Conheça o Centro de Promoção da Cidadania LGBTQIA+ no Complexo da Maré

Com serviços gratuitos de atendimento psicológico, jurídico e social, o espaço é o primeiro voltado à comunidade LGBT em uma favela

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das ComunidadesFoto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

O Brasil é um dos países que mais mata e discrimina pessoas da comunidade LGBTQIA+. Além disso, um dos grupos mais afetados neste cenário são as pessoas trans. Só no Brasil, 89 pessoas trans foram mortas no primeiro semestre de 2021. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, foram 80 homicídios e nove suicídios.

Esta realidade desigual, preconceituosa e cruel, motivou a moradora da Maré, Gilmara Cunha, a trabalhar pela fundação do primeiro Centro de Promoção de Cidadania LGBT dentro de uma favela, mais especificamente no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. A inauguração foi realizada no dia 30 de setembro pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSODH), por meio do Programa Rio Sem LGBTIfobia.

O Centro de Cidadania oferece serviços gratuitos de atendimento psicológico, jurídico e de assistência social, além de cursos de informática. 

A equipe é formada por Hebert Silva (psicólogo), Marina Siqueira (advogada), Jaqueline Andrade (assistente social) Isabela Araújo (administrativo) Gilmara Cunha (coordenadora), Larissa dos Santos Soares (secretária) e Douglas Souza (assistente técnico)
Foto: Cléo Oliveira

Casa da Diversidade

Com um olhar decidido e firme, respeitada e conhecida na Maré, pelos coletivos LGBTQIA+, Gilmara Cunha, de 36 anos, desde 2006 atua como diretora no Conexão G de Cidadania LGBT, que é um grupo comprometido na luta pelos direitos dos moradores LGBTQIA+ da comunidade.

Não se deu por satisfeita com tudo que ja vinha fazendo, neste ano de 2021 teve a ideia de criar a Casa da Diversidade Gilmara Cunha. Sim, o local, que funciona de maneira integrada com o Centro, leva o nome da ativista, como uma homenagem em vida, devido aos anos de trabalho e resistência na busca por direitos iguais para todos e todas . 

“É além de prestar um serviço (…) Estamos construindo um espaço de militância, em que foram vidas que passaram preconceitos, que vão pensar numa nova política, não só interventiva no território, mas com desenvolvimento territorial e desenvolvimento na vida destas pessoas”.   

Gilmara Cunha foi a primeira mulher trans a ganhar a medalha Tiradentes na Alerj
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Representatividade

Gilmara entende que o Centro de Cidadania não se resume apenas aos serviços, e sim como o espaço pode ser representativo às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, queer, intersexo e assexuais, moradores da comunidade.

“Estes serviços prestados são poucos. Oferecemos mais do que isso. Vai além de prestar serviços, tais como esses. É demarcar a existência, que vamos viver, que não vão nos matar. Vamos continuar com o trabalho, continuar intervindo na vida destas pessoas. O serviço é sim importante, mas a vida das pessoas que o procuram são mais”. afirmou ela.

Segundo a fundadora, a presença de uma mulher trans no espaço de favela ainda assusta as pessoas e que esses olhares contribuem ainda mais para o preconceito.
Foto: Vilma Ribeiro/Voz das Comunidades

Gilmara ressalta a relevância de um apoio maior da comunidade para o entendimento desta causa. Pois, segundo ela, só com isso é possível construir um lar de segurança para as pessoas trans. A instituição acolhe todos e todas da comunidade, mas os olhos têm uma atenção especial para as mulheres trans da comunidade.

Isso se dá pela maior exclusão destas pessoas por diversos grupos e setores da sociedade. “Eu não penso em mim, penso nelas. Toda minha luta e trajetória são pensadas nessa população. Mesmo que eu perca minha vida, ainda sim quero que elas tenham dignidade”. 

Luta e resistência

A necessidade de lugares como o Centro de Cidadania se dá pela ausência de políticas públicas voltadas para as mulheres trans. “Se você não permite que uma travesti esteja numa escola, como ela vai ter uma educação? Se ela não tiver uma estrutura familiar, como ela vai se manter na sociedade? Isso interfere nas nossas vidas. O que acaba sendo ofertado para elas é a prostituição (…) Precisamos das mesmas oportunidades”, desabafou.

O reflexo desta realidade é uma grande busca por atendimento psicológico no Centro. O afastamento social pandemia influenciou ainda mais esta demanda em muitos moradores de comunidade. Mas, ressalta a solidão cotidiana de uma pessoas trans, antes mesmo do isolamento. “Muitos me perguntaram como foi meu período isolada na pandemia e eu respondi que: normal. Porque isolada eu sempre vivi”, contou.

Larissa, mulher trans, funcionária do Centro de Cidadania na parte de secretaria
Foto: Vilma Ribeiro/ Voz das Comunidades

Larissa foi convidada por Gilmara para fazer parte da unidade. Ela conta a sua perspectiva com a chegada do espaço. “Importância disso aqui é ser o que o governo nos falha. E, aqui agora junto com ela, vamos manter a oportunidade de oferecer esses serviços que são muito carentes em relação aos atendimentos que a população LGBTQIA+ precisa.” Ainda de acordo com ela, a mudança de oferecer um atendimento mais humano já é uma forma de fazer as pessoas se sentirem mais acolhidas na favela.

O Centro de Cidadania fica na Rua Marcelo Machado, número 51, Nova Holanda, Maré. Funciona das 09h às 18h. Para mais informações, basta entrar em contato através do número (21) 31058765 (fixo) ou Whatsapp (21) 97175-9884.