Voz em verso #01: Fora de série – Poeta Rennan Leta

A nova coluna do Voz das Comunidades trará poesias de artistas da favela

Voz em verso #01: Fora de série – Poeta Rennan Leta

A pandemia do Covid-19 mudou o jeito de viver de toda a população e muitos costumes foram deixados de lado. Entretanto, a produção de arte segue a todo vapor nas favelas do Rio de Janeiro e, através da coluna Voz em verso, traremos poesias de artistas da favela aos domingos.

Para iniciar, Poeta Rennan Leta, 25 anos, cria da comunidade Mata Machado e autor do livro Palavras do Mundo. Começou a escrever aos 15 anos e, desde 2017, participa das competições de poesia falada chamadas Slam. Já foi campeão do Slam Trindade e do Slam Vila Isabel. Seu livro já foi paradidático em cinco escolas do Rio de Janeiro.

A realidade aqui é fora de série
Porque os menó mal tem a quarta série
Passam o dia na chuva e vento
Pele esculpida pelas intempéries
Da vida
Que passa num flash
Como Raio Negro, tem a identidade omitida
Depois que morre sem ganhar nenhum cash
Isso com meu sentimento mexe
Mas tenho que me acostumar
O único Justiceiro que vejo é Xangô
Porque a justiça é cega pro lado de cá
O Estado é Demolidor
Falo sem caô
Vejo a favela sendo tão odiada quanto o Chris
Já que podia formar um monte de doutor
Mas investir em educação por aqui o governo não quis
As vezes até sai um jogador ou cantor
Mas eles sequer aturam uma preta sendo Miss
Como é que eu vou ser feliz?
Se coisas estranhas por aqui é supernatural
Eu não vejo Luke Cage nem tenho punho de ferro
Os menó acham que os defensores são AK e parafal
A guerra não incomoda quem todo dia usa terno
Curtindo a vida do Leme ao Pontal
3% vivem bem nesse inferno
E às vezes nem comem na ceia do Natal.
Te choca essa realidade
Mas isso aqui não é Black Mirror
O que a gente mais vê na cidade
A causa da morte black: tiro
13 razões? Aqui só uma acontece de verdade:
Viu favelado correndo? O tambor dá mais um giro
Por isso aproveito cada suspiro
Mas quando olho a fila SUS, piro
Então com a minha rima eu miro
O único Arqueiro é Oxossi
E sua flecha hoje eu atiro!
Acerto esses safados e assumo
Minha alma é grande, não se contenta com pouco
Já sei que ela quer tudo
Mas não me iludo com Narcos e nem fico louco
Também sei que não se trata só de plata o plumo
Tinha um maluco no pedaço querendo me ver no sufoco
Porém são minhas linhas que ditam meu rumo
E sempre fico de pé nessas linhas de soco.
Se a batalha é bárbara tipo Vikings invadindo
Vocês vão ter que me chamar de Ragnar
Os deuses podem tentar mudar meu destino
Mas minha vida ninguém vai estagnar
Minhas rimas são tão quentes, nem Lúcifer tá resistindo
As chamo de magma
E se eu vir um candidato por aí mentindo
Não vou ficar só no “cala a boca Magda”
Ha ha ha
Brinco com as palavras mas não tô aqui para brincadeira
Porque na favela tem la casa de papelão
Que quando chove é lama a semana inteira
Queimando geladeira e televisão
Você acha que isso é besteira?
15h de trabalho de segunda à segunda-feira
Com salário que parecem 12 anos de escravidão
As vezes não sobra nem dinheiro pra feira
Sem bênção de padre ou reza de freira
Chega no barranco, vê a casa na beira
O filho na boca levantando a biqueira
Ela trabalhando pra encher a boca do patrão
O luto virou uma coisa rotineira
Já que o Brasil tá uma zona, vamos eleger uma faxineira
Pra limpar essa sujeira
Pois só uma guerreira pra mudar a nação!
Chega de quem só olha pro bolso rico
Enquanto no nosso bolso, mico
Tem candidato pior que bozo, circo
Iludindo os outros falando que é mito
Mas nem adianta tentar ganhar no grito
Porque isso eu arranco em todo Slam que passo
Eu tô no corre pra vender o meu livro
Dia a dia pra me manter vivo
E que Zambi me livre de quem quer largar o aço
Em busca do meu objetivo
Do sorriso eu nunca me privo
Mesmo eles querendo que seja escasso
E não espere que eu seja passivo
O progresso vai ser gradativo
Pra quando gravarem a nossa vida, essa história dar um filmaço!

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