Frente Favela Brasil, o partido Favelista

Celso Athayde, fundador do movimento que diz não integrar, lança o partido de favelados para favelados

“Nem de direita nem de esquerda. Eu prefiro ser preto. Sou favelista”.  Celso Athayde, criador da Central Única das Favelas (CUFA) e da agência de viagens Favela Vai Voando, para citar só dois dos seus feitos, disse essa frase no encontro com a equipe de reportagem do Jornal Voz das Comunidades, em Madureira, na Zona Norte do Rio de Janeiro, na tarde de uma quarta-feira que não se decidia entre ser ensolarada ou cinzenta.

De camisa preta e cabelo baixinho um pouco grisalho, Celso, que tem 54 anos, explica que favelismo é, dentre outras coisas, códigos com mais ética, benevolência, humanidade, calor humano e respeito – valores que estão presentes nas favelas e não se encaixam nas vertentes políticas que existem hoje.

Apesar de ser um fundadores do movimento, diz não ter vocação política pelo seu “temperamento” e por ser “um cara reservado”. Com fala calma e pausada, destaca as diferenças que a Frente Favela Brasil (FFB) tem com relação ao que ele chama de “partidos tradicionais”: preocupação com igualdade de gênero, racial e étnica.

Sentado à vontade de pernas cruzadas, volta sempre à fala sobre a importância do protagonismo do favelado, sem utopias. “Ainda que esse partido cometa as mesmas anomalias dos homens do asfalto, para nós ainda é um avanço, porque nós erraremos por nós.” E diz com serenidade que, se a criação do partido não der certo, “pelo menos a gente tentou; vamos continuar fazendo o mesmo trabalho que viemos fazendo esse tempo todo”.

De favelado para favelado, Celso diz que “não é o poder pelo poder, é o poder pela possibilidade de transformação real”. Para ele a FFB, na verdade, não é um partido político, é uma grande intervenção social por via de poder”. Segundo Celso, “a maior novidade que vai existir em 2018 é a existência de um partido como esse.”

Confira a seguir a entrevista completa:

Jornal Voz das Comunidades (JVC): Celso Athayde, o que é o partido “Frente Favela Brasil”?

Celso Athayde: O Frente Favela Brasil é um partido que quer juntar pessoas de favela de qualquer etnia. A ideia é fazer com que essas pessoas, que não são representadas hoje, seja por serem negras ou por serem faveladas, tenham uma narrativa de protagonismo num território de poder. Hoje você vê pessoas falando em nome dos favelados em todos os segmentos da política, mas na verdade, eles não têm na prática compromisso com elas, porque a relação é só para pedir votos.

JVC: Para o partido ter a autorização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para disputar o pleito eleitoral de 2018 precisa conseguir cerca de 450 mil assinaturas distribuídas em pelo menos nove estados. Quantas assinaturas o partido tem hoje?

Celso Athayde: Na verdade, a criação de um partido é um processo. Primeiro você faz uma fundação, que foi o que fizemos ano passado. No segundo momento você vai ao TSE formalizar essa fundação e fazer com que esse partido exista formalmente. A gente já tem o registro do partido. O terceiro ato é você ter um CNPJ e uma sede em Brasília. A gente está dando entrada no dia 03/04/2017 no CNPJ. E por fim vem a parte de recolhimento de assinaturas, que é um percentual dos votos válidos da última eleição. A gente vai começar a colher assinaturas para a legitimação do partido a partir de 23 de maio deste ano, essa é a nossa expectativa. O que nós temos hoje são só pré-assinaturas, que são pessoas que se cadastram no site e se voluntariam para colher outras assinaturas. A nossa previsão é que 700 mil pessoas assinem.

JVC: Quem é o presidente do partido?

Celso Athayde: Na verdade, esse partido é muito diferente dos partidos convencionais. Ele não tem apenas um presidente. Ele tem uma dupla como presidente e outra dupla como vice. A gente preza muito pela questão de gênero, então não existe só uma pessoa que fala em nome do partido. Nós sabemos que, juridicamente, a lei determina que seja uma única pessoa. Então, institucionalmente é o Derson Maia, um negro de Brasília, bissexual assumido. A vice-presidente é uma mulher do Morro do Papagaio, em Minas Gerais, chamada Patrícia, uma militante do Candomblé. A gente tenta ter, dentro dos espaços de poder do partido, as mais diversas tendências sociais. O partido determina que o presidente não pode ser do eixo Rio de Janeiro – São Paulo, tem que ser de fora, para democratizar o território de poder.

JVC: Você tentou fundar um partido em 2001, o Partido Popular Poder Para a Maioria (PPPomar), que deveria ser formado só por negros, mas o projeto não conseguiu sair do papel. Você disse em entrevista que o partido de agora, diferente do PPPomar, aceitará brancos, “desde que sejam moradores da favela”. Você pretende estabelecer mais alguma medida diferente para dar certo desta vez?

