplos, que silenciosamente vencem as barreiras impostas pelo Estado e pela nossa guerra cotidiana, em busca de uma condição de vida melhor. Muitas vezes nossos jovens se espelham em exemplos equivocados, quando o orgulho deveria estar nas histórias de superação, mesmo diante de tantas dificuldades – e elas não faltam.

O Complexo do Alemão abriga inúmeras pessoas que conseguem – dia após dia – suas vitórias e destaque através da fotografia (como o Foto Clube Alemão, com muitos fotógrafos da comunidade no mercado de trabalho), do jornalismo (vejam o Voz da Comunidade, para o qual escrevo esta coluna), e tantos outros na área de esportes e da cultura. A última edição do VOZ trouxe na matéria de Betinho Casas Novas o DJ Daniel e sua trajetória: De vendedor de bananada ao DJ mais requisitado da comunidade.

Todas as pessoas citadas têm uma coisa em comum: As dificuldades encontradas dentro de nosso ambiente hostil. Mas isso nunca foi motivo para desânimo. É claro que aprendemos mais em um ano de dificuldades do que em dez anos de facilidades. Muitas vezes a diferença não está na classe social, está nas pessoas. Resta para nós, formadores de opinião, valorizar aquilo que temos de bom, e cuidar para que um legado cultural e positivo seja deixado para nossas crianças. Em tempo: Nos faltam lideranças justas e honestas. Na ausência destas, fica a nosso encargo o resgate de valores,que por descuido, têm sido esquecidos no mundo de hoje.

Veja: eu não disse que é fácil. Muita gente quer estudar em faculdades federais, mas não quer estudar para o vestibular. Quer a estabilidade do serviço público, mas não dedica tempo preparando-se para um concurso. Quer ser artista de teatro, mas não dedica-se aos ensaios. Quer fotografar muitos eventos, mas não abre mão de seus finais de semana e noites de sono para trabalhar suas fotos. A dificuldade existe para todos, em todas as instâncias. Mas elas nunca serão superadas se você continuar esperando (por si só) que elas passem. Há muito esforço e trabalho por trás das histórias de sucesso.

Os jovens são sedentos por desafios que os levem a alcançar experiências, e é isso o que buscam o tempo inteiro. Na ausência do Estado, o estímulo de nossas comunidades precisa existir, para que essas experiências, engajamentos e comprometimentos sejam baseados em nossos bons exemplos, os quais precisamos observar diariamente. O orgulho precisa estar na valorização e no reconhecimento aos nossos ícones, que fazem a diferença para as suas famílias e para toda a nossa comunidade.

A tragédia e a violência já são assimiladas diariamente por todos nós. No entanto, existem outros valores que precisam ser usados como exemplo. Precisamos mostrar ao mundo que não vivemos apenas disso. Que apesar de todos os pesares, existe vida no Complexo. Existe cultura, arte, paixão, força e esperança. A diferença pode ser feita pela próxima geração, que precisa dos nossos bons exemplos… Fé!

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