Vozes pela ação climática e diversidade na COP26

Pela primeira vez, lideranças indígenas e lideranças do movimento negro brasileiro tiveram um destaque importante nos espaços dentro e fora da conferência

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Por: Karina Penha para PerifaConnection, na Folha de S.Paulo

Um cenário de urgência climática. E assim que, após um ano de adiamento, a conferência anual de clima da ONU, a COP26, aconteceu em Glasgow, na Escócia, e movimentou diálogos no mundo inteiro. Com relação ao Brasil, o evento contou com mais de 80 jovens engajados na construção de soluções justas e sustentáveis para suas cidades, territórios, periferias e pro mundo.

Após a publicação do último relatório do IPCC —Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas—, da ONU, que apontou nós, seres humanos, como os principais responsáveis pela crise climática, as expectativas para essa conferência foram grandes.

Ainda assim, parece que os grandes líderes mundiais —inclusive o brasileiro— não possuem as ambições necessárias para resolver essa situação. Na contramão, juventudes e povos tradicionais do mundo inteiro exigem ações mais justas.

A COP26 nunca foi um espaço inclusivo ou que se preocupasse em receber todas as vozes diretamente envolvidas no debate climático. Chegar nesse espaço sempre se tratou de ocupar um debate que é nosso por direito.

Após 26 anos de conferências, o cenário parece mudar e, dessa vez, os rostos presentes na conferência pareceram mais familiares. A urgência da questão convoca mais do que nunca as vozes pela ação climática.

A diversidade cresce à medida que mais oportunidades de incidência são criadas. Durante a manhã do dia da juventude vários debates movimentaram o Brazil Climate Action Hub (espaço de sociedade civil brasileira dentro da conferência).

Destacam-se as experiências dos jovens ativistas do Muvuca, programa de ativismo climático para jovens amazônicos idealizado pela organização de direitos humanos e socioambientais Nossas e uma roda de conversa com o Perifa Sustentável, Engajamundo, Rellac Jóvenes entre outras lideranças jovens, mulheres, negras e periféricas.

As vozes das juventudes dentro da conferência partem de muitos lugares diferentes, mas todas ecoam um mesmo pedido: Justiça Climática agora! E assim como um maior número de representantes de juventudes também cresce a diversidade de participação e das falas que partem de uma ótica local para um contexto global.

Pela primeira vez, lideranças indígenas e lideranças do movimento negro brasileiro tiveram um destaque importante nos espaços dentro e fora da conferência, como exemplo a ativista Indigena Txai Suruí, que abriu a conferência, e o ativista Douglas Belchior da coalizão negra por direitos, que fechou a marcha global pelo clima em Glasgow.

Eles passaram a mensagem que falar sobre a titulação dos territórios quilombolas e sobre a demarcação de terras indígenas no Brasil é uma luta pela garantia de vida não só para os povos das florestas como para todos os povos da terra.

Enquanto as grandes negociações a portas fechadas não caminharam para onde deveriam, na linha de frente dos espaços paralelos, ruas e diálogos, a juventude tem ocupado a liderança e passado sua mensagem para o mundo. É potente ver como as vozes ecoam muito mais longe quando gritamos juntos.

Talvez o maior e mais importante resultado dessa conferência seja perceber o quanto o debate da justiça climática tem se descentralizado e o acesso à informação sobre o tema tem ocupado mais debates. Porém, precisamos também que essas mudanças sejam refletidas nos espaços de tomada de decisão.

O trabalho de quem constrói soluções nos seus territórios não começa e nem termina no espaço da COP, mas é nesse espaço que podemos ver uma pequena amostra das desigualdades e é por isso que trabalhamos para que ele se torne cada vez mais diverso, inclusivo e igualitário, pois só assim iremos construir soluções eficazes, reais e justas.

Karina Penha
Bióloga e ativista socioambiental. Faz parte da iniciativa Fé no Clima, é articuladora do Engajamundo e mobilizadora do Nossas

PerifaConnection, uma plataforma de disputa de narrativa das periferias, é feito por Raull Santiago, Wesley Teixeira, Salvino Oliveira, Jefferson Barbosa e Thuane Nascimento. Texto originalmente escrito para Folha de S. Paulo