Educação ambiental nas periferias: um olhar para o presente

Deslizamento ocasionado pelas chuvas de abril no Laboriaux, Rocinha. Foto: reprodução Instagram @rocinhaalerta

Educação ambiental nas periferias: um olhar para o presente

Falar em educação ambiental muitas vezes desperta a ideia de preparar crianças e jovens para um futuro mais harmônico, promovendo uma transformação na maneira em que os seres humanos convivem com o meio ambiente. Ela busca construir valores sociais, habilidades, conhecimentos e atitudes voltados para a preservação do meio ambiente. É comum pensar que educação ambiental tende a focar em conhecer a biodiversidade e na preservação da natureza, e que os resultados de tal conscientização serão mais concretos apenas para as gerações futuras

No mundo todo, as cidades estão buscando maneiras de se adaptar às mudanças climáticas e minimizar seus impactos adotando estruturas mais resilientes e integradas ao meio ambiente. O Rio de Janeiro, por exemplo, sofre todo verão com chuvas que causam enchentes e deslizamentos que terminam em desastres tanto em áreas ricas como pobres. No entanto, ao mesmo tempo em que as cidades caminham para atualizar seu planejamento e infraestrutura, a periferia ainda sofre com a falta dessa mesma infraestrutura que hoje já não garante o futuro das cidades.

Além de já sofrerem com o abandono histórico, os moradores das favelas e periferias agora fazem parte da população urbana mais vulnerável às consequências negativas da crise climática. Uma das consequências do aquecimento global serão, justamente, chuvas mais intensas e frequentes, o que irá agravar e muito situações que já são recorrentes nas favelas cariocas. Como levar as questões de sustentabilidade, relativamentes mais recentes, para os lugares carentes do básico?

Felizmente, sustentabilidade e educação ambiental vão de encontro das necessidades da periferia. A educação ambiental na periferia tem a importante missão de, em primeiro lugar, buscar soluções em conjunto para lidar com problemas presentes há muitos anos, e, em segundo lugar, pensar estratégias que envolvam tanto o espaço quanto a comunidade das favelas para lidar com as situações futuras.

A favela tem o potencial de ser protagonista de uma transição sustentável através da gestão comunitária de seu espaço, sem ter que esperar por soluções prontas ou de fora pra dentro. Para colocar em evidência seus problemas e vulnerabilidades, é necessário trazer os moradores para o centro do debate da sustentabilidade e mudanças climáticas, dentro de seu contexto e à luz dos impactos que tais mudanças trarão para suas vidas, ajudando-os a perceber o que pode ser mudado ou melhorado. A partir disso, encorajá-los a propor soluções e alternativas de adaptação que tenham a ver com a sua realidade e seu espaço, para que eles possam se tornar protagonistas dessas mudanças, criando um senso ainda maior de comunidade

Há inúmeros exemplos de iniciativas de moradores que resolvem agir ao invés de esperar pela boa vontade política, e com a questão ambiental não deveria ser diferente. Claro que prover infraestrutura de grande escala é responsabilidade do poder público, como o sistema de saneamento básico, mas isso não impede a existência de ações complementares para lidar com os problemas locais, ao contrário, deve incentivá-las. Aqui não é preciso inventar a roda: ações simples, como rodas de conversa e mutirões, podem ser um bom início para já ir movimentando a comunidade. Abordagens adaptadas de outras estratégias, como o lixo-zero, para reduzir o lixo doméstico, podem oferecer outras perspectivas: fazer um exercício de “monitoramento do lixo” com uma turma de escola, por exemplo, na qual cada um ficaria de olho no que vai pro lixo em sua casa durante uma semana.

Se, por um lado, a diminuição da geração de lixo pela classe média ajuda a não sobrecarregar os aterros sanitários, na favela, por outro lado, além desse benefício, o conceito “lixo-zero” ajudaria a eliminar os lixões que existem lá dentro. O boicote ao consumo de determinados produtos e materiais prejudiciais ao meio ambiente, como o plástico descartável, encontra na favela um grande número de pessoas que, ao serem incluídas nesse movimento, ajudam a aumentar a pressão sobre governo e fabricantes para que encontrem soluções mais ambientalmente amigáveis e seguras. 

