Mães da favela: o luto que vira luta

Mulheres encontram conforto e força em coletivos de mães que tiveram filhos assassinados

Mães da favela: o luto que vira luta

Perder alguém querido é sempre um momento difícil e triste. Quando essa pessoa morre de forma violenta, é ainda pior. Se esse alguém é seu filho, a dor é quase insuportável. Essa é a situação em que muitas mães que moram em favelas do Rio de Janeiro se encontram. Mas a partir deste sofrimento, a maioria delas inicia uma luta incansável por justiça. Além disso, é na companhia de outras mulheres na mesma situação que algumas encontram amparo. A violência dentro das favelas cariocas é vista e vivida diariamente. Corpos são deixamos no chão com frequência. Por essa razão, surgem os coletivos de mães que transformam o luto em luta.

Ana Paula Oliveira é uma dessas mulheres. Nascida e criada em Manguinhos, ela é uma das fundadoras do coletivo de mães existente na favela da Zona Norte do Rio. “Sou a filha mais velha dos meus pais. Eles tiveram quatro filhos: três meninas e um menino”. Formada em pedagogia, Ana tem uma relação forte com a comunidade. “Meu primeiro emprego foi numa creche comunitária aqui em Manguinhos. Onde eu trabalhei por oito anos. Esse foi o meu maior contato direto com com as famílias desse lugar, com as pessoas. Esse trabalho fez com que eu tivesse maior proximidade e conexão com os moradores aqui da favela”.

Johnatha foi assassinado aos 19 anos / Foto: Arquivo pessoal

Caso Johnatha

“Quando fiz a minha primeira ultrassonografia e ouvi pela primeira vez o coraçãozinho do meu filho Johnatha, esse ser de luz como sempre digo, começo a sentir a transformação que ele começa a fazer na minha vida. Tanto intimamente quanto pessoalmente e no meu entorno, afetando todas as pessoas que estavam ao meu redor. Então, vejo como que ele transformou nossas vidas. Sou muito feliz e orgulhosa de ser a mãe dessa pessoa tão iluminada e tão cheia de amor que era o meu filho Johnatha”, conta Ana Paula.

Johnatha tinha apenas 19 anos quando foi assassinado com um tiro nas costas. “No dia 14 de maio de 2014, por volta das 15h30, ele sai da nossa casa aqui em Manguinhos, com a namorada dele e uma travessa de pavê que eu havia feito para para minha mãe. Ele iria deixar a sobremesa na casa da avó dele, que morava em outra rua, deixaria a namorada em casa e voltaria. O que não aconteceu, meu filho nunca voltou para casa. É importante dizer que a UPP, Unidade de Polícia Pacificadora, chega em Manguinhos em outubro de 2012 e em março de 2013 já faz na sua primeira vítima”.

Essa imagem mostra o rapaz dois meses antes de ser morto / Foto: Arquivo pessoal

Momento do adeus

Ana Paula se refere ao jovem Matheus que tinha 16 anos de idade quando foi morto com arma de taser. “A segunda vítima foi o jovem Paulo Roberto que tinha 18 anos e foi espancado até a morte por policiais da UPP. A terceira vítima infelizmente veio a ser meu filho que foi morto por um policial da UPP de Manguinhos enquanto um grupo da unidade fazia uma ronda. Esses policiais já eram conhecidos por alguns moradores que apontaram eles como sendo muito violentos. Eles faziam abordagens abusivas e sempre xingavam os moradores”.

“No dia em que o Johnatha foi assassinado, esses policiais estavam fazendo uma ronda pelas ruas e acabaram envolvidos numa confusão com alguns moradores, após uma abordagem violenta que eles fizeram. Os moradores começaram a reclamar indignados e iniciou-se a discussão. Os policiais alegam que fizeram os primeiros disparos para o alto para tentar dispersar aquela confusão mas, o fato é que o meu filho passava nesse momento e foi atingido por um tiro de pistola ponto 40, disparado pelo policial Alessandro Marcelino de Souza que na época era lotado na UPP de Manguinhos. Johnatha foi socorrido por moradores mas já chegou sem vida ao hospital. É muito difícil ver seu filho sair de casa lindo e sorridente e ter que se despedir dele algumas horas depois dentro de um caixão gelado, imóvel. É doloroso e revoltante”.

Ana Paula é uma das fundados do Mães de Manguinhos / Foto: Arquivo pessoal

Mães de Manguinhos

Depois do falecimento de Johnatha, Ana começa a tentar entender o que houve, a buscar conforto e a lutar por justiça. “Queria gritar e denunciar o que aconteceu com meu filho e com os outros meninos. Nesse momento, me vejo nas outras mães e me reconheço nelas. Também começo a entender o motivo do meu filho ter sido assassinado. Passo a sair de Manguinhos, para ir a outros atos contra o genocídio da juventude negra, e encontro outras mulheres como eu. São mulheres pobres, negras e moradoras de favela, da periferia e da Baixada Fluminense. Começo a entender essa luta que me traz esse entendimento e essa resposta do porquê dos nossos filhos serem assassinados”.

