Um desespero desnecessário

Fatalmente quebrei meu celular. O aparelho ficou seriamente danificado. Uma dor se assomou ao meu coração. Semelhante a um golpe surdo, me senti impotente e incomunicável. Eu olhava em pânico ao meu redor, como se estivesse perdido. Sem saber o que fazer, enterrei minha cabeça nas mãos e me questionei: “E agora?”.

Mas antes que eu pudesse formular uma resposta, desafiei minha consciência com outro questionamento: “Porque esse drama todo?”. “Qual o motivo plausível para eu estar assim?” Após alguns segundos de reflexão, eu esbocei mentalmente a resposta:

Porque sou fruto de uma geração escrava da tecnologia.

Não que eu seja contra a tecnologia moderna. Mas o ponto que quero ressaltar é a dependência excessiva que temos com os meios eletrônicos que convivemos diariamente. Minha angústia pela quebra do celular ultrapassa questões financeiras, no que tange o valor do aparelho, e pousa no ponto central desse artigo: Somos dependentes de tecnologia. E parece que não fazemos nada para melhorar essa excessiva necessidade.

Para ilustrar essa dependência, trago outro caso, que coincidentemente ocorreu no mesmo dia. Juntamente com minha irmã pequena, assistíamos a um filme chamado A Bússola de Ouro, do gênero fantasia, que trazia um mundo onde a alma dos humanos eram animais antropomórficos que andavam livremente com eles pela sociedade. Atento a esse curioso fato, imaginei se nos celulares atuais não estariam uma parcela da alma do seu dono. Se quando meu celular caiu no chão, uma parte da minha alma não se quebrou também. Uma ideia macabra, mas que não deixa de flertar com o tema dependência. Tratamos coisas como seres, e a partir do momento em que me importo mais com meu celular quebrado do que com a angústia do meu amigo que não foi bem na prova, eu provo que parte da minha alma estava enclausurada naquele aparelho. Ou talvez, a alma toda.

Ter e não ser. Um lema bem apropriado ao mundo moderno. E não quero ser assim. Não posso permitir que eu seja controlado por essa dependência tecnológica que muito afeta minhas relações pessoais no mundo real. Como bem disse Leandro Karnal, em uma palestra sobre Hamlet e sua aplicação aos dias atuais, “Diga pela menos uma vez na vida, quem é que manda”.

Entre escolher entrar no notebook para conversar com amigos que outrora eu estaria conversando pelo celular e ler um livro para minha irmã, eu fiz a escolha sensata: “Qual é o livro que você escolheu, querida?”.

SOBRE O AUTOR:


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Kássio Henrique Aires é estudante de Direito na Faculdade Católica do Tocantins – FACTO. É membro do Diretório Central Estudantil – DCE/FACTO, além de bolsista pesquisador na área de Direitos Humanos e monitor da matéria de Direito Penal II do curso de Direito. Já publicou artigos nos sites Empório do Direito e JusBrasil.  

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