Jovens de comunidade rompem barreiras através do empreendedorismo

Uma das frases mais ouvidas por moradores de comunidades é: ‘Basta se esforçar que você consegue’. O que muitos não sabem, no entanto, é que para o morador de comunidade

Jovens de comunidade rompem barreiras através do empreendedorismo

Uma das frases mais ouvidas por moradores de comunidades é: ‘Basta se esforçar que você consegue’. O que muitos não sabem, no entanto, é que para o morador de comunidade não basta apenas o esforço e a vontade. Diariamente, jovens moradores de periferia precisam provar seu valor e ultrapassar as mais distintas barreiras para conseguir algo que para outros grupos sociais é corriqueiro e simples.

Jovens de comunidade já crescem sabendo que sempre precisam estar acima da média. Afinal, quando falar seu CEP, muitos já olharão com desconfiança ou piedade. É a luta diária para ir para escola, lidar com falta de aulas devido à violência, além da falta de professores por conta de greves por salários atrasados e também com a dificuldade de ter acesso à internet, certos livros e até o tempo para o estudo em muitos casos.

Não à toa, aqueles que não vivem em comunidades e em bairros periféricos se surpreendem quando encontram cientistas, engenheiros ou empresários que vivem em comunidades. E, mesmo diante de toda dificuldade, jovens seguem seus sonhos e quebram qualquer barreira — nem que seja na marra.

Assim foi com Lucas Lima, de 24 anos, que sonhava em ser professor de história, mas que acabou cursando faculdade de Engenharia Mecânica a pedido de familiar e, então, obteve destaque mundial ao produzir uma impressora 3D utilizando sucatas que encontrou no lixo.

“Quem vem da comunidade é sempre tratado como número, estatísticas. Somos mais do que isso. Já passei por muitos preconceitos em entrevistas de emprego quando viam meu endereço”, afirma ele.

Mesmo com destaque devido ao trabalho e seu nome espalhado em diversos veículos de comunicação, Lucas conta que há surpresa em muitos quando olham para um jovem que construiu com sucatas uma impressora de alta tecnologia.

“Quando vêem que um jovem negro, favelado, engenheiro e desenvolvedor de tecnologia está fazendo algo, a primeira reação que vejo nas pessoas é um semblante de curiosidade. Mas teve um episódio que aconteceu bem no início, quando estava na idealização do projeto, eu fui em uma roda de negócios apresentar o projeto ,e tinha na mesa uma pessoa com várias formações, e uma delas fez uma pergunta sem nexo algum: ‘Muito legal o seu projeto, mas se um filho de um traficante quiser aprender com você? Você vai ensiná-lo? Vai fazer impressoras para produzir armas? E por que de fazer algo tão grandioso dentro de uma favela, você sabe que ninguém vai comprar algo feito numa favela, né?”, conta Lucas.

Esse tipo de situação só despertou em Lucas uma vontade ainda maior de proporcionar uma oportunidade para outros jovens das comunidades a tecnologia. “Montei o meu projeto por vários motivos e um deles era que eu estava cansado de ligar a TV e abrir os jornais e só ver coisas negativas voltadas à favela. Quero mudar essa realidade de alguma forma, mesmo que seja só um pouquinho. Não é a toa que todas a máquinas que serão produzidas no projeto ganharão o selo “100% made in favela” e o slogan do projeto é ‘Somos mais que uma estatística, somos o futuro!‘”, explica o jovem.

No Alemão, dona de loja de marca transforma ‘loucura’ em exemplo

Na época em que concorria a cargos de representante de vendas das marcas que hoje vende, Valéria, 34, tinha de passar o endereço da avó por morar no Complexo do Alemão (Bruno Itan/Voz das Comunidades)
Na época em que concorria a cargos de representante de vendas das marcas que hoje vende, Valéria, 34, tinha de passar o endereço da avó por morar no Complexo do Alemão. Foto: Arquivo pesoal

Em outra profissão, mas também sentindo o preconceito na pele, está Valéria Monteiro, 34 anos, dona de uma multimarcas no Complexo do Alemão, que contou que em um ano de loja já ouviu os maiores absurdos. Antes de ter a seu próprio negócio, Valéria trabalhava como representante de vendas de marcas que hoje em dia tem em sua loja.

Na época em que era representante de vendas, seu endereço causava espanto em alguns. Por conta disso, muitas vezes Valéria teve que passar o endereço de sua avó para não perder a vaga pela qual estava na disputa.

“Eu era representante de vendas e em muitos trabalhos tinha que passar o endereço da minha avó, em Ramos, para não perder o emprego. Sabia que ao ouvirem meu endereço na favela, eu estaria na rua”, desabafa ela.

Atualmente, muitas das marcas para as quais ela teve de passar endereços de parentes são comercializadas em sua loja. Mas ela conta que sequer isso aconteceu com facilidade. Logo nos primeiros encontros com as marcas, o que ela mais ouvia das pessoas é que “estava louca por investir numa loja na comunidade”.

“O tempo todo me perguntavam o motivo de abrir uma loja no Complexo do Alemão, alguns falavam que eu era louca, porque ali ninguém iria querer comprar produtos de marca e que eu estava me arriscando. Mas nada disso me fez desistir, as pessoas precisam entender que nós da comunidade também temos sonhos e capacidades de ir adiante. Trabalhei muito pelo meu sonho e não desisti dele mesmo com todo preconceito”, conta Valéria.

Com o passar do tempo, o preconceito de uns se transformou em surpresa e o de outros em admiração, segundo Valéria. Ela conta que alguns que a chamaram de louca hoje a usam como exemplo.

“Já tenho mais de um ano de loja e aqueles que falavam que eu não iria vender tal peça, hoje se surpreendem. Sempre falei que a mulher de comunidade também é vaidosa, também quer bons produtos e que ela pode sim ter. Nós aqui trabalhamos muito, tenho um público muito legal, até clientes de bairros mais nobres se renderam à loja na favela. E tem coisas que faço questão é de atender um por um e de sempre empregar pessoas da comunidade, a visão limitada sobre a gente da favela precisa acabar”, conclui ela.

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