#Opinião: Olhando para o futuro, a favela precisa falar sobre política

“Nós precisamos formar líderes e candidatos em todos os níveis políticos. Gente nossa, que vem do mesmo território, viveu e vive o que vivemos”

#Opinião: Olhando para o futuro, a favela precisa falar sobre política

O dia 14 de março de 2018 ficou marcado na história do Brasil. O assassinato da vereadora Marielle Franco escancarou o sistema teme uma liderança vinda da favela. Ano que vem teremos novas eleições e uma ideia precisa ser levada para todas as favelas: nós precisamos formar líderes e candidatos em todos os níveis políticos. Gente nossa, que vem do mesmo território, viveu e vive o que vivemos.

Entretanto, o fato é que a gente não foi ensinado a gostar de política ou a praticar a democracia. Desde sempre a única política que é apresentada dentro da favela é através do candidato que compra votos ou, então, aparece apenas em período eleitoral com promessas mas nunca faz nada. Isso tende a gerar uma enorme desconfiança na população da favela, que enxerga apenas a política ruim e corrupta. Tudo isso se junta à falta de educação básica dentro do nosso ambiente,gerando um grande prejuízo para nós, moradores.

É uma cultura histórica. É difícil para alguém que vem da favela construir uma carreira de representação política. Tudo começa com a dificuldade de conseguir o acesso à informação e à formação educacional de qualidade. Outro ponto, é que se tornar representante político, ainda que nos mais baixos níveis de candidatura, exige investimento. Então, o poder financeiro se torna um grande desestímulo. 

Sendo assim, os serviços na favela são barganhados com o poder público. As vendas de voto muito têm a ver com as próprias dificuldades internas. Nós não fomos ensinados a ocupar espaços de poder e eles sempre se aproveitaram disso. Além disso, quando um favelado consegue um certo destaque, o sistema busca corromper, desconstruir a imagem falando que não é preparado ou silenciar.

Quem olha para a favela hoje?

A segurança pública é, atualmente, o pior ponto, principalmente no Rio de Janeiro. Por isso há o destaque de candidatos que assumem um discurso raso, porém extremista, contra essa violência. Como consequência das últimas eleições, em 2016 e 2018, os cargos políticos de maior importância – prefeito, governador e presidente – ficaram ocupados por pessoas que veem a favela como campo de guerra. Não há ação do governo que não seja por meio das forças armadas. O atual presidente, inclusive, abordava os seguintes pontos em seu plano de governo durante o período eleitoral:

·         Usar as forças armadas no combate ao crime organizado.

·         Proteger juridicamente policiais que cometem crimes durante o exercício profissional.

·         Reduzir a maioridade penal.

·         Acabar com a progressão de penas e com a redução por bom comportamento.

·         Permitir o uso de armamentos para legítima defesa e defesa dos familiares e da propriedade.

·         Tipificar como terrorismo a permanência em uma propriedade sem o título da terra.

Resumindo: ele prevê mais militarização dentro da favela, o que culminará em mais confrontos, mais mortes e mais violência no nosso dia a dia; caso um policial mate alguém enquanto estiver fardado – criminoso ou inocente – ele não poderá ser julgado por um homicídio porque estava fazendo o seu trabalho; qualquer preso cumprirá a pena inteira, ainda que apresente um bom comportamento ou mostre que quer e que pode se reinserir na sociedade; cerca de 90% dos moradores de favela não tem o título daquela propriedade, logo todos sem esse título serão considerados terroristas.

Basta ver, também, que entre deputados, vereadores e senadores, o número de pessoas que vieram da favela é praticamente nulo. Ou seja: hoje não temos “ninguém” que, de fato, entenda as nossas reais necessidades e lute por elas.

O que devemos fazer?
O sistema de candidatura no Brasil é por filiação partidária. O ideal seria criar um partido da favela e pela favela, composto apenas por pessoas que entendam as nossas reais necessidades e lutem por elas.

Além disso, é preciso aproximar a política da população. Trazer o debate político com uma linguagem mais simples e de fácil entendimento. Mostrar que o alto preço do feijão, por exemplo, tem a ver com a política. Dialogar com as necessidades das pessoas. Mostrar que é possível trazer o acesso à cultura, à educação, à saúde e aos esportes para a favela. A discussão tem que fazer parte do cotidiano, não só aparecer a cada período eleitoral. E, o principal: precisamos resgatar a esperança. Nos vendem uma imagem que a favela não tem mais jeito. Autoridades dizem que as favelas merecem mísseis e bala na cabecinha, mas precisamos enxergar que nós temos grandes talentos e grandes possibilidades. A favela ainda vive e precisa ser vista com bons olhos cada vez mais. Que seja com os nossos olhos.

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