Cineasta Luciano Vidigal luta por um cinema mais colorido e representativo

“Minha maior inspiração é a favela, que é potência, que me inspira, me ensina e é minha segunda mãe”

Cineasta Luciano Vidigal luta por um cinema mais colorido e representativo

Foto: Tatynne lauria

Ator, professor e diretor, Luciano Vidigal, de 41 anos, traz parte de sua identidade em seu nome. Integrante ativo do grupo de Teatro Nós do Morro, do qual faz parte há 31 anos, o cineasta atua na direção de filmes com temáticas de democratização do protagonismo da pele preta. “Acredito em um cinema mais colorido, verdadeiro e brasileiro”, conta Luciano. Cria da favela do Vidigal, que adotou como seu sobrenome, o ator coleciona prêmios e trabalhos de grande sucesso, como o filme Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos (2010), produzido por Carlos Diegues e Renata Almeida Magalhães, e escolhido para a Seleção Oficial do Festival de Cannes. 

Do início de sua vida até os dias de hoje, Luciano costurou uma história que inspira. “Sou filho da Dona Gal, que foi empregada doméstica por muitos anos e criou seis filhos sozinha. Nos cinemas, como ator, fiz 42 filmes e dirigi sete. O filme mais reconhecido que dirigi foi o ‘5x favela, agora por nós mesmos’, produzido pelo Cacá Diegues e que abriu o Festival de Cannes na França. E, o documentário Cidade de Deus 10 anos depois, que está na Netflix”. O professor de teatro fala de sua relação com a favela de forma afetiva e com gratidão. 

Luciano Vidigal coleciona sucessos nas telonas 
Foto: Arthur Sherman

“Costumo dizer que a favela é a minha segunda mãe. Tive a dona Gal que me criou sozinha, mãe solteira, e tive a favela que me formou junto com ela. Quando você é cria e aprende a lidar culturalmente com o espaço em que nasceu e cresceu, costuma aprender muitas experiências sociais nela. Existem essências e poesias únicas aqui. A favela está na minha alma, no meu sangue. Essa cultura, esse favelismo, esse orgulho de ver a favela como potência faz parte de mim. Olho para os lados e vejo os personagens, os talentos, os meus vizinhos, as cores… Vejo como uma potência, como uma grande poesia.”

Entretanto, mesmo diante de seu encanto sob a favela, Luciano não deixa de notar o abandono. “Infelizmente, a favela é abandonada pelos governantes. Sabemos que os serviços públicos e governamentais não estão presentes aqui. Mas, mesmo assim, a gente consegue fazer nosso churrasco na laje e ser feliz. Sem falar que nos esportes e na música, as potências são da favela também. A favela é isso. Potência! Que me inspira, me ensina e é minha segunda mãe”. 

Meu nome é favela

Conhecendo Luciano Vidigal, consegue-se entender o significado da música de Arlindo Cruz. Afinal, o nome dele é favela literalmente e figurativamente e sua inspiração não poderia vir de outro lugar. “Minha maior inspiração é na favela. O Vidigal tem 40 mil habitantes aproximadamente, então, imagina quantas histórias interessantes tem aqui? Eu sou cineasta e uma das nossas funções é contar histórias e aqui tem várias singulares para ser apresentadas para o mundo. Eu quero ser universal falando do meu quintal. De fato, a minha maior inspiração é o povo, da camada popular, que me atrai e me toca! Quando me toca, quero logo transformar em filme”. 

E conta como começou sua história com a arte. “A minha mãe era empregada doméstica do Otávio Muller. Eu tinha 10 anos e via ele decorando os textos enquanto a minha mãe trabalhava. Ela falava que era uma loucura porque você olhava para o Otávio e ele estava falando sozinho, decorando os textos e interpretando. Eu achava uma loucura fascinante. Foi ali que surgiu a minha primeira inspiração e com 10 anos eu ingressei no Nós do Morro. Percebi que a arte seria um trampolim para o mundo. Eu costumo dizer que antes eu via o mundo, agora eu enxergo o mundo, entendo os problemas dele através da arte”. 

Em breve, Luciano lançará o longa “Casa Branca”
Foto: Felipe Paiva

Racismo

Sobre as dificuldades de seus caminhos, o diretor é enfático. “São muitos desafios e alguns diários, né? O maior obstáculo que enfrento é o racismo estrutural. Eu sou preto e favelado e hoje tô no papel de líder, como diretor. Já dirigi na TV Globo e em outras empresas grandes e sempre percebi que tenho que provar o meu valor diariamente. É como aquele verso do Mano Brown na música do Racionais MC ‘s ‘A vida é um desafio’, a gente tem que ser melhor em tudo. Isso cansa, né?  A gente vê que os brancos têm esse direito de errar, mas a gente não tem. Até hoje eu sou subestimado e tenho que provar que sou bom no meu trabalho”.

Acerca de seu reconhecimento profissional, Luciano fala sobre pessoas e inspiração. “Tem uma frase do Tio Ben, do Peter Parker (Homem Aranha), que diz: ‘quanto maior o poder, maior a responsabilidade’. Eu acho muito importante quando as pessoas reconhecem a minha arte. Eu vejo que não tem fronteiras. Já aconteceu de um jovem periférico da França me parar e falar que tinha se identificado com um filme meu. Quando eu vejo um jovem negro de outro país falando isso pra mim, isso é muito tocante, fortalecedor e inspirador. Eu me sinto muito feliz e fortalecido com esse reconhecimento através da arte”.

Realizações

Os feitos de Luciano Vidigal são grandiosos e ele faz um balanço sobre suas realizações pessoais e profissionais. “Na minha vida profissional, o que mais me marcou foi o ‘5x favela’. Foi um projeto divisor de águas na minha vida, onde o Cacá Diegues conseguiu unir os cineastas oriundos da favela do Rio para fazer um filme só. Conheci muitos aliados e amigos de outras favelas. E depois a gente foi pra um dos maiores festivais de cinema no mundo, que é o Festival de Cannes, na França. Fomos em 20 pessoas. Pretos e favelados no tapete vermelho de Cannes. Isso foi muito representativo. Já a experiência pessoal na minha vida foi quando o meu irmão saiu do tráfico. Eu lutei muito por esse momento. Aliás, essa história virou um filme sobre a trajetória dele (o filme Neguinho e Kika, disponível no Youtube). É um filme romântico, que conta como o amor conseguiu tirar ele do tráfico através da relação dele. Eu acredito nisso, que a arte, a educação e o esporte podem mudar o mundo. Parece utópico, imaginário e filosófico demais, mas é com essa mentalidade que levo a minha vida”.