20 de novembro: Se houvesse consciência humana, não haveria racismo

“Eu ser contra criarem uma consciência branca? Não mais. Pois, talvez, dessa forma, os lidos hoje como brancos relembrem as atrocidades que seus descendentes cometeram contra o povo negro e reflitam o motivo pelo qual possuem tantos privilégios”

20 de novembro: Se houvesse consciência humana, não haveria racismo

Foto: @uendelns

“Brasil, meu nego, deixa eu te contar, a história que a história não conta… com versos que o livro apagou. Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento. Tem sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos, eu quero um país que não está no retrato…”

Com o samba-enredo de 2019, “História para Ninar Gente Grande”, da Estação Primeira de  Mangueira, que inicio este texto para falar a respeito do dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Faço isso por três motivos: primeiro, devido as frases comuns que ressurgem nesta data, “ A consciência é humana”, “Por que não existe Consciência Branca?”, “Todas as vidas importam”; segundo, porque muitos ainda não tem consciência sobre a história de luta e resistência do povo africano no Brasil, uma vez que, em verdade, muitos livros ainda insistem em contar a narrativa daqueles que tentaram controlar fatos passados (a fim de manipular o futuro); terceiro, o vídeo que sempre circula nas redes do Morgan Freeman.

A HISTÓRIA DO 20 DE NOVEMBRO

Foi incluído no calendário escolar nacional em 2003 e, em 2011, instituído oficialmente pela lei federal 12.519, Artigo 1º, assinada por Dilma Roussef, o Dia Nacional da Consciência Negra. Embora regulamentado, a data não foi transformada em feriado nacional, ficando a critério de cada estado e cidade optar por ser ou não. 

De acordo com o levantamento elaborado pelo jornal O Estado de São Paulo, com base em dados da Secretaria Nacional de Políticas e Promoção da Igualdade Racial, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, dos 5.570 municípios brasileiros, menos de 15% consideram a data como feriado – o que nos mostra extrema desconsideração de governantes pelo significado da data num país construído socialmente e economicamente à base de mão de obra escrava africana -. 

Além disso, o 20 de novembro rememora uma das figuras fundamentais no que diz respeito à resistência negra no período colonial, Zumbi Dos Palmares, o último líder do Quilombo dos Palmares, tendo sido Ganga Zumba, tio dele, nascido no Reino do Congo, seu antecessor. Ou seja, a data faz referência à morte de Zumbi, ocorrida em 1695, uma vez que, devido ao resgate de sua história pelos Movimentos Negros, é considerado símbolo da luta pela liberdade, contra a escravização dos seus, e valorização do povo africano, afrodescendente.

Embora oficializada somente em 2011, o que considero tardia, a escolha da data em memória de Zumbi ocorreu na década de 70, a partir do diálogo ocorrido entre o poeta Oliveira Silveira com Vilma Nunes, Ilmo da Silva e Antônio Carlos Côrtes, todos gaúchos. Na época, discutiam a insatisfação com o 13 de maio, pois compreendiam que a data, ao invés de enaltecer a luta e resistência do povo negro, homenageava equivocadamente uma princesa, conhecida com Isabel, filha de Dom Pedro II, que, sob pressão internas e externas, sancionou a lei, chamada Áurea, a qual “concedeu liberdade total ao escravos, abolindo assim a escravidão no país”. Desta maneira, o 20 de novembro ficou consolidado como Dia Da Consciência Negra, em memória de Zumbi e sua luta político-histórica. 

QUEM FOI ZUMBI DOS PALMARES

Segundo informações disponibilizadas pela Fundação Palmares, Zumbi dos Palmares, cuja etimologia advém do termo zumbe, do idioma africano Quibundo, e significa fantasma, espectro, alma de pessoa falecida, liderou o Quilombo dos Palmares, comunidade livre, localizado na região da Serra da Barriga (atualmente integra o município alagoano de União dos Palmares), formado por ex-escravizados fugidos das fazendas no Brasil Colonial.

Embora tenha nascido livre, Zumbi foi capturado aos sete anos de idade e entregue a um missionário católico, Antônio Melo, do qual recebeu o batismo e foi nomeado Francisco, nome comum de ser colocado por religiosos na época. Aprendeu a língua portuguesa e o latim, além da religião católica, chegando a ajudar o padre nas celebrações de missas.

