OPINIÃO | A favela é o quilombo (in)visível

Não deveria ser considerado como uma coincidência o significado que “subir o morro” parece ter para as pessoas marginalizadas no Brasil. Desde o lendário Quilombo dos Palmares (construído na Serra

OPINIÃO | A favela é o quilombo (in)visível

Não deveria ser considerado como uma coincidência o significado que “subir o morro” parece ter para as pessoas marginalizadas no Brasil. Desde o lendário Quilombo dos Palmares (construído na Serra da Barriga, em Alagoas) até a formação da primeira favela carioca, o Morro da Providência (a partir da década de 1890), a altitude provoca certo “encanto” nessa parcela da população.

Encanta porque estar localizado nos territórios altos pode também ser uma posição bastante estratégica, principalmente como nos dois casos citados anteriormente, o motivo para estar ali é a chance de (sobre)viver. 

A paz e liberdade trazidas pela distância do restante da sociedade, dá a esses indivíduos a oportunidade de construir um local de reconhecimento, troca de afetos, resistência cultural e sobrevivência. O que durante o período colonial era popularmente conhecido como “quilombo” e hoje é chamado de “favela”. 

Por isso digo que a favela é o quilombo (in)visível por trazer esse legado secular de resistência e provocar um incômodo agudo quando torna-se impossível esquecê-la.  

 Partida da edição mineira do campeonato de futebol Taça das Favelas, no campo da Barragem Santa Lúcia.

É difícil “esquecer” da existência das comunidades,pois viver à margem da sociedade é uma faca de dois gumes: carrega os aspectos positivos já citados e consequências negativas, como a(s) falta(s) de acesso(s) e a criminalidade. Mas, é sempre importante ressaltar que as favelas não se resumem ao crime. 

Principalmente durante um momento no qual  a administração pública enxerga estes ambientes como “redutos da bandidagem“. Tornar o favelado num alvo para o abate é uma demonstração clara do quão indesejada é a existência destas pessoas pelo Estado. 

Crianças correm durante tiroteio no Complexo da Maré. (Foto: Maré Vive)

As notícias diárias sobre operações policiais em comunidades deixam frequentemente de surpreender quem as assiste, escuta ou lê. No caso do Rio de Janeiro, até mesmo os vários recordes que a polícia militar fluminense vem acumulando durante 2019 não causam mais choque. 

É a polícia que mais mata em todo o país e, neste ano, o número de mortes causadas pelos agentes cresce a níveis alarmantes. Segundo apuração da Folha de S. Paulo, o 16º BPM (Batalhão de Polícia Militar) é responsável por 61% das mortes que ocorrem em sua área de abrangência que, para quem não sabe, atende favelas como as do Complexo do Alemão. 

PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro) durante operação na Cidade de Deus. (Foto: Wilton Júnior / Estadão Conteúdo)

Quando comecei a escrever este artigo, uma imagem de uma placa no teto do Uerê, projeto social do Complexo da Maré, que dizia “Escola. Não atire” viralizava pela internet, no mesmo dia em que uma operação policial matou 8 pessoas pela região. Agora, voltei para terminar devido à declaração de Wilson Witzel (PSC), governador do Estado, afirmando que, se fosse autorizado, lançaria um míssil sobre a Cidade de Deus, para matar seus traficantes. 

Enfim, o Quilombo dos Palmares resistiu por quase 100 anos às incursões da coroa portuguesa que tinham como objetivo exterminar aquele espaço de liberdade e segurança para negros, sendo destruído em 1694.

Monumento em homenagem às Zumbi dos Palmares, último líder do Quilombo dos Palmares, no Centro do Rio de Janeiro.

Os moradores da Providência persistem há mais de 100 anos. Porém, se nem nos morros os favelados têm seu direito mais básico, o de viver, minimamente respeitado, para onde ir? Nem os próprios sabem. Será que viverão para encontrar essa resposta?

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