Em sua 10ª edição, a Festa Literária das Periferias terá o primeiro slam dos povos indígenas

A palavra falada é a grande homenagem da 10ª edição da Flup

Foto: Daniel MarencoFoto: Daniel Marenco

Por: Júlio Ludemir para PerifaConnection, na Folha de S.Paulo

Quando idealizamos uma Festa Literária das Periferias (Flup), o Brasil era um outro país. Mas mesmo em 2012, no auge de uma era de governos populares, soava patético propor um festival literário internacional em uma favela do Rio de Janeiro.

Todos nos diziam que era um projeto belo e necessário, mas inviável. Até mesmo as pessoas queridas e parceiras, com as quais anos antes sonhos e cervejas, duvidavam que pudéssemos converter uma epifania em evento. Em todas as edições o mesmo acontecia. O impossível nunca foi tão íntimo quanto agora, em 2021, mas o cortejamos ao longo de toda nossa história

Uma leitura dos programas de edições anteriores denuncia o tom quase épico de nossas produções. Sempre chegamos em novembro com a sede de quem pode estar diante de um último encontro, uma última paixão, uma última vez. É o caso agora.

Sobrevivemos aos sombrios futuros que previram para nós ao longo de uma história que, embora fadada a ser curta, já resultou na publicação de 23 livros, 150 argumentos audiovisuais, cinco criações de artes plásticas e três documentários —um deles um longa-metragem.

Roberta Estrela D’Alva, uma curadora do Rio Poesia Slam, nos disse que seria impossível reunir os 16 poetas que pedimos para que convidasse à Flup de 2014. Desde então recebemos cerca de 300 slammers em nossas ligações nacionais e internacionais, com performers nomeados de quase todos os estados do Brasil e diversos países africanos, europeus e das três Américas.

Orgulhamo-nos também do desfile com que atualizamos o modativismo de Zuzu Angel, mostrando que o estado brasileiro agora mata a juventude preta. Fomos a não menos que 100 escolas públicas de ensino médio e fundamental.

Igualmente superlativos são os números de nossas entregas em 2021, apesar de asfixiados por um governo cultural, que aprendeu como paralisar a indústria artística.

Sozinho, o livro “Carolinas” publicou mais contistas negras brasileiras que em toda a história de nossa literatura. “Cartas para Esperança” consideradas missivas de 400 mulheres espalhadas por todo país, criando uma enorme dificuldade para uma banca formada por outras cinco mulheres negras escolher como 50 autoras que publicaremos em 2022.

Os dois meses de formação do Slam Esperança atraíram 120 jovens de escolas públicas de ensino médio de sete estados da federação. E o quinto ano do Laboratório de Narrativas Negras, parceria com a Globo à qual acrescemos os indígenas, formando uma entusiasmada turma de 40 aspirantes a roteiristas a partir de 500 inscrições espalhadas pelo país.

Mais uma vez visitamos a memória de nossas periferias, reunindo mulheres negras de Santa Cruz para contar a origem dos conjuntos habitacionais que mudaram a demografia deste é o mais remoto bairro do Rio de Janeiro.

Temos uma consciência de que todo esse esforço merece ser celebrado, principalmente em um ano em que paira sobre nós a contabilidade macabra das 600 mil mortes decorrentes da pandemia, muitas delas vizinhas a nós.

Quem é de origem popular sabe que é com entusiasmo que se comemora o privilégio da vida, quando e enquanto o temos. Vai-se ao samba, como dizia o inevitável Paulinho da Viola, porque só assim nos sentimos contentes.

Por isso tanto se espera de um sábado à noite, como filosofou o Cidade Negra. Dança-se para que uma paz não dance na tribo, acrescentou Rita Lee. Todas as modalidades de nossa cultura popular possuem uma versão para o quem-canta-os-males-espanta.

A citação ao cancioneiro popular não aconteceu aleatoriamente, ainda que seja quase instintivo que os brasileiros as façam. A visita à rica tradição da MPB é um explícito diálogo com a palavra falada, que tem sido desde sempre a maior e mais inclusiva plataforma de formação de leitores e autores provenientes da periferia.

A palavra falada é a grande homenagem da 10ª edição da Flup, à qual dedicamos um ciclo com seis das onze mesas da Maratona Flup 10 Anos. Também tangenciam a palavra falada dos quatro debates que intitulamos de Diálogos Transatlânticos, a partir da residência artística de Emicida no CES, em Coimbra.

A Maratona Flup 10 anos entrará no ar na tarde de 30 de outubro e terá 40 debatedores de nacionalidades como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Costa do Marfim, Portugal, França, Estados Unidos, México, das quais 25 são negras, 24 são mulheres, duas são pessoas trans e outras duas são surdas. O conteúdo ficará no ar por 10 dias.

Nossa programação presencial, que acontecerá na favela da Babilônia nos dias 30 de 5, 6 e 7 de novembro de outubro, também será dedicada à palavra falada.

Participarão de nosso reencontro com a favela na qual anunciar a Flup de 2015 poetas de 13 países, indígenas de 15 etnias e ativistas de cinco coletivos de poesia da periferia do Rio.

Os poetas indígenas não apenas estão protagonizando o primeiro slam dos povos originários da história como sua produção poética publicada tanto aqui quanto no Canadá, numa parceria que articulamos com o Tifa, maior festival literário do Canadá. Vale lembrar que todos esses ativistas da palavra falada estará se reunindo pela primeira vez desde o início da pandemia.

Estamos exaustos. Mas é com orgulho que aguardamos todos vocês tanto para nossa maratona de debates quanto para a ocupação poética da Babilônia, favela na qual me orgulho de morar há oito anos e de ser um disputado goleiro. Mas isso é outra história.

Júlio Ludemir
Escritor e criador da Festa Literária das Periferias e da Batalha dos Passinhos

PerifaConnection, uma plataforma de disputa de narrativa das periferias, é feito por Raull Santiago, Wesley Teixeira, Salvino Oliveira, Jefferson Barbosa e Thuane Nascimento. Texto originalmente escrito para Folha de S. Paulo