O PREÇO DE UM SONHO: a realidade de viver longe de casa pelo esporte

No esporte de rendimento é comum que os atletas comecem a treinar já na infância, esse começo precoce faz com que os atletas deixem de realizar atividades comuns quando ainda adolescentes e lidem com excesso de exigências físicas e psicológicas. Em muitos casos o atleta acaba tendo que sair de casa antes da maioridade para buscar um sonho maior dentro do esporte.

Essa é a situação da atleta Fabiana de Matos, que pratica atletismo desde 12 anos, por incentivo do seu pai Nelson de Matos. E desde o começo, Fabiana mostrava dedicação e foco nos seus objetivos dentro e fora das pistas, em função disso, os resultados tornaram a atleta uma das maiores promessas brasileiras em sua categoria.

Com apenas 16 anos Fabiana possui um currículo repleto de grandes conquistas, ela é figura carimbada na maior parte das convocações da seleção brasileira. Com títulos de expressão, a atleta que representa o país em competições internacionais acabou despertando o interesse de grandes clubes do atletismo no Brasil. Assim, Fabiana que é natural de Caçador em Santa Catarina, buscando novos rumos, teve que se despedir da família em janeiro deste ano tendo como destino São Paulo.

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Entretanto, muitos jovens possuem a ilusão de que uma carreira no esporte é só maravilhas, basta ser descoberto por um grande empresário ou entrar em um grande clube. Mas não é assim que funciona. Provavelmente o processo mais difícil é começar uma nova vida longe das facilidades de casa: “Em conversas com meu pai, antes de me mudar, ele falava da tal dor de saudade devastadora, eu nem ligava até que um dia elas vieram, com tudo, chorava tanto que meu peito e meus olhos doíam. Senti-me deslocada, confusa, completamente perdida, só queria desistir de tudo e ir para casa” lembra Fabiana.

Hoje a atleta representa o clube SESI-SP, instituição que possui uma estrutura maior e que proporciona um preparo mais vantajoso para seus objetivos dentro do atletismo. Além da melhor condição de treinamento, o SESI oferece moradia e escola para os atletas oriundos de outros estados.

De vida nova em São Paulo, com a bagagem vieram as responsabilidades de viver sozinha em uma cidade muito maior na qual morava: “Comecei a dar valor ao que realmente importa, criei responsabilidade, amadurecimento, por que agora sou eu quem está no controle, tenho uma vida humana nas mãos e pela frente e se ela vai valer a pena ou não só depende de mim mesma”.

Para um jovem morar longe da família é fundamental ter disciplina e enfrentar as dificuldades rotineiras. Fabiana alerta sobre sua nova fase morando sozinha: “Um novo mundo abriu-se para mim e quanto mais eu o descobria, mais me autoconhecia. Morar sozinha para mim assim como para muitos é sinônimo de sonho e claro muita liberdade, é maravilhoso poder ir aonde, como e com quem quiser, comer o que tiver vontade, a qualquer hora. Entretanto, é preciso ter cuidado, pois se não souber usa-la corretamente podemos nos dar mal. Fiquei frente a frente com drogas, que era algo que só ouvia falar nos noticiários, e o que mais me chocou foi que ela foi oferecida de forma natural e amigável. Tive que ouvir muitos absurdos, sentir na pele como é difícil ser mulher nessa sociedade machista e perceber que infelizmente amizades verdadeiras e gentileza são algo cada vez mais raro no mundo”.

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Deixar o interior de Santa Catarina e seguir rumo a maior cidade da América não deve ser fácil, mas a atleta se refere a São Paulo como um “caos inspirador”. A região metropolitana de São Paulo é o 2ª maior aglomerado populacional do mundo, atrás apenas de Tóquio. “De um lado um certo comodismo, de outro, uma correria sem controle. Pessoas e sonhos que se misturam em cores e climas variados. Sorrisos, lágrimas, gritos, propagandas, luzes, trânsito, falares diferentes, perguntas, respostas, silencio e ruídos em uma paisagem cubista, impressionantemente e encantadora. Nesse contexto vejo-me ainda meio indefesa e inconstante, tendo muito a conhecer, aprender e construir.” revela Fabiana misturando um sotaque gaúcho, catarinense e paulista.

A atleta além de lutar nas pistas de atletismo, luta por uma sociedade mais justa e igualitária apoiando a igualdade de gênero e promovendo a autonomia da mulher. Longe de casa e com boas notas, Fabiana já pensa no seu futuro profissional quando terminar o ensino médio e se encaminhar para a vida universitária.

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