“Ou vai pra pista, ou fica de pista”: moradores de Manguinhos e Alemão contam a rotina de trabalho como entregadores de aplicativos

Uma mobilização nacional da categoria dos entregadores por aplicativos reivindica melhores condições de trabalho

“Ou vai pra pista, ou fica de pista”: moradores de Manguinhos e Alemão contam a rotina de trabalho como entregadores de aplicativos

Texto: Igor Soares e Melissa Cannabrava

Isolamento social para quem? Esse é o questionamento que entregadores dos aplicativos Ifood, Rappi, UberEats, Loggi e James estão fazendo, a fim de buscar respostas para conseguir trabalhar em condições decentes e garantir o sustento da família sem ser contaminado pelo novo coronavírus. Desde a manhã desta quarta-feira (1), motoqueiros em diversas capitais do país saíram às ruas e aderiram ao #BrequeDosApps, movimento que pede a consumidores que não façam pedidos por aplicativos no dia de hoje e reivindica melhores condições de trabalho durante a pandemia.

Auxílio contra furtos ou acidente são reivindicações da categoria, que agora lida com a falta de segurança para trabalhar durante o período de isolamento social, já que os profissionais alegam insuficiência na distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Além disso, o movimento é contra bloqueios de trabalhadores pelas empresas de delivery e contrários à redução de taxas de pagamento por quilômetro rodado.

Taynan Adla, de 22 anos, é morador do Complexo do Alemão e motoboy pelo Ifood. Está desempregado há pouco mais de um ano e viu nas entregas por aplicativo uma forma de garantir a sobrevivência da família. No entanto, diz que não se vê valorizado pela empresa para a qual presta serviço. O entregador tem uma rotina de 8h a 12h de trabalho todos os dias para conseguir ter uma renda mínima. Para ele, há muitos riscos para além da possibilidade de contaminação pela Covid-19. 

Taynan é entregador de aplicativo e reclama de condições de trabalho. Foto: acervo pessoal 

O motoboy reclama da falta de equipamentos de proteção, como máscaras e álcool gel. “Eles tinham que distribuir álcool gel de duas em duas semanas, mas só estão dando um vidro de 400ml por mês”, afirma. 

Outro caso parecido com o de Taynan é o de Paulo Sérgio Videira, de 31 anos, que é morador de Manguinhos. Ele tira onda com a sua Suzuki Intruder 125 pelas ruas da comunidade da zona norte do Rio. A moto foi um sonho realizado em 2011, após juntar dinheiro por um longo tempo. Paulo conta que comprou o veículo com a intenção de usar como meio de transporte em momentos de lazer, mas a dificuldade de conseguir emprego fez com que se tornasse a sua principal fonte de renda. “A intenção era só passear com ela, mas, desde quando comprei, sempre trabalho com minha moto mesmo. O mercado de trabalho, principalmente para quem não tem tanto estudo como eu, fica difícil. Ou a gente vai pra pista ou fica de pista.”

A moto é a principal fonte de renda de Paulo Sérgio. Foto: Acervo pessoal

O motoboy já trabalha com entregas muito antes da moda dos aplicativos e começou a entrar para o time dos entregadores de app ano passado. “Depois que tive uns problemas com a habilitação, peguei a minha moto e botei para rolo. Ano passado, baixei o UberEats e Ifood e comecei a trabalhar, entregando lanche, sushi, pizza”, conta Paulo.

Um dos maiores desafios para quem vive de entregas é o medo de ser bloqueado. “Teve um dia que peguei uma corrida para o bairro de Tomaz Coelho. Quando cheguei no local, fui informados que o endereço estava errado e que eu precisaria ir para outro ponto da cidade. Liguei para o suporte, que entrou em contato com o cliente. O suporte me recomendou cancelar e, mesmo após esse contato, fui bloqueado. Tive que ir lá na loja da uber para efetuar o desbloqueio. Nesse tempo fiquei sem trabalhar”, revela.

Sem emprego formal, Paulo Sérgio recorreu a aplicativos de delivery para sobreviver. Foto: acervo pessoal

Com a gasolina no Brasil custando até R$ 5,00 e a manutenção do veículo, a renda líquida mensal dos entregadores fica cada vez menor. Paulo diz que, trabalhando de 17h até o meio da madrugada, consegue uma renda de em média R$ 500,00 por semana, mas que grande parte da remuneração é usada para pagar o combustível das corridas. “Às vezes, estou em um lugar e, para chegar ao estabelecimento, vou levar de 15 a 20 minutos, porém, preciso ir lá buscar para não ser bloqueado. O combustível do meu deslocamento até o estabelecimento para pegar a encomenda o aplicativo não paga”, critica Paulo. 

Por meio de uma notificação enviada aos usuários do app, a startup brasileira iFood, que é líder da categoria no país, afirma que o valor médio é de R$ 21,80 por hora e o valor mínimo pago por entrega é de R$ 5,00, e garantiu que não vai desativar entregadores que estão participando das manifestações. A empresa ainda afirma que R$ 25 milhões foram destinados para a proteção contra a Covid-19.

Ambos os entrevistados esperam que a paralisação das atividades de hoje traga resultados para quem sobrevive apenas do trabalho como entregador de aplicativo. “Estamos torcendo para eles melhorarem as condições de trabalho, mas, enquanto isso, a gente vai sobrevivendo, porque a gente precisa trabalhar”, ressalta Taynan.