Artista plástico, cria do Alemão, retrata fragmentos da história do Rio através de sua arte

Allan Pinheiro, de 29 anos, já expôs seus trabalhos na Bienal em São Paulo e está no Museu de Arte do Rio
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Leonardo Da Vinci trouxe ao mundo uma marcante frase sobre o mundo artístico. “A arte diz o indizível, exprime o inexprimível e traduz o intraduzível”. Manifestar realidade através da arte parte de uma perspectiva, mas que retorna em várias interpretações de acordo com as mais diferentes realidades de cada pessoa. Uma obra de arte, antes de ser interpretada, causa impacto. E é dessa forma que o artista plástico Allan Pinheiro, 29 anos, traz em suas obras.

Era uma quinta-feira nublada, com aquele clima pós-chuva de outono, quando visitamos Allan em sua casa. Ele nos recebeu no portão e nos guiou até os fundos da residência, por uma via lateral. Nesse pequeno trajeto, já é possível ver as grandes manifestações artísticas na estrutura da casa. O que parece uma parede verde, ao se observar com olhar afastado, em verdade, trata-se de uma grande folha de costela-de-adão harmoniosamente pintada, com retoques azul e branco, dando a sensação de profundidade. A pintura serve de arauto para o que está por vir na sequência. Mais alguns passos e encontramos um jardim bem cuidado, repleto de árvores e plantas. “Foi isso que me refugiou na pandemia”, conta o artista apontando para o cenário que nos rodeia. Após uma rápida conversa, ele nos guia para o terraço, onde conta sua trajetória como artista plástico, suas ambições, exposições nacionais e internacionais.

Assim como a arte, Allan causa o primeiro impacto. “É minha. Eu comprei aquela viatura”. O artista se refere ao seu trabalho exposto na Bienal Arte SP neste ano, quando levou uma viatura da Polícia Militar do Rio de Janeiro para o museu dentro do Parque do Ibirapuera. Mas até chegar nesse marco de sua trajetória como artista, Allan relata que o começo partiu do prazer de se expressar artisticamente.

 “Acho que o início é o início de todo mundo quando está experimentando alguma coisa boa. É ver e tentar replicar. Eu comecei entre 8 e 9 anos, olhando pichação, grafite e tentava fazer as letras no papel. Lembro que um amigo meu quebrou o braço e, quando foi me visitar, estava com o gesso do braço todo desenhado. Pedi para desenhar e ele me falou ‘mas tem que aprender primeiro’. Então fui treinando no papel pra assinar. E depois daquele dia, era só o que eu queria fazer”.

À medida que crescia, Allan ia aperfeiçoando a técnica no papel. Escrevia o nome dele e de amigos em cadernos. O processo de aprimoramento também acompanhava o movimento de arte nas ruas. Ele identificava as mesmas letras e símbolos em diferentes pontos da cidade do Rio de Janeiro e, a partir daí, ele passou a pesquisar. “Foi aí que eu comecei a explorar muito mais esse mundo do grafite e da pichação. Pesquisava as letras, fontes e replicava nas ruas com giz ou com tijolo mesmo. Aí em 2010 foi quando eu percebi que estava estudando e reproduzindo muito a arte da pichação e do grafite. Então veio o estalo que eu poderia fazer daquilo uma profissão”.

Entre uma caneca e outra de café, no terraço de sua casa, com uma vista privilegiada para a Pedra do Sapo, Allan cita nomes de artistas que o inspiram. “De olhar e falar ‘caramba, esse cara é bom!’, gostava muito do Stylist, Acme, Anarquia, G80, 40 Graus, Caixa… Eram muitos nomes que eu via na zona norte do Rio de Janeiro. Eram inspirações. Eu vi que isso tinha bastante fora do Brasil e que já caía para as artes plásticas. Comecei a identificar artistas que saíram da rua e passaram a trabalhar com marcas famosas. Aí vi que o mercado era bem maior. E que é um mercado que não é inacessível”.

