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Soluções criadas por periferias e povos originários devem ser exemplo para o Estado

COP das baixadas é exemplo de articulação pensada e aplicada por territórios negligenciados
Calçamento na zona norte apresenta problemas de mobilidade - Rubens Cavallari - 18set.22/Folhapress

Precisamos cuidar da nossa cidade. O ato de cuidar é uma sabedoria que vem do povo negro, em especial das mulheres e dos povos originários. Infelizmente, essa ação e esse conhecimento são desvalorizados pelo nosso sistema. Cuidar é sempre uma tarefa coletiva.

Um provérbio africano diz que “é necessário uma aldeia inteira para educar uma criança”. Educar é uma das formas de cuidar e exige responsabilidade de muitos e muitas. Imagine então o desafio de cuidar de uma cidade?

Falamos do cuidado como ato político, como forma de gestão de Estado, que olha o poder não como uma ponte para o favorecimento pessoal, e sim para servir ao público. Nesse sentido, existem políticas públicas sendo pensadas a partir de um sistema integrado de cuidado, inclusive do ponto de vista econômico, motivadas pela Organização das Nações Unidas.

Cidades são construídas por pessoas e podem ser mudadas. Nós circulamos pelas cidades e nelas acontecem os encontros. No entanto, há cada vez menos espaços comuns e de troca, embora a cultura siga resistindo. Se conseguirmos motivar pequenas mudanças locais, motivamos a esperança em mudanças globais.

Nas cidades, o contraste e as desigualdade são nítidos: de um lado instituições ricas e que geram lucro e do outro uma população pobre, desempregada, passando fome e que é alvo da violência. Há também muitas denúncias de crimes ambientais em diversos territórios.

No último ano do governo Bolsonaro, em 2022, o Prodes registrou mais de 11 mil km² de desmatamento na Amazônia
(Foto: Pedro Ladeira / Folhapress)

Cuidar da natureza é fundamental, cuidar de quem a protege também. Nas regiões que são alvos de desmatamentos ilegais, a fome é uma crescente. Portanto, é preciso fortalecer políticas públicas do sistema de assistência social investindo no campo– em especial na agricultura–, que gera alimentos que chegam à mesa do povo, às creches e escolas públicas por meio da merenda escolar. Porém, para isso acontecer é necessário pensar com cuidado a gestão dos recursos.

Falando em recursos, ver saúde e educação como investimentos básicos é fundamental para o cuidado. Destacamos aqui as creches e escolas, um dos poucos aparelhos públicos presentes nas periferias e favelas, e que cumprem um papel fundamental de cuidar das nossas crianças e adolescentes.

Precisamos de mais creches. Estudar tem que ser atrativo para que os filhos e filhas dessa pátria mãe gentil possam aprender e concluir o ciclo completo dos estudos.

É preciso acreditar na potência que vem das favelas e periferias, e não vê-las como lixo a ser removido, pois vemos muitas soluções sendo produzidas por elas. Uma delas é a criação da COP das Baixadas em uma das periferias mais populosas de Belém do Pará, no bairro do Jurunas.

A casa lilás de dois andares, construída em madeira, guarda uma prática de cuidado e movimentação coletiva que parte do livre acesso à leitura e do encontros de pessoas e organizações.

Foi nesse espaço, chamado de Gueto Hub, que nasceu a ideia de realizar a COP das Baixadas, evento-piloto de conferência do clima feito pela e para a periferia, construído pelas mãos de várias organizações comunitárias e coletivos de Belém e que tem como objetivo principal colocar a periferia no centro do debate climático.

Um exemplo prático de cooperação em rede que visa aproximar a discussão climática mundial do cotidiano das pessoas, incentivar o protagonismo dos jovens frente ao ativismo climático, além de chamar a atenção de autoridades públicas sobre a necessidade de debater com as comunidades impactadas pela crise climática.

Nesta primeira edição, foram definidos três eixos principais de discussões: Direito à Cidade – Mobilidade, adaptação e políticas públicas; Comunicação – Artivismo e intervenção artística como conscientização nas periferias; e Clima e Sociedade – Impactos nas periferias, soberania alimentar, alagamentos, deslizamento e migração.

Temas que serão abordados por atrações artísticas, debates e feira criativa. A programação virtual iniciou-se nesta quinta (9) e segue na sexta (10), com transmissão no canal do YouTube do projeto Telas em Movimento. Encerra-se no sábado (11), com um Fórum de Desconferência, de forma presencial, na Usina da Paz Jurunas, em Belém.

O que é uma COP?

A chamada “Conferência do Clima” (COP) da Organização das Nações Unidas (ONU) é o maior encontro realizado no mundo sobre as mudanças climáticas. Tem como objetivo discutir o clima e, principalmente, tomar decisões sobre essa urgente necessidade. Por causa dessa relevância, a sociedade civil tem cobrado maior participação nas decisões tomadas pelos líderes governamentais. Lideranças periféricas, negras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas constantemente pleiteiam este espaço, já que as mudanças climáticas atingem diretamente seu dia a dia.

A cidade de Belém é a capital do Pará e foi escolhida pelo atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como candidata para receber a próxima Conferência do Clima (COP30), programada para ocorrer no ano de 2025. Se depender das periferias, estaremos lá construindo a conferência que queremos!

Lula participa de reunião na COP27

Wesley Teixeira: Morador da Baixada Fluminense, integrante do PerifaConnection, da Coalizão Negra por Direitos e da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito

Joyce Cursino: Fundadora da Negritar Filmes e Produções (PA)

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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