Isolamento Social na favela: Como estão nossas crianças?

Para algumas mães tem sido muito difícil ver seus pequenos trancados o dia inteiro dentro de casa

Isolamento Social na favela: Como estão nossas crianças?

Foto: Thiago Lima / Voz das Comunidades

O isolamento social é uma orientação do Ministério da Saúde para minimizar o avanço da transmissão do vírus, que levou, consequentemente, ao fechamento gradativo de empresas, comércios, shopping, vilas olímpicas, parques e escolas. Assim, repentinamente, toda uma rotina foi alterada, fazendo com que não se saiba o que fazer para manter as crianças tanto tempo trancadas em casa.

Na favela, antes do isolamento, em qualquer rua que você passasse, tinha um grupo de crianças brincando de bola, queimado, pipa, bolinha de gude, elástico, boneca e carrinho, até o entardecer. Era uma alegria, uma gritaria, risadas, e a favela ganhava cores, transbordava de inocência e pureza. Entretanto, uma das maiores preocupações nesse momento de isolamento é a de: como manter a rotina dos pequenos e como não deixar as crianças caírem no tédio? De fato, as crianças sentem muito mais, principalmente porque essa é a fase de interação e de aprendizagem, em que elas precisam ir à escola, brincar com outras crianças, viver as experiências que a fase lhe permite.

Para algumas mães tem sido muito difícil ver seus pequenos trancados o dia inteiro dentro de casa. Algumas, até, deixam a criança sair um pouco, mas será que nesse momento de pandemia é viável deixar a criança sair? Para as doutoras Luciana Borges, médica e professora de Pediatria da UERJ/HUPE, e Tatiana Santos Mascarenhas, médica e residente de pediatria do HUPE, o principal risco é o da aglomeração e de ter contato com alguém contaminado. Como é sabido, de acordo com especialistas, geralmente as crianças podem ser portadoras da doença, mas não apresentar sintomas, logo correm pouco risco de vida. No entanto, podem transmitir o vírus para pessoas idosas ou que tenham doenças como a hipertensão, diabetes e obesidade que, mesmo em pacientes mais jovens, podem fazer com que a covid-19 se manifeste de forma mais grave.

No complexo do Alemão, a moradora Katia Fernandes, mãe do pequeno Gabriel Lucas, diz o seguinte em relação a quanto está sendo difícil para seu filho ficar em casa: “Meu filho não sai pra canto nenhum, exceto na casa da avó. Coitadinho sofre de tédio. Nem celular, videogame ou Netflix agrada mais. Vive entediado. Quando tá de bom humor, ele desenha.” Mas a mãe aproveita esses momentos de bom humor e deixa o filho fluir com a criatividade. Como Gabriel gosta de desenhar, ela liberou para ele brincar de se pintar e viver um dia de super herói.

Mãe de Gabriel conta que ele vive entediado. Foto: acervo pessoal

A situação social e econômica interferem muito na nossa saúde mental. Desta maneira, embora o momento esteja difícil para todos, é importante que os pais se aproximem mais dos seus filhos, guardem um espaço do dia para brincar com eles, ler uma história ou simplesmente conversar. Vejam desenhos animados, coloquem uma música para dançar, ensinem brincadeiras de crianças que foram esquecidas pelo tempo, como pular corda, pular amarelinha ou de pique esconde. Tentem, dentro da sua possibilidade financeira, oferecer alimentos com menos quantidade de sal e açúcar. Substituam um biscoito por uma fruta e cozinhem alimentos ao invés de fritá-los. Evitem também dar sucos industrializados e ofereçam água. Atitudes que não aumentam os gastos financeiros e aproximam pais e filhos para suportarem um momento tão delicado na vida de todos como esse.

Já na cidade de Deus, a Suzy Almeida é mãe de duas meninas. E, como ela precisou voltar ao trabalho, a rotina delas precisou ser alterada. A mais velha está tendo aulas de reforço escolar a tarde e a caçula fica na creche. Nesses casos, como não dá pra manter o isolamento, as médicas pediatras indicam o cuidado com as crianças: evitar aglomerações. Se maior de 2 anos, usar máscara quando tiver que sair. Lavar as mãos frequentemente e ensinar a evitar colocar as mãos na boca e nos olhos. 

As crianças podem transmitir a doença, ainda que sejam assintomáticas. Embora algumas situações adversas ocorram, a manifestação da doença, de forma grave, não é tão frequente em crianças quanto em adultos.