Ao falar sobre o processo criativo, Allan relata que,na pintura, tudo parte de um tema e, a partir dele, a pesquisa vira o ponto chave para a produção. “Leio sobre o tema e depois passo a escrever sobre ele”. Utilizando a expressão “intervenção militar”, o artista relata que coleta informações através de reportagens e trechos noticiados. Com isso, ele observa quais os pontos que se tornam repetitivos durante a pesquisa e então cria uma linguagem própria a partir do resultado. “Não uso linguagem só do que eu li no jornal ou do que eu vi no filme ou documentário que fala sobre. Eu crio a minha. E isso também acontece com elementos visuais. Como, por exemplo, tanque de guerra, soldado, general, bandeiras, cores, frases, o campo… São coisas que aparecem várias vezes na história do Brasil e do mundo. Então são estes pontos que eu reúno para encaixar na pintura”. Dentre todo o processo de criação, partindo da definição do tema, seguido pela pesquisa e produção, para Allan, a finalização de uma obra se concretiza somente de uma forma. Questionado sobre, o artista é objetivo. “Ela está pronta quando alguém compra. Enquanto ela está comigo, estou sempre alterando ela. Apresentei, ninguém comprou? Levo para casa e atualizo até alguém pagar por ela”.

A garrafa térmica com café já tinha terminado quando Allan Pinheiro relatou sobre o quanto é significativo para ele ver como o público vê suas obras de arte. “O que eu faço não é o que eu apresento. As vezes faço coisas melhores e não apresento para ninguém. E, também, às vezes, postamos coisas que ainda nem é o produto final. A internet é um termômetro pra gente saber se as pessoas estão gostando do que estamos preparando ou não. Uma obra deu muita curtida? Deu, mas foi um trabalho que me deu mais prejuízo, onde eu tenho que seguir um processo e mover pessoas. Tudo isso tem um custo. E não tenho retorno nenhum. Mas, na internet, rendeu muito bem”.

Já na questão da receptividade das pessoas de forma mais pessoal, o artista relata que segue um costume de atuar em três camadas. “A primeira camada é do lato-sensu. Qualquer pessoa que ver, seja um argentino, um brasileiro, alguém do outro lado do mundo, vai olhar meu trabalho e vai sentir se sentir impactado. Por exemplo, as pessoas vão ver um carro com um design e está escrito ‘Polícia’ nele. Em alguns lugares, a polícia é menos violenta, já em outros é mais. Mas a polícia deveria ter a mesma função no mundo todo. Então essa leitura mais rasa é a que eu tento fazer na primeira camada. É onde as pessoas vão ser impactadas, mas despertarão diferentes pensamentos sobre aquilo”. A segunda camada, segundo o artista, baseia-se muito mais na cultura local. Tendo o Rio de Janeiro como seu território principal, Allan faz a ligação do carro de polícia exposto em São Paulo em relação a como a PM é retratada pela mídia na capital fluminense. “Essa ideia de agressão, de racismo, da quantidade de erros que eles cometem dentro das favelas em operações. Para quem mora em comunidade, a imagem da polícia é uma coisa. Já para uma outra pessoa que está longe dessa realidade, ainda mais quando é conservadora, a imagem da polícia é algo simbólico. Então, a percepção já é outra. Entretanto, ambas pessoas vão ter uma admiração pela minha obra”. A última camada é aquela que atua na perspectiva do próprio Allan. “O que eu tenho em relação ao meu trabalho que está sendo apresentado e o motivo de eu ter feito aquilo. Eu escrevo e guardo num textinho as minhas próprias memórias sobre o que estou expondo”. Na terceira camada, Allan revela que o design é algo que lhe prende a atenção, ainda mais quando eles expressam o mesmo significado e ativam gatilhos mentais semelhantes nas pessoas. “Alguém pensou aquele desenho da polícia de São Paulo com aquelas cores específicas, que é bem diferente da polícia do Rio de Janeiro. Mas quando estes símbolos estão nas ruas, eles manifestam determinado sentimento para algumas pessoas e uma outra emoção em outras pessoas”.

Ainda que suas obras tenham passado por exposições no Rio de Janeiro, São Paulo e até em Londres, Allan acha que sua carreira como artista plástico ainda não teve um grande momento. Ele considera sempre o próximo ato na sua trajetória profissional um ponto de grande importância. 

