Jovem da Cidade de Deus usa redes sociais para falar da luta de pessoas com deficiência

Eduardo Victor, que tem paralisia cerebral, é criador de conteúdo digital e utiliza sua voz nas redes para conscientizar e exigir igualdade de direitos

Foto: Acervo PessoalFoto: Acervo Pessoal

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado em 21 de setembro no Brasil. A data foi criada com o objetivo de conscientizar sobre a importância do desenvolvimento de meios de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade. Morador da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, Eduardo Victor Vieira, de 21 anos, tem paralisia cerebral, mas não fez disso empecilho para conquistar seu lugar de direito na sociedade.

A data foi oficialmente criada a partir da Lei nº 11.133, de 14 de julho de 2005, mas já era celebrada a nível extraoficial desde 1982. A criação do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência foi uma iniciativa do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), grupo que debate propostas de transformações sociais em prol das pessoas com deficiência desde 1979. Neste dia é importante lembrar que não é por acaso que a data se encontra com o início da primavera. Pois, representa o nascimento e a renovação do movimento das pessoas com deficiência no Brasil.

Deficiência e Favela

Dudu, como é carinhosamente conhecido, há 4 anos é criador de conteúdo. O jovem possui paralisia cerebral diplegia espástica. Este tipo de paralisia cerebral afeta ambas as pernas, em vez de todo o corpo. Em 2017, ele começou a tomar consciência de como isso de diversas formas afetava sua vida, e começou a refletir sobre capacitismo – que é a caracterização da discriminação sofrida por PCDs (Pessoas com deficiências) -.

Dudu há 4 anos decidiu usar suas redes sociais como uma maneira de fazer as pessoas refletirem sobre as causas de outras pessoas com deficiência, olhando para elas com mais respeito.
Foto: Acervo Pessoal

“Hoje, consigo entender que tá tudo bem ser como eu sou. Nesse processo, os bailes funks e as rodas culturais foram essenciais para eu entender meu lugar no mundo e me sentir parte do mundo que nunca foi feito pra pessoas como eu, sabe? Inclusive, meu trabalho na internet também gira em torno desse universo das rodas e da música”, comentou Dudu.

Dentro das favelas, as adversidades da vida tendem a ser intensificadas. Além dos inúmeros problemas sociais, a falta de acessibilidade para pessoas com algum tipo de deficiência é uma realidade para muitos moradores. “Embora nas favelas a acessibilidade seja pior por conta do descaso e do abandono do Estado, o senso de comunidade é muito maior. (…) Com certeza falta o olhar do Estado de olhar pra nós como parte da sociedade. Entender que fazemos parte da cidade. Claro, eu sou uma pessoa com deficiência, branca. A forma de tratamento do Estado comigo é totalmente diferente com uma pessoa com deficiência preta ou indígena, principalmente nas favelas. Mas de modo geral, falta olhar com humanidade para nós. Uns mais, outros menos”, falou o criador de conteúdo.

Busca por igualdade

Sua deficiência nunca foi obstáculo para correr atrás dos seus maiores sonhos. O influenciador usa suas redes sociais para abordar temáticas de pessoas com deficiências, evidenciando para outras pessoas que existe algo além daquilo. “Eu também mostro que pessoas com deficiência são mais que a deficiência. Eu falo sobre, porque faz parte de mim, mas também falo sobre música, autoestima, entrevisto pessoas incríveis do rap, como, por exemplo, já entrevistei o Chris MC, o Major RD. Tento mostrar essa diversidade dentro da própria deficiência, mostrando que pessoas com deficiência podem viver e não só sobreviver”.

Além de criador de conteúdo Dudu também é DJ.
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Neste dia tão simbólico, Dudu quis deixar uma mensagem para as pessoas com ou sem deficiência. E, faz um pedido: Igualdade. “Se eu fosse dizer algo para as pessoas sem deficiência, eu pediria para nos ouvir e ouvir nossas narrativas, porque uma comunidade mais acessível é uma comunidade que entende as pessoas com deficiência e as suas necessidades. Mas se for pra dizer alguma coisa pras pessoas com deficiência seria: sejam vocês mesmos, independente das limitações. Porque limitações todo mundo tem. Respeite seu corpo, seu processo e não esqueça que tá tudo bem ser como você é. Existem milhares de pessoas como a gente no mundo, não somos corpos estranhos. Temos nossas especificidades e isso não muda nada. A sociedade tem que nos enxergar como somos. E eu espero muito que um dia a gente não precise lutar mais por isso, que isso se torne um direito básico”, finaliza.