Iniciativa que faz roteiro cultural pela Penha mostra que turismo vai além da zona Sul

Há nove anos, o Guiadas Urbanas vem transformando a ideia de turismo no Rio

Foto: Selma Souza / Voz das ComunidadesFoto: Selma Souza / Voz das Comunidades

Esta reportagem começa com um exercício de imaginação. Pare e pense em dois pontos turísticos do Rio de Janeiro. E aí, em quais você pensou? É possível que tenha se lembrado apenas de pontos que ficam na zona Sul, como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Definitivamente, esses lugares são muito bonitos e possuem uma relevância histórica. Mas a verdade mesmo é que o turismo no Rio de Janeiro é muito mais amplo do que se imagina.

Historicamente, o subúrbio carioca, formado por bairros que não fazem parte da área central da cidade, não é visto como uma região potencialmente cultural e turística. Um exemplo é a Igreja da Penha, que existe há mais de 300 anos. Assim como o Cristo Redentor, ela é um santuário. Mas, por qual motivo um é mais valorizado que o outro? Foi ao perceber todo esse descaso que o casal Karolynne Duarte, cria de Cascadura, e Vilson Luiz, do Complexo da Penha, decidiu agir, criando, em 2012, o projeto Guiadas Urbanas que vem mudando a “cara” do turismo no Rio.

A iniciativa, que realiza roteiros culturais pelo subúrbio, trabalha com o turismo a partir de um novo olhar, além de ter como um dos objetivos possibilitar que moradores conheçam as histórias dos lugares em que vivem. Karolynne conta que uma das principais ideias é mostrar para as pessoas que elas podem atuar em prol das suas localidades. “É uma questão de luta mesmo. É o nosso direito ter um local de lazer. As pessoas têm que começar a entender que esses espaços são delas”. O Voz das Comunidades acompanhou, neste mês, o Guiadas Urbanas em um trajeto até a Igreja da Penha. O público da vez? Uma criançada bem entusiasmada do Complexo da Penha e representantes do projeto Arte Transformadora.

Karolynne Duarte e Vilson Luiz são os fundadores do Guiadas Urbanas
Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades

O grupo, formado por oito pessoas, tirando os guias, subiu a escadaria da Igreja a pé. Quando todas as pessoas já tinham chegado no alto da pedra, uma pergunta de Vilson às crianças trouxe um dado revelador: a grande parte nunca tinha ido à Igreja da Penha, mesmo morando praticamente ao lado. Para Karolynne e Vilson, essa realidade impede que as pessoas sintam orgulho dos seus territórios. Por isso, a dupla sempre opta por falar sobre a história dos locais durante os roteiros. E, nesse dia, não foi diferente. Vilson continuou a conversa que já havia iniciado: “Aqui [Penha] tem uma história muito importante para o Brasil”, afirmou. A frase imediatamente fez os olhinhos de todos brilharem. Algo surpreendente. Afinal, imagina morar em um bairro que tem um significado para o país? 

Na sequência, Vilson resolveu fazer uma pergunta ao mesmo tempo que apontava em direção ao Complexo da Penha: “Vocês levariam turistas para conhecerem a favela de vocês?”. Espontaneamente, Lucas Rezende, de 13 anos, respondeu: “Sim! Eu levaria no ‘Tamo Junto’, onde tem o melhor salgado”. O bar fica na entrada da Vila Cruzeiro. Naquele momento, a risada de Karolynne e Vilson foi o que se destacou. O casal ficou feliz ao ver o orgulho que o menino sente do lugar em que mora. Depois, outra pergunta: “Quem aqui gostaria de morar em um bairro que tem praia?”. Como esperado, todos levantaram as mãos. Vilson, então, completou: “E se eu falar para vocês que na Penha já teve praia?”. Na hora, todo mundo ficou com cara de surpresa. Foi instigando as crianças, através de questionamentos que geravam curiosidades, que os guias conduziram todo o roteiro até o final.

De acordo com Vilson Luiz, o trabalho que é desenvolvido por meio do turismo também cumpre um papel importante na diminuição da desigualdade social, já que ao conhecer a história de um território é possível pensar nas opções que ele oferece. Um exemplo é a geração de renda. Vilson explica: “Caso eu comece a vender 30 fitinhas [aquelas que são amarradas nos pulsos] na Igreja da Penha por dia, consigo praticamente um salário mínimo por mês. Com esse trabalho, vou gerar renda dentro do meu próprio território. Eu não vou precisar pegar ônibus. Se a minha mãe me chamar, estarei aqui. Se eu precisar ir à escola fazer um trabalho, já estarei aqui. É essa possibilidade que eu tento mostrar para eles”, comentou.

Para os próximos anos, o Guiadas Urbanas pretende se aproximar ainda mais das favelas através de parcerias com iniciativas locais, como o Arte Transformadora, para promover os roteiros culturais e, principalmente, o resgate de memórias. A valorização da cultura local e o empoderamento de moradores como agentes dos seus territórios foram sempre a base do projeto, que vem mostrando que o turismo está longe de acontecer somente na zona Sul da cidade.