OPINIÃO | Você está sendo interativo?

Quando se fala em interatividade, a primeira coisa que nos vem à mente são as novas tecnologias, que prometem, cada vez mais, promover melhor comunicação entre as pessoas. A ideia de ser interativo é ser rápido ao dialogar e, ao mesmo tempo, fácil de ser entendido. Será isso mesmo?

A palavra interatividade é base de vários estudos contemporâneos, mas a ideia deste artigo não é apresentar um conceito e, sim, contextualizar o termo junto a nossa sociedade. Para o sociólogo Marco Silva, por exemplo, interatividade se caracteriza pela fusão sujeito-objeto, ou seja, ocorrem contribuições mútuas na construção da mensagem.

Assim, não existe aquela imagem de emissor e receptor, mas uma participação ativa de todas as partes. Vamos nos atentar a ideia compartilhada por Marco e tentar aplicar a nossa realidade. Você acredita que existe interatividade entre a população e o governo? Vou melhorar a pergunta: você acredita que tem influência direta nas decisões governamentais? Se a resposta for positiva, meus parabéns! Está ocorrendo uma interação entre você e as pessoas que escolheu como representantes. Agora, se sua resposta for negativa quero que me acompanhe.

O Brasil é um país democrático, ou seja, vivemos um sistema político no qual, periodicamente, a população elege seus representantes. Logo, temos o direito de escolher quem nos governar e cobrar por toda e qualquer decisão tomada por eles. Você pode discordar de tal afirmação, mas peço que a use nos próximos exemplos.

Podemos encontrar três análises quando se fala em democracia: participativa, deliberativa e representativa. Iremos focar na democracia participativa, em que o povo atua diretamente nas decisões políticas e divide o protagonismo governamental junto aos seus representantes – o que, de certo modo, se assemelha com o que é entendido por interatividade até o momento, mas vamos prosseguir.

Trabalho conjunto entre governo e população sugere uma provável satisfação das duas partes, certo? Errado, pelo menos é o que diz as pesquisas. Segundo levantamento feito pelo Instituto Ipsos, o atual presidente da república, Michel Temer, conta com 95% de reprovação e apenas 3% de aceitação pela população brasileira. O que nos leva a perceber alguma falha no sistema.

Então vamos refletir… Sem entrar no mérito de certo e errado, não é novidade para ninguém que o Rio de Janeiro passa por uma intervenção militar. Entretanto, ao invés de atacar o atual cenário da cidade, vamos interpretar a situação sob uma perspectiva maior. Se houvesse sido feito um investimento efetivo em educação, hoje seria necessária alguma ação deste nível? Daí, te pergunto: quem sabe as reais dificuldades da sociedade, são os governantes ou os próprios cidadãos? Seguindo nesta linha de raciocínio, você concorda que é importante ocorrer uma interação entre ambas as partes para a formação de uma metodologia mais inclusiva e funcional? Logo, se os nossos representantes trabalhassem em conjunto com a população, ao exercer a chamada democracia participativa, chegaríamos a resultados mais eficazes, certo? É algo a se pensar.

Vamos pegar o gancho da educação e propor outra reflexão. Pense em um modelo educacional interativo, onde alunos e professores estão ali para trocar experiências. Os dois lados têm autonomia para ditar o ritmo das aulas, propor novas atividades e abrir debates sobre as temáticas abordadas. Conseguiu imaginar? A ideia descrita quebra aquele paradigma voltado ao professor como único e soberano dentro da sala de aula e passa a entender o ensino como uma atividade feita por todos. Logo, instaura-se a verdadeira interação entre os envolvidos, de modo a enriquecer o processo educacional.

Promover a interatividade para exercer a interação é fundamental no desenvolvimento social. Muito dos problemas percebidos hoje poderiam ter sido solucionados antes, se houvesse uma comunicação e ação conjunta mais transparente e efetiva entre todas as partes envolvidas no processo. Que fique o questionamento: em um mundo onde se compartilha tanto a ideia de interatividade promovida pelas redes sociais, veículos de comunicação, e, claro, dos produtos tecnológicos, realmente estamos interagindo?

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