Moradores relembram desenvolvimento cultural e popular do Alemão e Vidigal

Em homenagem ao Dia da Favela, Voz das Comunidades traz o relato de quem faz a vida nas comunidades

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das ComunidadesFoto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Neste mês de novembro, os movimentos sociais e projetos comunitários realizaram diversas ações em homenagem ao Dia da Favela, comemorado no dia 4. Com o objetivo de relembrar histórias e fatos marcantes, a reportagem do Voz das Comunidades mapeia pontos importantes no desenvolvimento do Complexo do Alemão e do Vidigal. 

De acordo com dados obtidos por pesquisa do Instituto Pereira Passos (IPP), atualmente, o Rio de Janeiro possui 1.074 favelas identificadas na capital carioca. Dentro desses espaços urbanos, há a presença de mais de 1 milhão de moradores (Censo 2010, IBGE), com histórias e experiências únicas de quem presenciou o desenvolvimento desses territórios. 

 Moradores falam sobre o passado das comunidades
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

É o caso da professora de Educação Infantil Elisângela Pereira Correa, que reside há 48 anos no Complexo do Alemão. Uma das mais antigas educadoras da creche municipal Nova Brasília, na rua Jehovan Costa, ela relembra os tempos de ouro de uma das comunidades mais recentes do Rio, quando crianças e jovens conseguiam desfrutar de uma liberdade muito maior do que hoje em dia. 

“Eu sempre gostei de morar no Complexo antes mesmo de se chamar Complexo. Tive uma infância boa, onde eu sempre pude brincar na rua, meus pais tinham essa segurança de nos deixar brincar sem medo de tiros, balas perdidas. Lembro de vizinhos calmos, músicas calmas, sem ser o que hoje em dia ouvimos com tanta poluição auditiva”, recorda Elisângela. 

Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades

Para ela, o comércio sempre foi uma das áreas mais movimentadas pela região, com diversos empreendimentos locais sendo parte da tradição da comunidade. E graças a isso, hoje as crianças possuem uma diversidade maior pela localidade, como o CineCarioca da Nova Brasília, um cinema popular que traz cultura a preços acessíveis. 

“O comércio da Nova Brasília sempre foi assim: fartos de lojas e onde encontramos de tudo. Claro, hoje tem mais lojas do que antigamente e desfrutamos de mais pontos de lazer no Complexo do Alemão, como o cinema. Na minha infância não tínhamos. Hoje temos esse ponto de lazer e ainda temos a Praça do Conhecimento. Tivemos muitas evoluções por aqui“, destaca. 

Do outro lado do Rio de Janeiro, mais especificamente na zona Sul, a construção do Vidigal iniciou-se na década de 1940, com as primeiras casas sendo construídas por moradores. Com uma visão ampla e privilegiada do mar, a comunidade tornou-se um dos lugares considerados cartão postal carioca. Além desta característica, historicamente, a região é um sinônimo de resistência na luta contra a remoção das favelas cariocas. 

Durante o período da ditadura militar, a Associação de Moradores do Vidigal ao lado de advogados da Pastoral de Favelas lutou pela manutenção das casas de baixa renda na favela. Pois corriam risco de demolição para a construção de imóveis nobres pela região. Por causa da luta constante da população, o governador Chagas Freitas assinou, em 1978, um decreto que preservava as residências. Dois anos mais tarde, o papa João Paulo II abençoou a comunidade em sua visita.

Para o mestre em capoeira Messias Nogueira Freitas, de 41 anos, a comunidade do Vidigal tornou-se uma referência no Rio e também atrativa para quem vem de fora. Segundo ele, que reside no local há 25 anos, a favela foi se expandindo de geração após geração, com abertura de comércios, de pontos turísticos e de lazer. 

Porém, quando Messias relembra o passado, a saudade é marca registrada na sua fala. De acordo com ele, a produção cultural era uma presença certa nas ruas e bares do Vidigal, com apresentações de dança, bailes charmes, campeonatos de futebol e outras atividades que conectam o morador com o coração da comunidade. 

Mestre de Capoeira Messias Freitas
Foto: Reprodução

“Viver no Vidigal sempre foi, e espero que sempre seja, bom. Havia figuras marcantes na comunidade, como o comerciante Seu Valentim. Lá tinha os fliperamas. A figura da Verusca, uma moradora que alegrava o Vidigal, assim como outros. Os bailes funks no largo do Santinho, rua Nova e o baile da Rádio Estilo livre na 25 aos domingos. Lembro dos bondes do Vidigal (grupos de jovens que cantavam e dançavam funk), a quadrilha do cabo Silva. Por vezes, acontecia o arraial na principal, lembro também dos campeonatos de futebol dos times do Vidigal que lotavam o campo do alto do morro e o campo da Chácara do Céu. As finais foram emocionantes e muito divertidas. Na época recordo que a praça da entrada não existia, no lugar era o ponto final das linhas de ônibus 521 e 522.

Ainda nessa perspectiva de desenvolvimento, Messias relata que a chegada das kombis, dos moto táxis e outros meios de transporte auxiliaram na mobilidade dentro e fora da comunidade, fator que contribuiu bastante para o crescimento na região. Para ele, esse acontecimento facilitou a expansão dos comércios. 

“Naquele tempo, já havia bastantes casas, porém a quantidade de casas e moradores triplicou de lá pra cá. A especulação imobiliária não existia, a quantidade de estrangeiros também não, e nesses casos há os prós e os contras. Não havia a quantidade de comércios que existe hoje. Alguns de antigamente ainda atuam hoje em dia. Porém dava pra contar nos dedos. Mas, devido ao crescimento da comunidade, a demanda de comércios está bem equilibrada”, detalha. 

Segundo os dados do Instituto Pereira Passos (IPP) na plataforma Bairros Cariocas, a população total de habitantes passa dos 13 mil no Vidigal. Entre moradores com histórias peculiares sobre o desenvolvimento do bairro, está Celestino Amaro Costa Filho, de 55 anos, e dono da Pizzaria e Bar Três Irmãos, o antigo Bar do Seu Celeste, que era administrado por seu pai. 

“A minha família chegou há muito tempo no Vidigal. O meu avô foi um dos três primeiros empreendedores da favela. Quando chegou aqui, montou um bar na rua principal, que funcionou por bastante tempo, até o meu pai gerir o negócio”, comenta. 

Celestino, o filho, também é uma parte da história cultural do Vidigal. Junto com amigos, ele é um dos fundadores do Nós do Morro, uma escola de teatro que oferece oficinas de interpretação, canto, danças e outras atividades que fortalecem o desenvolvimento dos jovens nas comunidades. Para muitos alunos que passam por lá, a iniciativa social transformou sonhos em realidade. “Aliás, o surgimento da ideia de montar o Nós do Morro surgiu em uma mesa de bar, como essa”, revela.