Justiça do Rio aceita denúncia contras dois policiais por morte em Chacina do Jacarezinho

Os agentes, agora afastados de suas funções públicas, foram acusados do homicídio de Omar Pereira da Silva, um dos 28 mortos na operação

(REUTERS)Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Na última segunda-feira (18), a Justiça do Rio recebeu a denúncia contra dois dos policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil pela morte de Omar Pereira da Silva durante a operação no Jacarezinho, em maio deste ano. Segundo a decisão, houve fraude na remoção do corpo. A operação ficou marcada como a mais letal da história em favelas, com 28 pessoas mortas.

Sobre o caso

No dia 6 de maio de 2021, na comunidade do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, com um total de nove horas de incursão na comunidade, 28 pessoas foram mortas , sendo 27 os homens que, de acordo com a polícia civil, eram “todos criminosos“, e um policial civil. A operação ficou conhecida como Chacina do Jacarezinho.

Contudo, testemunhas afirmaram que muitas das vítimas foram executadas quando já tinham se rendido, o que teria sido o caso de Omar Pereira. Laudos da necropsia apontavam, por exemplo, que um dos corpos recebeu um disparo a uma curta distância e que outros quatro foram atingidos pelas costas, indo no sentido contrário às alegações em depoimentos do policiais envolvidos.

Acusados

Os policiais civis Douglas de Lucena Peixoto Siqueira e Anderson Silveira são os primeiros réus da operação. A decisão é da  juíza Elizabeth Machado Louro, que determinou o afastamento da dupla das operações da Core e a proibiu de fazer qualquer atividade policial no Jacarezinho. De acordo com a denúncia, Douglas cometeu homicídio e fraude processual e Anderson Silveira cometeu fraude

Ao informar a ocorrência na delegacia, os policiais afirmaram que o suspeito, antes de ser morto, atirou uma granada contra eles. O policial Douglas admite no registro ter sido ele que atirou em Omar. Mas, para os promotores, não houve legítima defesa dos agentes porque as provas obtidas pelo MP indicam que o homem estava encurralado e ferido, com um tiro no pé. O documento também indica que Omar foi atingido na lateral esquerda do torso. Ainda segundo o MP, há “vestígios de disparos de curta distância”. Moradores da casa onde Omar se escondeu afirmaram ao Ministério Público que não foram feitos reféns e que o suspeito não estava armado.

Fraudes cometidas

A juíza também atendeu a uma solicitação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e exigiu que o inquérito da morte de Omar Pereira na Delegacia de Homicídios da Capital seja compartilhado com os promotores da Força-Tarefa que investiga as mortes, em um prazo de 24 horas. Isso porque, na denúncia, o MPRJ afirma que os dois policiais civis contaram com a ajuda de “terceiros” para forjar provas na cena do crime. Douglas e Anderson junto com outros policiais teriam “Implantado” uma granada no local onde Omar Pereira da Silva foi executado.

Segundo o documento, as fraudes que teriam sido cometidas foram:

  • remoção de cadáver antes da perícia;
  • apresentação falsa de uma pistola glock 40 e um carregador;
  • inserção de uma granada que, segundo os policiais, estaria em posse de Omar Pereira.

Na ocasião, a Polícia informou que o tráfico da região adotava táticas de guerrilha, com armas pesadas e “soldados fardados”. No dia da Operação Exceptis (como foi batizada a ação) , o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário operacional da Polícia Civil, afirmou não considerar que houve erros ou excessos na operação. O intuito era investigar o aliciamento de crianças e adolescentes para ações criminosas, como assassinatos, roubos e até sequestros de trens da Supervia. Esta operação, de acordo com eles, foi planejada com todos os protocolos cabíveis, em cima de 10 meses de investigação.