O Rio de Janeiro abriga algumas das maiores favelas e complexos do Brasil em termos de habitantes e extensão: só na Rocinha estima-se que há entre 70 a 150 mil moradores. Fazendo exercício de imaginação, suponha que, da população da Rocinha, 50 mil pessoas compre uma garrafa de refrigerante por semana. Se 50 mil pessoas deixarem de comprar refrigerante, serão 50 mil garrafas PET a menos no lixo por semana! Em um mês, serão 200 mil garrafas a menos, e estamos falando da população de um único bairro! Tendo em vista que esse mesmo raciocínio pode ser aplicado para qualquer outro produto, não parece ser uma estratégia muito inteligente deixar essas pessoas de fora do debate e da construção de um estilo de vida mais sustentável.

Rocinha e o morro Dois Irmãos. Foto: Chensiyuan/Wikipedia

Num momento em que as mudanças de hábitos pessoais fazem parte da estratégia rumo a um futuro sustentável, seria um erro deixar a periferia de fora, já que tais mudanças gerariam um impacto positivo visível na realidade dos próprios moradores, sendo este o principal fator de motivação, além de incentivar a autonomia da comunidade em gerir o próprio espaço. A educação ambiental não vai determinar quais produtos uma pessoa pode ou não consumir, mas vai dar conhecimento crítico para que cada um possa refletir dentro da sua realidade. Se alguém decidir continuar comprando seu refrigerante, essa pessoa irá conhecer opções do que fazer com a garrafa, ou poderá até mesmo decidir reduzir a frequência de compra, substituir por outra bebida, etc. 

Por sua vez, a reciclagem e o reúso de embalagens e materiais dão origem a diversas soluções criativas, pois muita gente nas comunidades tem sua fonte de renda nas atividades que ressignificam aquilo que iria parar no lixo. A reciclagem, em especial, cria postos de trabalho e ajuda a sustentar as famílias mais carentes, pois o trabalho relacionado ao lixo ainda é muito estigmatizado, sendo realizado, em sua maioria, por trabalhadores semi-analfabetos e que não teriam chance no mercado formal. Através da reciclagem, essas pessoas experimentam a inclusão social e econômica, e uma mudança de vida radical. 

A Rocinha, por exemplo, localizada no morro Dois Irmãos e próxima à praia de São Conrado, sofre há décadas com acúmulo de lixo e falta de saneamento. A comunidade conta com coleta e limpeza regular da Comlurb, mas o serviço é insuficiente para o volume de lixo produzido e não cobre toda a comunidade. Em 2016, uma parceria entre o INEA (Instituto Estadual do Ambiente), Governo do Estado e a organização social Viva-Rio lançou o De Olho no Lixo, que capacita moradores para atuar como agentes socioambientais, realizando, dentre outras tarefas, a coleta de lixo em pontos que a Comlurb não alcança. O projeto ainda oferece aulas de eco-moda e funk verde: a união de arte e sustentabilidade ensinando a reaproveitar materiais para fazer roupas e instrumentos musicais.

Agentes socioambientais do Projeto De Olho no Lixo na oficina Funk Verde. Foto: divulgação

Paralelo a essa iniciativa, um grupo de agentes formou uma cooperativa de reciclagem para complementar as atividades, beneficiando o material coletado, e gerando mais renda para os trabalhadores. No auge de suas atividades, houve um engajamento da comunidade, sobretudo no entorno da sede. A Rocinha não conta com coleta seletiva, mas os moradores se engajaram em separar seu lixo e entregar para a cooperativa, bem como o óleo de cozinha e resíduos orgânicos para uma horta que foi formada no terreno. A cooperativa, que surgiu como um complemento de renda para os catadores, começou a movimentar uma conscientização espacial e ambiental nos demais moradores, e inclusive em estabelecimentos como restaurantes, a partir dos seus serviços de coleta e reciclagem. 