Quinze anos depois de Zumbi ter assumido a liderança do quilombo, o bandeirante paulista, Domingos Jorge Velho, foi convocado para organizar a invasão em Palmares. Ocorrido o ataque, a capital de Palmares foi destruída e seu líder ferido. Ainda que tenha conseguido sobreviver, foi traído por um dos seus, Antônio Soares, e surpreendido pelo capitão André Furtado de Mendonça e seus sequazes. Apunhalado, resiste bravamente, porém é morto no dia 20 de novembro de 1695.

Teve a cabeça cortada, salgada e levada ao governador Melo e Castro. Em Recife, a cabeça foi exposta em praça pública no Pátio do Carmo, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da imortalidade de Zumbi.

CONSCIÊNCIA HUMANA?

Se houvesse consciência humana, não haveria racismo. Racismo é uma tecnologia de dominação que, como nos informa Silvio Almeida no livro “Racismo Estrutural”, pode se manifestar de modo individual, estrutural e institucional. O sistema capitalista foi a base das relações econômicas, sociais e políticas no período colonial e atualmente, reestruturado, também as organiza. Isso significa que pessoas racializadas (negras, indígenas) são as mais impactadas pela desigualdade socioeconômica.

Não estão predominantemente em espaços de poder, na política, tampouco nas universidades, com os melhores empregos, com os melhores salários, na televisão, nos espaços considerados nobres – e sim em favelas e periferias, cujo descaso e a criminalização dessas áreas é uma das realidade -. Não é que eles não tenham tentado, pelo contrário. Muitos, assim como eu, driblam diariamente as estatísticas para se manterem vivos e lutam por um futuro de equidade. No entanto, como diz o início da música no Mano Brown, “A vida é um desafio”, “como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses… por tudo que aconteceu? Duas vezes como… Você vai ser duas vezes melhor como? Quem inventou isso aí? Quem foi o pilantra que inventou isso aí? Acorda pra vida, rapaz…”

A elite brasileira, no fim do século XIX e início do século XX, tentou embranquecer a população, por meio de políticas de branqueamento, após o período da Proclamação da República, no intuito de eliminar os nossos genes, nossas características, traços, herdados dos nossos ancestrais. Abdias Nascimento, grande intelectual e militante da causa negra, vai argumentar que se trata de um genocídio, em seu livro “O genocídio do negro brasileiro”. Além disso, o próprio Estado brasileiro, constrói nesse período, uma identidade nacional, apagando a negra e a indígena, visto que era um atraso para o progresso que almejavam. Ousaram utilizar uma ciência racista da Europa de Francis Galton, baseada na teoria das espécies de Charles Darwin, para dizer que pessoas negras são geneticamente inferiores e degeneradas, além de outros estereótipos. Inclusive, médicos, engenheiros, jornalistas, intelectuais, exportaram essas ideais racistas para o Brasil e criam internamente um movimento eugenista, o qual acreditava na exclusão de negros, imigrantes asiáticos e deficientes de todos os tipos, para melhoramento da nação. Por fim, disseminou-se no Brasil algo que ficou conhecido como democracia racial, a partir do que escreveu Gilberto Freyre em “Casa Grande & Senzala”. Porém, não passa de uma grande falácia, já que as relações étnicos-raciais nunca foram harmoniosas, e sim de muita violência física e simbólica.

Foto: Jonas Di Andrade

Ter consciência negra é compreender o quanto o povo africano e seus descendentes (todos nós) construíram e ainda constroem este país. Não há uma escola, museu, edifício, casa e rua, que não tenha as mãos dos negros envolvidas. A contribuição dessa população para a língua, linguagem, à cultura, os costumes, à educação, às religiões, à culinária, às artes, não cabe em um só livro de história – não por acaso que não só tentaram contar nossa própria história, como também apagar saberes que produzimos antes mesmo de existir um território nomeado Brasil, com povos originários, que foi invadido, não descoberto, por europeus -.

Portanto, para que nunca esqueçamos isso, é fundamental que esse dia exista. Eu ser contra criarem uma consciência branca? Não mais. Pois, talvez, dessa forma, os lidos hoje como brancos relembrem as atrocidades que seus descendentes cometeram contra o povo negro e reflitam o motivo pelo qual possuem tantos privilégios. Contudo, para isso, é necessário que matem o colonizador e o pensamento colonial que habitam neles mesmos ainda, em suas mentes.