Nas vésperas de dez anos, Governo do Estado pretende retomar as atividades do Teleférico do Alemão

A obra, que facilitava a acessibilidade e mobilidade urbana, está abandonada há quase cinco anos

Foto: Matheus Guimarães/Voz das Comunidades

Sentado em frente à praça do teleférico da estação central do Complexo do Alemão, na companhia do seu melhor amigo, o cachorro Citroen, Valdecir Souza observa as brincadeiras da sua neta e os amigos em um local que já foi sinônimo de esperança e prosperidade para a região. “Era um tempo tão bom…Tudo parecia mais acessível para nós. A comunidade ia de um ponto para o outro bem rapidinho, tínhamos muita esperança, mas nos tiraram”, relembra Valdecir enquanto sacode suas memórias sobre os benefícios que o teleférico trouxe para o Complexo do Alemão.

Em virtude das atividades suspensas desde setembro de 2016, o meio de transporte, que locomovia cerca de 10 mil moradores por dia, completa 10 anos desde a sua inauguração em 7 de julho de 2011. E, de acordo com o atual governador, Cláudio Castro, o governo do estado pretende retomar as atividades. 

Direcionado para a mobilidade urbana dos pontos menos acessíveis nas comunidades da região, o Teleférico do Complexo do Alemão realizava, em 16 minutos, o transporte dos moradores do Bonsucesso, Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Palmeiras. Segundo Valdecir, o funcionamento do “bondinho” (apelido dado pelos moradores) trazia a visita frequente de turistas de outras cidades e países e aumentava o fluxo de vendas no comércio local. “A gente via um monte de turistas aqui. De outras cidades e até uns gringos. Era incrível mesmo. A favela virou até cenário da novela Salve Jorge, da Globo”, comenta.  

Um marco histórico na comunidade, o Teleférico do Complexo do Alemão já serviu de cenário para telenovelas. 
Foto: Matheus Guimarães/Voz das Comunidades

Com o funcionamento suspenso, o teleférico passa por situações adversas das que foram propostas para o local. Hoje, em situação de abandono, há riscos de novos cabos energizados se soltarem das torres das estações e atingirem as residências próximas aos locais, como aconteceu em fevereiro de 2019 na Baiana e, em maio de 2020, no Morro do Adeus. E o entorno do local também passa por um processo de descaso público, servindo como cemitério de sucata das viaturas da Polícia Militar. 

Promessas de retorno desde 2019

O meio de transporte é alvo constante de promessas em campanhas eleitorais e do governo do Rio. Com três anos de portas fechadas, em setembro de 2019, a Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos acompanhou uma equipe da Secretaria de Transportes, que realizava uma visita ao Complexo do Alemão. Naquele ano, a ação envolvia uma promessa do então governador Wilson Witzel, hoje réu na Justiça Federal, que prometia a retomada das atividades. 

Morador do Alemão há 50 anos, Valdecir Souza relembra os tempos de acessibilidade e mobilidade urbana na comunidade. 
Foto: Matheus Guimarães/Voz das Comunidades

Em 5 de maio deste ano, o atual governador Cláudio Castro anunciou, em entrevista à BandNews FM, a pretensão de contratar uma nova empresa para o teleférico do Complexo do Alemão. Em nota para a reportagem do Voz das Comunidades, o Núcleo de Mídia Alternativa e Comunitária, área de comunicação do Governo do Rio de Janeiro que cuida dos assuntos relacionados às comunidades cariocas, informou que o projeto de recuperação das estações de energia do Teleférico do Alemão foi concluído. 

Em nota, o Governo do Estado diz estar, atualmente, em tratativas com a Justiça e o Ministério Público para a licitação da contratação de uma nova concessionária que ficará responsável pelos investimentos necessários para a retomada das operações. Segundo o governo, não há um prazo definido para a solução do impasse. 

Para a conclusão das obras que possibilitaram o circuito, a Secretaria de Estado de Transportes investiu R$253 milhões. Com 152 gôndolas, passageiros dividiam-se em até dez pessoas, oito sentadas e dois em pé. Moradores do Alemão podiam usar o transporte sem custo por todo o percurso, que tem o total de 3,5 km de extensão. 

O contexto atual do Teleférico do Alemão evidencia o descaso público com a mobilidade urbana de moradores da favela. Mas, também, a desconsideração com cerca de 100 famílias que foram realocadas, em 2010, para a instalação desse importante meio de transporte nas comunidades.