Projeto de agroecologia integra educação e segurança alimentar na Penha

O Centro de Integração da Serra da Misericórdia empodera moradores e combate à fome através da produção de alimentos orgânicos

Projeto de agroecologia integra educação e segurança alimentar na Penha

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Em meio a casas de madeira, um grupo, formado majoritariamente por mulheres, no alto do Complexo da Penha, movimenta ideias e vidas. O Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM) é um espaço agroecológico de integração socioambiental que visa à agricultura urbana. O nome da favela na qual o projeto se encontra não poderia ser melhor: Terra Prometida, localidade que não é oficialmente mapeada por órgãos públicos. Entre os objetivos do CEM, está proporcionar segurança alimentar aos moradores da região. 

O centro de integração iniciou suas atividades no final de 2010. Sua sede era na localidade Angra dos Reis, no Grotão. Mas, a pedreira que atua na região vendeu o terreno, o que levou Ana Santos, co-fundadora do CEM, a buscar um novo espaço. “Estamos aqui na Terra Prometida há um ano. Aqui promovemos várias atividades como a Escolinha de Agroecologia, oficinas livres de agricultura urbana e de plantio e manejo de terra. Além disso, atuamos na formação de agentes populares de saúde, em parceria com a clínica da família”. 

A segurança alimentar, partindo da produção do próprio alimento por parte dos moradores, é um dos eixos centrais das ações do CEM. “Na pandemia, tivemos uma grande mobilização por meio de uma feira agroecológica. Na ocasião, doamos mais de 15 kg de alimentos orgânicos”. 

Mulheres como protagonistas

Ana Santos é moradora do Complexo da Penha e acredita na agricultura urbana como forma de resistência. “Minha mãe nasceu na Providência e depois viemos para cá. Sou da favela, sou professora e sempre acreditei que essa era uma ferramenta de transformação. Quando descobri a agroecologia, vi que as duas coisas juntas geram interação, soberania alimentar e engajamento”. 

O CEM também possui um coletivo de mulheres, para debater sobre alimentação e saúde. “Nos encontros falamos de plantas medicinais e Plantas Alimentícias Não Convencionais. Também temos uma cozinha coletiva na Aimoré, onde preparamos alimentos para distribuição e comercialização. Queremos estimular a geração de renda para chefes de família. Meu objetivo é que a mulher, principalmente a mulher preta e indígena, tenha seu papel reafirmado e seja reconhecida”, ressalta Ana.

Rosângela Trovão, de 37 anos, é uma dessas mulheres. “Tenho no meu quintal algumas coisas que até já consumimos, como quiabo, feijão, aipim, batata doce, coentro e cebolinha. É uma coisa que estamos aprendendo para nosso uso, nos dá autonomia. Vamos plantar e consumir nosso alimento, sem precisar comprar e ainda por cima sendo um produto natural. O que iríamos comer com conservantes, agora não vamos mais. É natural, sem veneno. Gera economia e saúde. Além disso, quando conseguirmos produzir uma quantidade grande, podemos comer, dividir e até verder”. 

“Estamos aprendendo para nosso uso, nos dá autonomia. Gera economia e saúde”
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Produção de dados

Além de se auto-sustentar com a produção de alimentos, o CEM sobrevive de parcerias, doações e apoios. E está iniciando um trabalho conjunto que promete dar bons frutos.

“Estamos, juntos com a Fiocruz, começando um projeto sobre moradias sustentáveis e dignas, com pesquisa e produção de dados. A Fiocruz tem sete bolsistas aqui, para pesquisa territorial e produção de dados, que tem como objetivo muito mais a incidência política e geração de renda dos moradores. Obter esses dados tanto quantitativos quanto qualitativos é fundamental na nossa reivindicação por direitos”, finaliza.