CA: Eu não faria associação entre uma coisa e outra. Em 2001 eu fazia parte de um movimento, e ainda faço, o hip hop, e nós pensamos em fazer um partido. Nós chegamos a fundar, mas não o registramos no TSE. Como naquela época existia uma voz muito negra dentro do movimento, as pessoas do hip hop entenderam que a gente devia fazer um partido totalmente negro. Eu achei que era pertinente, e naquele momento o mais importante não era a existência do partido, era a disputa de espaço de poder. Ou seja, mesmo que a gente não conseguisse fundar o partido, acho que só o fato de o negro pensar nessa possibilidade, já era sair de um lugar onde só se disputava espaço de coadjuvância. Então causar essa pauta naquele momento, para mim, era o mais fundamental.  No que a gente esbarrou? Primeiro, que a gente precisava de um discurso afinado; além disso, que a gente precisava de dinheiro. Hoje a gente consegue, a partir das nossas relações corporativas e individuais, fazer com que as pessoas patrocinem esse partido.  Na verdade, eu diria que a grande diferença foi a falta de experiência na época. Como a base do partido era do hip hop, que era muito radical, ele repelia quem não fosse do grupo. Então eu resolvi deixar o projeto em stand-by para um segundo momento. E o segundo momento é agora. O Frente Favela Brasil, por ser de favela, agrega todos os segmentos, inclusive o hip hop. Porque a favela é um universo onde tem o homossexual, tem o índio, a classe média, o negro, a mulher, o nordestino…

JVC: Sobre ideologia, no site do Frente Favela Brasil há referência, na parte de economia, a uma “economia de cooperação”. Você poderia explicar isso melhor?

CA: Hoje o partido tem uma ideologia incipiente (está no começo). A gente resolveu não criar uma ideologia do partido nem uma base efetiva.  Queremos criar grupos de discussão de âmbito nacional para debater os temas que o partido tem que abordar. Não queremos chegar com os temas prontos. Os presidente são provisórios, todo o discurso, ideologia e fundamentação do partido são provisórios. Eles serão definidos no grande seminário do partido que está previsto para novembro deste ano. A partir daí, teremos uma ideologia mais próxima do que a gente entende como real. As opiniões do partido não estão fechadas.

JVC: A operação Lava-Jato, da Polícia Federal, está trazendo à tona de um modo muito forte a temática do combate à corrupção. O Frente Favela Brasil já tem algum tipo de medida estabelecida para lidar com isso dentro do partido?

CA: Nós temos mecanismos para não permitir que isso aconteça como os padrões que já existem e alguns códigos de ética. Apesar disso, não dá para garantir nenhum tipo de combate à corrupção se não houver um compromisso das pessoas em relação a isso. As leis você cumpre ou não. As pessoas vão para o partido por acreditar numa plataforma. Mesmo assim, ainda que esse partido cometa as mesmas anomalias dos homens do asfalto, para nós ainda será um avanço, porque nós erraremos por nós, em vez de pessoas que só vão à favela para pedir votos errarem “por nós”.

JVC: Você diz que vai fundar o partido e vai sair. Por quê?

CA: Eu não vou sair, eu não vou entrar. Estou fundando igual a todo mundo. Como tantas outras pessoas que participam porque acreditam que a existência desse partido seja importante. E, mais do que isso, são pessoas que acreditam que quem está protagonizando e puxando esse bonde são pessoas comprometidas com a ética. Eu não vou fazer parte desse partido, primeiro porque não tenho vocação política; segundo, porque eu não tenho interesse político.

JVC: Você diz que não é de direita e nem de esquerda, que é favelista. Mas reconhece que “em todos estes anos a esquerda se esforçou e contribuiu para responder às demandas e às necessidades dos negros e favelados do país”. O Frente Favela Brasil pode ser considerado um partido mais à esquerda?

CA: Quando a gente fala de favela, se você perguntar o que é ser de direita, o que é ser de esquerda ou o que é ser de centro, as pessoas não sabem, não estão muito preocupadas com isso. Elas estão querendo saber quem é que resolve os problemas delas.

Eu preferi que a gente fosse favelista porque, na prática, você tem 25 milhões de pessoas que moram em favelas e as quais nem a esquerda, nem a direita conseguiu atender. Ser de direita não é, na verdade, um privilégio, como ser de esquerda também não tem sido. O que eu não posso deixar de reconhecer é que a esquerda, sobretudo a partir do Lula, deu uma série de aberturas, reconheceu uma série de problemas que a direita nunca reconheceu. Criou não só grupos de trabalhos, mas secretarias de movimento negro de promoção da democracia racial. Por isso nós ficamos mais próximos da esquerda. A gente quer a construção de um modelo favelista porque os códigos da favela são diferentes desses códigos que estão postos. São códigos com mais ética, com mais benevolência, com mais humanidade, calor humano e respeito. Esses códigos não estão colocados nessas tendências partidárias, exceto no discurso. Na prática, ser favelista é trazer um conceito que nunca foi experimentado. Então, eu prefiro não ser de direita e nem ser de esquerda, e ser preto. E se isso não der certo, a  gente simplesmente desliga o botão, mas pelo menos a gente tentou. E continuemos com as mesmas coisas que a gente vem fazendo até hoje.trailer film Captain Underpants: The First Epic Movie 2017

JVC: O partido foi lançado em julho do ano passado, na Providência, num dia de semana, à tarde. Você acha que isso dificulta a participação efetiva do favelado, que em sua grande maioria estaria trabalhando naquele momento, no meio do expediente?

CA: Não. Veja só, o lançamento de um partido é uma reunião para, no máximo, 120 pessoas, de no mínimo 9 estados. Isso é a fundação. Um grande evento para muitas pessoas é a partir do momento em que a gente levou para essas pessoas toda a nossa discussão, do que nós somos. A gente não queria dar musculatura, capilaridade e massa a algo que as pessoas viessem só porque um grande artista está presente, se não é exatamente aquilo que toca no seu coração. A gente quer que as pessoas venham para o partido por convicção, e não por modismo.

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