“Sempre soube que era negra mas é nesse momento, que começo a ter entendimento do que é ser mulher negra, moradora de favela e pobre, que tenho a resposta do porquê meu filho foi assassinado. São raras as mães brancas que perdem seus filhos por essa mesma violência policial e quando tem, moram em favelas ou periferias. O Mães de Manguinhos é uma rede que luta contra todos os tipos de violência, principalmente a policial. Acolhemos familiares de vítimas, estamos na linha de frente dessa luta em busca da memória, de justiça e da verdade. São as mães que estão juntas nessa luta, há pouquíssimos pais”.

Foto: Arquivo Mães de Manguinhos

“Nosso grito é mais forte junto”

A pedagoga se juntou a outras mulheres para formar o coletivo. “Fátima acaba se tornando uma das testemunhas do caso do Jonathan e a gente se conhece por esse fato. Ela me dá a mão e fala ‘vamos para luta a gente não pode se calar, vamos juntar nossas forças e vamos à luta’. É nesse momento que surge o movimento das Mães de Manguinhos. Nosso grito junto se torna mais forte, em busca de justiça e de guardar a vida de outros filhos. Nossa luta, acima de tudo, é pela vida de todas as pessoas mas principalmente de moradores, que são os alvos principais dessa violência”.

“A gente foi ganhando essa força com esse nome Mães de Manguinhos e a gente acabou sentindo essa responsabilidade de ser realmente as mães de todos que aqui estão. No nosso entendimento precisávamos cuidar do nosso lugar, da nossa favela e das pessoas que estão aqui. Nosso grito engrossava mais ainda quando sentíamos que não era mais só a mãe do Jonathan, nem só do Paulo Roberto, do Matheus e dos outros meninos que estão na bandeira, éramos as mães da favela”.

Foto: Arquivo Mães de Manguinhos

Caso Marcus Vinícius

Bruna da Silva, de 38 anos, é outra mães que convive com a dor, o luto e a luta. “Sou moradora do conjunto de favelas da Maré e mãe de dois filhos, um deles vitimado pela violência. A dor de enterrar meu filho de 14 anos de idade me fez renascer, fui obrigada pelo o Estado a lidar com a ausência dele. Todo dia é um dia novo para mim, hoje, vivo com a luz do meu filho. Ele vive em mim e eu ainda vivo por ele”.

O filho de Bruna foi assassinado em 2018. “Hoje eu vivo em função da minha filha Maria Vitória de 14 anos uma jovem linda com um futuro brilhante pela frente. É nela que eu vejo que eu preciso prosseguir ainda a vida. Meu filho se chamava Marcus Vinicius ele tinha 14 anos quando foi morto pela a Core, Coordenadoria de Recursos Especiais, do Rio de Janeiro, em uma operação. Um jovem morto pela polícia com roupa e material de escola dentro da minha comunidade, a Maré”.

Foto: Arquivo Mães de Manguinhos

Mães da Maré

A mães de Marcus fundou o coletivo Mães da Maré. “Faço parte de vários coletivos de mães. Infelizmente eu e mais uma mãe a Ivone Santiago que também teve seu filho vitimado pelo o exército aqui dentro fundamos o movimentos de mães da Maré. Já somos mais de 10 mães um número que cresce toda vez que o Estado entra na favela e mata. Acolhemos essas mães, vamos em busca delas e dizemos que elas não estão sozinhas. Me sinto iluminada quando consigo arrancar, de alguma, um sorriso delas. Agradeço a Deus e ao meu filho, hoje anjo, por me dar forças para continuar e ainda segurar as mãos das minhas companheiras irmãs de luta. Nós somos mães e mulheres de coragem porque nada nem ninguém nos compra. Somos desgovernadas, não tememos o Estado, não tememos ninguém. Queremos justiça. Sem justiça não tem paz”.

“Na época que perdi meu filho meu pensamento estava em off, era como se fosse um pesadelo que logo ira acordar e aquilo tudo ia passar. Depois vi que estava demorando muito para aquele pesadelo acabar. Olhava para o corpo do meu filho deitado naquele caixão, pensei que ele fosse levantar e dizer que tudo não passava de uma grande peça de teatro. Só que não era verdade, era eu enterrando meu filho mesmo. O mais difícil depois do enterro foi acordar no outro dia e não ouvir a voz daquele filho que sempre ia lá dizer ‘mãe te amo’, ‘mãe estou aqui’, isso tudo foi e é muito doloroso para mim”.

Foto: Arquivo Mães de Manguinhos

Luta por justiça

Bruna conta que as outras mães foram fundamentais para que ela se mantivesse de pé em meio à dor. “Meu tratamento psicológico foi do lado dessas mulheres, dessas mães que já estavam a frente de mim na dor. Elas me acolheram. Hoje, só passo para frente o tratamento que a mim foi dado por elas porque do Estado não tive apoio de ninguém nem um pedido de desculpas eu tive por parte deles, os assassinos do meu filho. Hoje moro ainda na Maré, mudei de casa, estou virando a folha aos poucos. A dor me fez mais forte, meu filho me ensina algo novo todo dia. Tudo que chega de bom pra mim com certeza vem em nome dele”.

Tanto no caso de Johnatha quanto no caso de Marcus, os responsáveis permanecem sem punição. No primeiro caso, foi decidido que processo vai à júri popular mas, a família ainda aguarda agendamento do julgamento. “O pior de tudo é ter que provar que meu filho sofreu a violência, e que ele não era bandido. Somos nós que temos de buscar provas para comprovar que um jovem desarmado, que voltava da casa da avó e levou um tiro nas costas, foi assassinado”.