Rodrigues Moura: O pioneiro das fotos no Alemão

Não é nenhum exagero falar que Rodrigues Moura é uma fonte inesgotável de inspiração na fotografia  O Complexo do Alemão é um grande reduto de histórias inspiradoras de moradores. Em cada

Rodrigues Moura: O pioneiro das fotos no Alemão

Não é nenhum exagero falar que Rodrigues Moura é uma fonte inesgotável de inspiração na fotografia 

O Complexo do Alemão é um grande reduto de histórias inspiradoras de moradores. Em cada rua, beco e viela, sempre nos deparamos com vivências que dariam um belo livro, daqueles que ao começar a ler não temos vontade de parar. Além de todos as “crias” que têm a identidade da favela nas veias, a comunidade é também um local que recebe aqueles que precisam de um lar com todo amor e assim foi com o mineiro Manoel Rodrigues Moura, que veio do interior de Minas Gerais tentar a sorte no Rio de Janeiro e foi parar justamente no Complexo do Alemão. 

O ano era 1979, e o jovem Manoel Rodrigues Moura nem imaginava que seria um dos fotógrafos mais respeitados do fotojornalismo e também um pioneiro nas coberturas de confrontos e necessidades do Complexo do Alemão. Sua vinda para o Rio se deu após sofrer uma decepção amorosa, e, quando um amigo falou que faria a viagem, Rodrigues logo se interessou por conhecer novos ares e assim o fez.  

“Eu era vaqueiro em Minas, pode olhar aqui na parede ainda tem as lembranças daquela época, e tinha uma menina por quem eu era apaixonado, mas não deu certo e eu não queria ficar lá vendo ela desfilar com o outro, assim quando surgiu a oportunidade vir para o Rio eu vim e fiquei na casa de um amigo aqui no Alemão. Só que o início aqui foi sofrido, meu dinheiro acabou, não estava empregado, até que surgiu uma oportunidade para ser carregador de pedra numa obra e fui”, relembra Rodrigues. 

Foto: Vilma Ribeiro

Ao chegar no Rio, Rodrigues se encantou com a cidade e também com o Complexo do Alemão, mas com o passar do tempo, o dinheiro foi acabando e ele começou a achar que não seria fácil ficar por aqui. “O dinheiro que eu tinha foi acabando e passei por dificuldades por aqui foi quando surgiu essa oportunidade na obra e nesse meio tempo, ouvindo rádio fiquei sabendo de um curso de fotografia a distância e resolvi fazer, e esse curso, me abriu o horizonte”, contou ele. 

Após sair do emprego, Rodrigues usou o dinheiro que recebeu para comprar uma câmera que viu numa loja durante sua volta para casa, mas o primeiro contato dele com a máquina, não foi das melhores, os seus primeiros clicks simplesmente não saíram. “Olha, agora vem a parte engraçada, porque eu reuni as pessoas para a foto e na hora que fui revelar cheguei lá e o dono da loja falou que não ia me cobrar porque nenhuma foto minha saiu, só após levar minha câmera para ele ver, que percebi que não estava usando da maneira correta”, destacou ele aos risos. 

Mesmo com esse primeiro contato desastroso, o mineiro não desanimou e logo começou a oferecer seus serviços para amigos, vizinhos e assim começou a fotografar batizados, aniversários, casamentos e festividades em geral. A cada nova foto, mas as pessoas gostavam do trabalho que logo conquistou a todos, e assim, Rodrigues encantou cada vez mais pessoas com suas fotos. Em 2001, o jornalismo entrou oficialmente na vida de Rodrigues através do projeto Viva Favela, que estava selecionando novos fotógrafos. 

“Peguei algumas fotos que tinha feito, um papel com meu nome, minha identidade e enviei, alguns dias depois me ligaram. Na época nem acreditei, mas quando vi que era real, só fui e comecei a fotografar”, contou Rodrigues, que acabou deixando em segundo plano as fotos de batizados, 15 anos e casamentos para mergulhar de cabeça no jornalismo. 

Foto: Vilma Ribeiro

Com o passar dos anos e suas fotos tendo destaque na mídia, Rodrigues não só virou uma grande referência no meio, como também se tornou a voz de moradores da comunidade em meio às necessidades do local. “Costumo falar que meus professores de fotografia foram os moradores com os quais cruzei durante os trabalhos. Eu nem tinha muita noção da força da câmera, até perceber o quanto era útil mostrar o ponto de vista do morador e também até um policial um dia me falar que eu tinha uma arma muita mais poderosa que a dele ao se referir ao meu instrumento de trabalho”.

E foi em meio a todo esse trabalho que o fotógrafo registrou acontecimentos marcantes do Alemão, como a enchente de dezembro de 2001, a ocupação de uma fábrica abandonada em 2004. Suas fotos estampavam jornais como O Globo, O Dia, Extra, e tantas outras publicações. “Vi muita coisa através da minha lente, e também vi situações que não tive coragem de fotografar. Teve meninos que fotografei no batizado, aniversário de 1 ano e que após operações policias vi mortos, e esses, eu não conseguia fotografar”, lembra Rodrigues com emoção. 

Com o seu trabalho reconhecido nos grandes jornais e agências fotográficas, Rodrigues viu um novo desafio surgir em sua vida em 2004: o início da perda da visão devido a diabetes. “Comecei a ter problemas na vista, mas mesmo assim segui fotografando, com o passar do tempo foi ficando mais difícil, a cada ida no médico eram mais remédios que passavam e nada da minha visão melhorar.” Mesmo com problemas na visão, o fotógrafo seguiu com seu trabalho e em 2010 registrou em detalhes a ocupação do Complexo do Alemão pelo Exército.  

Foto: Rodrigues Moura

Por conta do avanço da diabetes, Rodrigues se viu obrigado a abandonar o fotojornalismo em 2014, mas engana-se quem pensa que ele não faz mais seus cliques. Ainda hoje, mesmo enxergando somente vultos, ele ainda opera suas câmeras com maestria e consegue fotografar. “Em 2014 a diabetes acabou vencendo minha visão, e aí tive que parar com as coberturas jornalísticas. Mas, ainda consigo fazer minhas fotos. A câmera é minha amiga e acaba vendo aquilo que hoje eu não consigo ver, mas ainda sei os comandos e temos essa parceria. Para fotografar, são necessários 4 elementos: o cérebro para pensar, o coração para sentir, os olhos para ver e as mãos para manusear o instrumento de trabalho, eu perdi um, mas continuo com os outros três e por isso ainda faço minhas fotos”.  

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