“O grande momento é a próxima viagem a trabalho, a próxima exposição, a próxima obra, a próxima ideia… O meu melhor trabalho ainda não foi nem pensado ainda e eu acho que é isso que move o artista. O fato de você fazer uma parada legal, mas o próximo trabalho ser algo muito mais legal, mais detalhado. E pior que depois que eu finalizo uma grande ideia, eu sempre acho que ficou mediana. Então a próxima ideia fica como uma grande novidade”. Assim como detalha que seus momentos mais marcantes foram as várias ideias que sempre vieram, a ambição de Allan Pinheiro não se solidifica, como ele mesmo fala, como grandes ambições. “Eu tenho pequenas ambições, mas juntas ficam grandes. Eu quero ter uma casa maneira, um ateliê coletivo com muitas pessoas participando, poder ter um espaço para dar aulas e incentivar a cultura no Complexo do Alemão. Ou seja, eu tenho pequenas ambições de fazer grandes coisas”. Detalhando seus objetivos, Allan sempre traz a visão da coletividade. “Gostaria de ver meus amigos expondo comigo tanto lá fora como aqui no Rio de Janeiro. Eu queria ver a gente receber mais atenção aqui, podendo viajar pra fora a trabalho, todo mundo tranquilo querendo comprar uma casa se quisesse, ou alugar um motorhome para sair por aí, morar dentro. Essas são as minhas ambições. É ver bem quem esteve comigo por todos esses anos”.

Questionado sobre quantas e quais pessoas estiveram presentes ao lado dele durante sua trajetória profissional, Allan Pinheiro responde que, independentemente das pessoas, foram as ações, mesmo que mínimas, que foram mais significativas e positivas. “Seria muito difícil citar o nome de todos que fizeram a diferença na minha vida, mas são muitas pessoas. Eu e a Vilma, do Voz das Comunidades, por exemplo, conversávamos muito sobre fotografia e ouvir um elogio dela é ótimo. Assim como o Renê esteve presente, hoje o Rack (amigo), Lolly e até o Johnny, meu primo que hoje nem sabe que eu pinto, mas me ensinou a fazer as primeiras letras para escrever no gesso do braço dele. Então é muita gente que me incentivou ao longo da minha trajetória e sempre tiveram esse ponto de fazer algo que eu pudesse aprender”.

Contar com amigos e apoiadores é gratificante na hora de colocar um trabalho em exposição, mas todo o processo do trabalho é algo que exige muito tempo. A organização parte principalmente do artista em montar a exposição, desde seu princípio até seu resultado final. E é assim que Allan relata que trabalha. “Hoje em dia, eu e meus amigos conseguimos fazer uma organização onde realizamos algumas intervenções e instalações com o próprio bolso. Mas, geralmente, procuramos editais, museus e convites para exposições onde conseguimos experimentar essas ideias com o mínimo de suporte. Porém, ainda na minha posição, tento me organizar para fazer parte de um edital para participar de exposições, mas ainda rolam poucos convites. Muitas vezes, acho que não somos selecionados por falta de currículo”. Allan cita um amigo que também é artista, chamado Leonardo da Silva, conhecido como Rack. Rack não foi convidado para a exposição do Museu de Arte do Rio. Então, o artista montou uma tela com trabalhos manuais e braçais bem em frente ao MAR, como forma de intervenção cultural. Allan foi ao apoio do amigo, uma vez que é exatamente desta forma que os artistas atuam e se sustentam através da arte. “A gente trabalha por fora, junta dinheiro e consegue fazer essas intervenções”.

O trabalho só acaba quando alguém paga”, defende Allan Pinheiro sobre o término de suas obras de arte.
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Ainda sobre as manifestações, Allan conta sobre a dia que colocou um serviço de mototáxi em frente ao MAR e o que motivou a colocar os trabalhadores no local partiu tanto da força de vontade do trabalho quanto também dos próprios trabalhadores se virem representados dentro do museu; sendo que o um dos trabalhos expostos no Museu de Arte do Rio é uma placa de mototáxi personalizada pelo artista. “Paguei do meu bolso, porque ainda a verba que a gente recebe das instituições é pouca. Mas isso, de trazer a galera pra cá, é algo que toca tanto na gente quanto no público geral. Nós, como artistas, representamos nossas realidades ali e as pessoas ao nosso redor reconhecem o trabalho e a sensibilidade que colocamos nele. É lógico que o mototáxi que for no Museu de Arte do Rio e ver uma placa de mototáxi, ele vai falar ‘pô, meu trabalho está aqui!’ Eu acho que é um sentimento muito próximo e significa que a gente tá fazendo a coisa certa e que estamos no caminho certo”.

 Para Allan, a questão da representatividade é um fator importante para pessoas da comunidade ao se verem no Museu de Arte 
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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