Crias de favelas, Papais Noéis fazem a alegria da criançada no Natal

Já faz alguns anos que shopping não é mais o único lugar que dá para tirar foto com o Papai Noel. Na favela, isso também se tornou possível
Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades
Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades

“Papai noel não manda presente, não? Esqueceu de mim?”. Imagina ouvir isso de uma criança que aguardou ansiosamente pela chegada do fim do ano apenas por uma razão: receber presentes. Até porque, para a criançada, essa é a verdadeira magia do Natal. Mas acontece que nem para todo mundo o bom velhinho passa e Hector dos Santos sabe bem disso. Ele, que hoje se transforma em Papai Noel para as crianças moradoras de favelas, foi quem fez essas perguntas quando era mais novo. De lá para cá, decidiu então mudar essa realidade que afeta principalmente as pessoas de baixa renda. Já há alguns anos, não só Hector, mas também Jaqueline e Rodrigo se transformam em uma das figuras mais populares do Natal. 

Os três, que são de favelas, estão levando alegria para muita gente. Afinal, agora o Papai Noel aparece e ainda vem acompanhado de uma sacola grande cheia de surpresas. “É prazeroso se vestir e ver a alegria das crianças ao receber os presentes”, disse Hector enquanto abria um sorriso. O morador do Complexo do Alemão, que é fotógrafo, relembrou que, durante a sua infância, não havia muitas pessoas que se vestiam de Papai Noel. “Você via no shopping, onde é muito caro tirar uma foto”. Foi em 2017 que tudo mudou. Ele recebeu o primeiro convite para se vestir de Papai Noel. Na época, não tinha ninguém. “A roupa é quente e algumas pessoas passavam mal. Eu pensei: segura na mão de Deus e vai! Fui, gostei e estou nesse movimento até hoje”, contou rindo.

Hector leva alegria para as crianças do Complexo do Alemão, lugar que nasceu e ainda mora
Foto: Selma Souza/Voz das Comunidades 

Rodrigo Lima é o outro Papai Noel que também faz a alegria da criançada. Muito conhecido no Vidigal, o mototáxi e guia local é famoso por subir em uma moto e sair por aí distribuindo brinquedos durante esse período. Faz isso há dois anos. No entanto, a sua relação com o público infantil vem de longa data. Ele é o responsável pela festa do Dia das Crianças que acontece todo ano na favela. Inclusive, a ideia de se transformar em Papai Noel surgiu depois que começou a fazer esse evento. No Natal, ele entrega para o pessoal os brinquedos que sobraram da festa do Dia das Crianças, já que as doações chegam em uma boa quantidade. “O sentimento é o melhor possível. As crianças são os meus fãs! Estamos em um momento ruim, então ações como essa se destacam”.

Não importa o desafio. Rodrigo quer ver a felicidade das crianças do Vidigal.
Foto: Selma Souza/ Voz das Comunidades

Hector e Rodrigo estão realizando um trabalho que vem fazendo a diferença, mas não para por aí. Nesta história, existe mais um Papai Noel, a Jaqueline Moura, moradora do Vidigal. Ela, que tem um filho de 28 anos, se veste desde que ele tinha cinco, ou seja, há 23 anos. “A turminha de amigos do meu filho sempre vinha cear aqui em casa. Eu me vestia e entrava na sala como se tivesse chegado aquele momento. Eu distribuía os presentes da árvore e depois ia embora. Mágico!”. Com o passar do tempo, o cenário não mudou muito. Jaqueline ainda continua fazendo praticamente a mesma coisa, só que agora em outros lugares, como escolas, creches e projetos sociais. “Às vezes, um pouquinho faz uma diferença na vida de uma criança que a pessoa não tem noção e eu amo fazer isso. A minha missão é fazer o bem”.

Quem é esse Papai Noel? Jaqueline investe na caracterização para não deixar nenhuma pista de que o Papai Noel é ela.  
Foto: Selma Souza/ Voz das Comunidades

Os três participam dessas ações de final de ano, de maneira completamente voluntária. Para eles, o que importa é deixar as crianças felizes e realizar iniciativas de impacto social. “Eu faço de forma voluntária. A minha relação com o trabalho voluntário fala bem mais alto. Foi assim que me tornei doador de sangue, foi assim que me tornei Papai Noel”, comentou Hector. A expectativa para este ano é grande, ainda mais considerando que esse é sempre um momento muito aguardado. Entretanto, existe um desafio que preocupa Jaqueline. Por ser enfermeira, ela vive atenta às questões relacionadas à saúde e, com o aumento dos casos de gripe na cidade do Rio de Janeiro, a orientação das autoridades é evitar locais cheios e seguir os protocolos, como o uso de máscara e álcool em gel. 

Em meio a todo esse contexto, ainda existe outra preocupação: a roupa. Afinal de contas, sem ela não tem a menor graça. Sobre isso, Rodrigo relembrou uma história divertida e marcante. Ele já foi um Papai Noel de chinelos. Os sapatos não chegaram a tempo, então foi preciso usar o que tinha disponível. As crianças nem se importaram. Só queriam abraçá-lo e tirar fotos. Mas, pelo que tudo indica, este ano será mais tranquilo. Toda a roupa e acessórios já foram doados e estão garantidos, o que representa um alívio para o futuro Papai Noel. No entanto, colocar a roupa na hora é uma prova de fogo. Hector confessou que sempre precisa de uma ajuda para pôr o cabelo ou até mesmo para alinhar alguns detalhes. 

Com a chegada do grande momento, os Papais Noéis se encontram com as crianças que entregam as cartinhas e fazem os pedidos que variam entre si. “Emprego para o meu pai”, “Melhoras para a minha mãe com câncer” foram os que mais marcaram Jaqueline até hoje. Teve um outro que não foi um pedido, mas sim um verdadeiro gesto de agradecimento. “Uma vez, um menino me deu um abraço muito forte e disse que o sonho dele era tirar foto com o Papai Noel, mas nunca pôde porque a mãe não tinha dinheiro e no shopping era muito caro e não deixavam fazer a foto com o celular. Falou que estava realizando um sonho”. Jaqueline ainda completou. “Se cada um fizesse um pouquinho, faria uma grande diferença no mundo”. 

Mas e se a própria Jaqueline tivesse realmente o poder de estalar os dedos e transformar algo, o que ela faria primeiramente? “Mais igualdade e respeito. Na saúde, há um descaso gigante. Pessoas morrendo por falta de atendimento e medicações básicas. Na educação, eu mudaria a desigualdade social absurda que há. Quando nós de classe baixa teremos oportunidades?”. Rodrigo também falou quando questionado sobre qual seria a sua primeira atitude se pudesse mudar o mundo: “É muito difícil falar porque o mundo é muito grande, mas eu acho que o problema é o ser humano. Eu tentaria tirar um pouco dessa ambição”. Já Hector, afirmou que “a mudança começa em nós” e disse que gostaria muito que todas as pessoas sempre deixassem uma semente plantada para que as crianças pudessem seguir bons exemplos. 

Compartilhe este post com seus amigos

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp

EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

Contato:
[email protected]