Desde a chegada do novo coronavírus ao Brasil, no fim de fevereiro, a vida de milhares de brasileiros mudou completamente. Com o estreitamento das regras de isolamento social, cada vez mais pessoas tiveram de parar de trabalhar ou deram um jeito de fazê-lo de casa mesmo. Essas medidas e mudanças afetaram a todos. Mas, como na maioria das crises, a população mais pobre é a que mais sofre.

Aqueles que já passavam necessidade ou os que precisavam sair diariamente para conquistar o dinheiro do pão de cada dia se viram em uma situação desesperadora. Dessa forma, partindo dessas demandas urgentes, surgem os grupos que se organizam para ajudar de todas e da melhor forma possível. As pessoas que integram essas equipes, abdicam de suas próprias vidas e de sua segurança para ajudar àqueles que precisam. Esse é o caso de Marcella Melo, que saiu de sua casa, em Ramos, para morar no Complexo do Alemão e integrar o Gabinete de Crise da favela.

Na Páscoa, Marcella participou da distribuição de chocolates para as crianças do Complexo. Foto: Matheus Guimarães / Voz das Comunidades

Marcella Melo tem 27 anos e é produtora cultural, é estudante de jornalismo e faz aulas de inglês. A jovem, como muitas outras, ama ir a shows e tem uma rotina agitada. Mas o que a diferencia dos demais é sua dedicação ao voluntariado. Marcella tem envolvimento com esse tipo de trabalho desde que criança. Ela conta que quando era pequena distribuía sopa para pessoas em situação de rua e também fazia doação de alimentos.

“O voluntariado faz parte de mim, de quem eu sou e da minha vida. Desde que me entendo por gente, estive ligada a isso. É natural para mim, não me vejo não fazendo, não faz sentido não fazer. Eu simplesmente não consigo dormir tranquila sabendo que meu vizinho ou outras pessoas estão passando necessidade. A vida só faz sentido quando vivida em coletivo e isso inclui ajudar o próximo”.

A estudante está em isolamento na Casa Voz, um espaço de coworking da ONG Voz das Comunidades. Nascida e criada em Ramos, Zona Norte do Rio de Janeiro, ela saiu de sua casa, em meados de março, para integrar o Gabinete de Crise do Complexo do Alemão, que combate os danos causados pelo novo coronavírus na favela. Tudo aconteceu naturalmente. Inicialmente, Marcella participava como organizadora das doações, disponibilizando seu número de celular para que os doadores pudessem tirar suas dúvidas. Mas logo depois a necessidade da presença física surgiu e ela passou a permanecer no Complexo do Alemão, não apenas para facilitar a logística do trabalho mas também pela saúde de sua família.

Sem fugir do trabalho duro, a voluntária carrega cestas básicas que são distribuídas nas comunidades do Alemão. Foto: Matheus Guimarães / Voz das Comunidades

“É um momento de crise, onde estamos nos colocando na linha de frente contra a doença, a fome e o desemprego. Toda galera da equipe que integra o Gabinete optou por ficar quarentenado aqui na Casa Voz. Além do dia a dia no galpão – local onde as doações são armazenadas – , e da correria da distribuição, estamos longe das nossas famílias”.

Os integrantes do Gabinete de Crise do Complexo do Alemão trabalham de segunda a sábado e Marcella conta que o dia a dia tem sido corrido.

“Normalmente nós montando kits pela manhã e recebemos as cestas básicas a tarde. Organizamos as saídas para as entregas nos dias que não chegam cestas. Eu até precisei ficar uns dias sem ir, porque estava em semana de provas na faculdade, mas, no geral a rotina é essa”.

Marcella faz parte da equipe de voluntários do Voz das Comunidades desde 2013 e antes da pandemia da covid-19 no Brasil fazia produção artística. Sua verdadeira paixão é produzir shows. Com tudo que está acontecendo, a estudante confessa que sabe que vai demorar a voltar a fazer uma das coisas que mais ama.

“A gente fica se perguntando o que vai ser daqui para frente. Eu estudo e já trabalhei com vendas, não tenho medo do que estar por vir mas quero poder voltar a fazer tudo que gosto. Quero me formar, tanto na faculdade quando no curso de inglês e poder trabalhar bastante. Tudo isso, é claro, sem deixar minha ligação com o voluntariado, pois, como eu disse, ele faz parte de quem eu sou”.

COMPARTILHAR