Neste mundo, quem é o povo mais interessado na reforma da Igreja que não o povo negro?

Apesar da maioria dos evangélicos serem negros, a maioria dos cargos de poder nas denominações protestantes brasileiras pertencem às pessoas brancas

Foto: Lucas VieiraFoto: Lucas Vieira

Por: Jackson Augusto para PerifaConnection, na Folha de S.Paulo

Existe salvação para a branquitude? Começo o texto com esse questionamento, pois entendo que o livro sagrado dos cristãos não é um livro sobre a história do homem branco, de pessoas nórdicas ou do triunfo romano.

A Bíblia fala sobre povos formados a partir de civilizações africanas, reinados egípcios e impérios cuxitas que foram importantes para a história e formação do povo hebreu.

Em outubro é comemorada a Reforma Protestante, que ocorreu em 1517, com um ato de protesto de Martinho Lutero ao pregar 95 teses na porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, na Alemanha. Um marco que, segundo a Liv Sovik, é um dos eventos históricos que constrói a subjetividade da “nova história” contada pela branquitude.

A forma de contar a história constrói os marcos civilizatórios da branquitude como o centro dos acontecimentos da humanidade.

Nesse sentido, a história contada pelos brancos se torna e fim, fatos irredutíveis e universais, que são jogados para o lugar da neutralidade e normalidade. Contam a história como se fosse a primeira ou última vez que grupos ligados ao evangelho cristão liderassem uma ruptura contra o poder dominante.

A mensagem principal da reforma para a Igreja está no jargão “Ecclesia Reformata et Sempre Reformanda est”, que significa “A igreja reformada sempre se reformando”.

A expressão máxima da reforma protestante europeia nos aponta uma prática crítica e contínua de protocolo quanto a maneira de ser igreja. Qual a contribuição dessa reforma para a nossa realidade, para as pessoas negras que estão todos os dias sendo violentadas pelo racismo e para os terreiros que cotidianamente são mortos de um Estado que opera o racismo religioso?

O movimento de protesto contra lógicas e sistemas de opressão é uma tradição muito anterior ao movimento europeu da reforma. Não foi a primeira vez que a Igreja de Deus, na sua tradição, se levanta contra o poder e o acúmulo que usa o nome de Deus para oprimir, escravizar e dominar pessoas.

A tradição protestante cristã nasce do próprio movimento de profetas da narrativa bíblica. Isto não pertence aos povos euro-americanos.

É importante dizer que uma experiência negra dentro do movimento protestante é historicamente comprometida com a destruição das lógicas coloniais que tentam exterminar o povo negro, não só fisicamente, mas socialmente, teologicamente e epistemologicamente também. Afinal, quem é mais interessado na transformação da Igreja no mundo que o povo negro?

É só olhar a contribuição das colaborações das igrejas negras na luta anticolonial, os movimentos dos direitos civis ou pela libertação de Nelson Mandela e o fim do Apartheid. Todos são expressões disso, pois foram movimentos liderados por líderes religiosos negros da tradição protestante.

Esses movimentos apontam para a vontade do povo negro em relação ao futuro da igreja que foi construída na experiência dos brancos. Quando Desmond Tutu convocava protestos na África do Sul, o arcebispo anglicano denunciava e exigia uma mudança radical da igreja branca da África do Sul, não somente política, mas também teológica.

O povo negro resgata a melhor tradição da fé cristã, que é o lugar profético. Os profetas das narrativas bíblicas eram atores políticos levantados por Deus para denunciar as injustiças de estruturas que atuavam contra os oprimidos, excluídos e trabalhadores.

Eles também eram chamados para anunciar e reivindicar uma realidade futura de justiça. E a luta antirracista em muito tem em comum com essa lógica, afinal, reivindicamos uma realidade que ainda não existe, mas que temos certeza de que será o final desta luta; a realidade de um povo negro vivendo de maneira plena e abundante.

Não existe maiores relevantes na mudança da Igreja que a comunidade negra, seja ela evangélica ou não, pois, apesar da maioria dos evangélicos serem negros, sabemos que a maioria das cargas de poder nas denominações protestantes brasileiras pertencem às pessoas brancas.

São elas que ditam a agenda política da igreja, que muitas vezes perseguem a comunidade LGBTQIA + ou que demonizam como religiões de matriz africana. Uma igreja melhor para o povo negro é uma igreja melhor para todo o país.

Então, quando acusam pessoas negras de heresia por pensarem a condição do ser negro dentro do contexto evangélico, não se esqueçam de que nós somos os maiores interessados ​​em a profecia da denúncia das injustiças e do anúncio de um mundo novo, no qual todas as pessoas têm lugar e voz.

Nossa teologia é corajosa a ponto de dizer que não iremos nos calar diante do fundamentalismo que se alinhado com uma agenda que não tem compromisso nenhum com a tradição protestante que existe desde o tempo dos profetas, e que foi apagado durante o período colonial.

Por isso falar de protestantismos na história da tradição cristã tem pouco a ver com Lutero. Na verdade, tem mais a ver com a luta por justiça na história da humanidade.

Jackson Augusto
É batista, integrante da coordenação nacional do Movimento Negro Evangélico, membro do Miqueias Jovem América Latina, criador de conteúdo no canal Afrocrente e articulador nacional do PerifaConnection

PerifaConnection, uma plataforma de disputa de narrativa das periferias, é feito por Raull Santiago, Wesley Teixeira, Salvino Oliveira, Jefferson Barbosa e Thuane Nascimento. Texto originalmente escrito para Folha de S. Paulo