O projeto funcionou por aproximadamente dois anos, quando, em novembro de 2018, com o De Olho no Lixo e a cooperativa de catadores já estabelecidos e em pleno funcionamento, a Prefeitura do Rio decidiu desapropriar o terreno (que era cedido pelo Governo do Estado) para construir uma praça no local, desmontando toda a estrutura que havia, inclusive galpão e maquinários. A obra da praça foi concluída, mas tanto o projeto De Olho no Lixo quanto a cooperativa tiveram o funcionamento comprometido. O projeto do INEA continuou com suas atividades em ritmo inferior, mas a cooperativa passou por uma pausa e vem retomando suas atividades só agora, em um pequeno espaço ao lado do Ciep Ayrton Senna, enquanto aguarda o resultado da realocação prometida pela Prefeitura há quase um ano.  

Isso mostra que as carências que existem na periferia não são, de modo algum, excludentes da pauta ambiental, e sim transversais, especialmente se olharmos para o contexto ambiental e urbano em que cada favela está inserida, mais ou menos como um ecossistema. A comunidade está próxima à praia de São Conrado, que atrai surfistas de toda a cidade e todas as classes sociais. A praia sofre há anos com poluição na areia e no mar, reflexo do saneamento insuficiente e da dificuldade na gestão de resíduos sólidos na região

Canal em São Conrado. Foto: Giulio Paletta/Hardcore

Nesse cenário, surgiu o Salvemos São Conrado, movimento local cujo principal representante é Marcello Farias, morador da Rocinha e frequentador da praia. Ele conta com ajuda de outros moradores da comunidade e também de São Conrado, artistas como o cantor Gabriel Pensador e a atriz Isabella Santoni, surfistas amadores e profissionais e todos que tem uma relação íntima com a praia, de lazer ou de trabalho, como os alunos e professores da escolinha de surf da Rocinha. 

Marcello usa as redes sociais, principalmente o Instagram, para divulgar as condições do mar e também para registrar a situação da rede de gradeamento e o funcionamento da estação elevatória da CEDAE, que conduz o esgoto canalizado da Rocinha para as galerias fluviais do bairro de São Conrado. O Salvemos, como é conhecido, mobiliza mutirões de limpeza, inclusive no costão rochoso da Av. Niemeyer, e se articula com outros movimentos de conservação de praias e educação ambiental. 

Diversas ONGs e produtoras de filmes nacionais e internacionais já documentaram a situação da praia e a vivência dos surfistas, em especial da Rocinha, enfatizando o esforço que o grupo faz para não deixar a situação cair na negligência. Além de todo o trabalho de rotina, o grupo também foi responsável por retirar do mar parte da estrutura da ciclovia Tim Maia que caiu na altura da Av. Niemeyer em fevereiro.

Marcello e alunos da Escolinha de Bodyboard da Rocinha em um mutirão na praia, promovida pelo Salvemos São Conrado e parceiros. Foto: Breno Augusto e Augusto Mota/ Parley

Como é possível notar, atitudes que atualmente são imprescindíveis quando se fala em sustentabilidade surgem naturalmente dentro das favelas a partir de outros vieses que não o alarmismo, medo ou culpa com relação ao meio ambiente e o futuro. Esses projetos são exemplos de mobilização inclusiva que colocam a favela num lugar de protagonismo e empoderamento, de onde ela não pode ser excluída se quisermos uma vida sustentável para todos e um planeta para todos, cuidado por todos. É importante adotar uma abordagem que considere a favela, tanto população quanto espaço, como uma potência capaz de agregar às pautas e à luta pelo meio ambiente. Que acredite na educação como instrumento de emancipação e autonomia, ao invés de uma forma de tutela.

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